Propaganda enganosa russa se intensifica rapidamente na América Latina

As notícias falsas patrocinadas pelo Kremlin visam a minar as fontes de informação e as instituições democráticas ocidentais, bem como reduzir a influência generalizada dos países ocidentais.
Brian Fonseca, diretor do Instituto de Políticas Públicas do Jack D. Gordon da Escola Steven J. Green para Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade Internacional da Flórida (FIU) | 24 julho 2018

Ameaças Transnacionais

Exemplo de propaganda russa da época bolchevique convocando trabalhadores e soldados a defender a cidade de Petrogrado (São Petersburgo). A propaganda russa moderna visa a enfraquecer a confiança em fontes ocidentais de informações. (Foto: AFP)

O ressurgimento da Rússia na política internacional, após o colapso da União Soviética, inquietou muitas pessoas da comunidade de política externa dos Estados Unidos. Especialistas russos de longa data estão alertando Washington sobre a ameaça crescente de Moscou às democracias de todo o mundo — inclusive as democracias da América Latina e do Caribe. A capacidade limitada da Rússia de exercer sua influência na comunidade internacional, usando instrumentos tradicionais de poder — tais como instrumentos diplomáticos, econômicos e militares — a forçou a depender mais expressivamente de sua habilidade de buscar influenciar as populações por meio de uma mistura insidiosa de atividades coordenadas pelo Estado, concebidas para usar propaganda, informações errôneas e desinformação a fim de moldar a forma de as pessoas pensarem. A propaganda, as informações errôneas e a desinformação são apenas alguns dos componentes daquilo que os russos chamam de propaganda.  

Durante décadas, a propaganda russa tem sido uma característica fundamental da política externa do país em seu “exterior próximo” — isto é, nas ex-repúblicas soviéticas e nos países do Pacto de Varsóvia em estreita proximidade geográfica com a Rússia. No entanto, nos últimos anos, Moscou tem intensificado seus esforços para se reorganizar e participar de atividades constantes de propaganda em seu “exterior longínquo” — isto é, regiões tão distantes quanto a América Latina e o Caribe. O objetivo de Moscou é minar as fontes de informação e as instituições democráticas ocidentais, bem como reduzir a influência global do sistema internacional comandado pelo Ocidente.

 A propagada russa debilita a confiança nas fontes ocidentais de informação

O objetivo da propaganda russa na América Latina não é convencer o público a respeito dos méritos de sua política, incrementar a imagem da Rússia ou promover uma visão de mundo russa, mas sim minar a confiança nas instituições ocidentais, como a democracia e o livre comércio, bem como em fontes de informação predominantemente ocidentais. No ambiente de informação de hoje, a responsabilidade de encontrar a verdade passou dos veículos de mídia para os indivíduos, e isso está complicando a habilidade destes indivíduos de examinarem o ambiente midiático extremamente saturado a fim de encontrar a verdade. Segundo o Fundo Nacional para a Democracia, a propaganda é usada por Moscou para alcançar seus “objetivos de política externa por meio de um ataque “4D”: desconsiderar as afirmações ou alegações de um oponente, distorcer os fatos para atender a propósitos políticos, desviar a atenção de suas próprias atividades e desmoralizar aqueles que possam, por outro lado, se opor aos seus objetivos. 

 Na América Latina, a mídia russa atua para criar confusão suficiente a ponto de desafiar o apoio às narrativas das mídias baseadas nos EUA e nos países ocidentais, e também minar a eficácia das instituições democráticas por toda a região. O apoio público à democracia decresceu de 61 por cento para 53 por cento, em 2017, segundo o Projeto de Opinião Pública da América Latina, da Universidade Vanderbilt. Talvez, o declínio do apoio à democracia na América Latina seja um indício do sucesso da propaganda russa. Os meios de comunicação controlados pelos russos fazem isso aproveitando-se das suspeitas de longa data sobre a política norte-americana para com a região e exagerando, distorcendo ou fabricando mentiras com respeito às atividades dos EUA e de outros países ocidentais na região.

 O uso de informações pelos russos não possui nenhum paralelo concreto no Hemisfério Ocidental. A habilidade cada vez maior de manipular narrativas é fundamental para a estratégia russa — Moscou envida esforços para fragmentar e desarticular a suposta predominância das narrativas da mídia ocidental por meio do suprimento de perspectivas alternativas, criadas a partir das suspeitas inatas de seu público. A propaganda russa pode ser classificada em três formas: preto, branco e cinza. Campanhas de informação pretas são narrativas factualmente errôneas, com um iniciador falso. Campanhas de informação brancas têm como base a verdade e a identificação aberta da fonte. Campanhas de informação cinzas são narrativas que distorcem verdades ou alteram o contexto, e podem ocultar o iniciador.

 Moscou continua adaptando essas operações às tecnologias emergentes, como programas da internet, plataformas de mídias sociais e bots (aplicativo de software criado para automatizar tarefas na internet). Segundo o pesquisador do Instituto para Estudos Estratégicos Nacionais dos EUA, Dr. G. Alexander Crowther, há três tipos de mídias que promovem as perspectivas russas. As primeiras são mídias como o RT e Sputnik Mundo, que admitem claramente sua afiliação ao governo russo. As segundas são as estabelecidas na Agência de Pesquisa em Internet da Rússia, que usa trolls e bots para disseminar desinformação 24 horas por dia, sete dias por semana. As terceiras são mídias gerenciadas por pessoas em todo o mundo que amplificam os temas pró-russos, conscientemente ou não, depois de serem influenciadas pelas atividades descritas acima.

 Uma continuidade do antigo manual soviético

O uso da propaganda russa para ajudá-la a alcançar seus objetivos de política externa não é nada novo. Moscou vem participando do propaganda há quase um século. Na década de 1920, campanhas de informação russas atuaram para desacreditar comunidades dissidentes na Europa. Durante o período soviético, Moscou institucionalizou o uso da propaganda nos serviços russos de segurança e inteligência, estabelecendo uma unidade de desinformação dentro do Primeiro Diretório Central da Agência Soviética de Inteligência. A propaganda russa se intensificou no final da década de 1970 e início da década de 1980. Na década de 1980, os propagandistas russos tentaram atribuir a origem da AIDS a um experimento dos EUA com armas biológicas sendo realizado em Fort Detrick, Maryland. Essa operação, chamada Operação Infektion, era uma dentre muitas visando a desacreditar os EUA em todo o mundo. 

 A propaganda russa não é completamente nova para a América Latina tampouco. No início da década de 1980, a Rússia usou informações errôneas para desacreditar os EUA em seu “exterior próximo”. A Rússia usou informações errôneas em uma tentativa de desacreditar o apoio salvadorenho à política norte-americana na América Central. Segundo avaliações da CIA tornadas públicas, em dezembro de 1980, o jornal oficial do Partido Comunista da União Soviética, Pravda, publicou uma história falsa que alegava que os EUA teriam usado napalm e herbicidas contra não-combatentes em El Salvador. Em janeiro de 1981, o jornal russo Literaturnaya Gazeta publicou um artigo que alegava, falsamente, que os EUA estariam se preparando para eliminar milhares de salvadorenhos — de certa forma lembrando os salvadorenhos, e a região, do passado sombrio de El Salvador, quando suas elites tentaram livrar o país de suas comunidades indígenas.

 A propaganda russa está se intensificando na América Latina e no Caribe

A propaganda, as informações errôneas e a desinformação russas aumentaram consideravelmente ao longo da última década. Veículos de mídia russos, como o RT, Sputnik Mundo, TASS e Voz da Rússia estão transmitindo ativamente na América Latina. Ao contrário de veículos ocidentais consagrados, como a CNN, MSNBC, FOX e BBC, os veículos russos não estão operando como uma mídia independente, mas sim, apoiando diretamente os objetivos da política externa russa. A mídia russa se aproveita do número crescente das plataformas para transmitir informações — teledifusão, mídias sociais e internet — a fim de atingir e influenciar o público latino-americano, geralmente em espanhol.

 O investimento russo em veículos de mídia russos no mundo inteiro atingiu cerca de 323 milhões de dólares (um bilhão de reais) em 2017; no entanto, não há nenhuma evidência estatística com relação à penetração da mídia russa na América Latina. Estima-se que o canal de televisão RT e a agência de notícias Sputnik possam atingir, sozinhos, quase toda a região. O canal RT possui acordos com aproximadamente 320 provedores de TV a cabo em toda a região. Seu lema é “questione mais”, o que mostra sua intenção de desafiar as narrativas ocidentais e promover teorias conspiratórias. A princípio, a transmissão de mensagens pelos russos pareceu oportunista e sem uma boa coordenação entre os diversos veículos de mídia controlados por russos na região. No entanto, nos últimos anos, isso mudou e a mídia russa parece muito mais coordenada em suas atividades de transmissão de mensagens.

 Além disso, a propaganda russa geralmente explora os veículos de mídia carentes de fundos e recursos, inclusive muitos na América Latina, a fim de amplificar sua mensagem. Eles são conhecidos como veículos substitutos de mídia. Os veículos latino-americanos possuem capacidade limitada de verificar os fatos de todas as informações e, na corrida para garantirem um conteúdo novo, encontram-se republicando narrativas da mídia russa. Isso dá a impressão de que a mensagem da Rússia é coerente com a mensagem da América Latina. De fato, Moscou prefere que a mensagem venha de veículos latino-americanos de mídia pois isso transmite uma maior credibilidade.

 Uma das narrativas falsas, intensamente propagandeada pela Rússia na América Latina, trata da presença militar norte-americana na região. Moscou se dá conta do legado histórico das intervenções militares norte-americanas na região e está tentando tirar proveito dessa história para difundir informações errôneas. Em 2016, Sputnik Mundo publicou uma história falsa alegando que os EUA estavam construindo duas bases militares na Argentina — uma na Patagônia e outra na região da Tríplice Fronteira. No início de 2017, o RT Actualidad publicou mais uma história falsa, alegando que os EUA estavam instalando uma nova base militar na Amazônia peruana. O momento das duas campanhas de transmissão de mensagens coincidiu com a venda de equipamentos militares norte-americanos, em curso na Argentina e no Peru. Isso demonstra a intencionalidade do uso da propaganda russa para obter ganhos específicos. Nos casos do Peru e da Argentina, o interesse era prejudicar as vendas dos equipamentos militares norte-americanos na região.

 Em 2017, o ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA, H.R. McMaster, e o senador Marco Rubio declararam que as campanhas de desinformação russas estavam sendo usadas para configurar os resultados de várias eleições latino-americanas iminentes, inclusive as eleições brasileiras, colombianas e mexicanas. A alteração dos cenários políticos entre aliados importantes dos EUA, passando de ambientes amistosos a ambientes mais antagônicos, seria uma vitória enorme para Moscou.

 No final de 2017, o RT publicou um artigo insinuando que o Reino Unido seria o responsável pelo desaparecimento do submarino argentino ARA San Juan. O artigo alegou que o submarino argentino estava sendo “perseguido” por um helicóptero britânico. Na verdade, a aeronave C-130 da Força Aérea Real, baseada nas Ilhas Malvinas, foi uma das primeiras a chegar ao local para fornecer seu apoio nas missões de busca e resgate. Esses são os tipos de alegações distorcidas e sem fundamento, coerentes com as atividades russas de desinformação e de transmissão de informações errôneas na região.

 Além das plataformas de mídia, a Rússia está estreitando seus laços pela América Latina por meio de ONGs, empresas e da Igreja Ortodoxa Russa, na tentativa de se valer dessas comunidades para amplificar a mensagem de Moscou, de maneira similar à forma com que Moscou se aproveitou das comunidades de língua russa na Estônia e na Ucrânia. No entanto, em um futuro próximo, as comunidades de língua russa continuarão sendo um instrumento disponível, mas limitado, na promoção dos interesses de Moscou na América Latina. A chamada Diáspora Russa não conseguiu qualquer influência política significativa para forjar as políticas latino-americanas e caribenhas ou para promover a influência política russa. Caso seja duradoura, a diáspora continuará servindo, a longo prazo, como um instrumento para promover as perspectivas russas e reduzir a distância entre as sociedades latino-americana/caribenha e Moscou.

 Além disso, a mídia russa encontra-se entre dezenas de veículos de mídia, representando países em todo o mundo. Essa saturação de informação talvez dilua o impacto que a mídia russa exerce na região, embora ainda não haja nenhuma forma científica de medir o impacto da propaganda russa. Contudo, a maior oportunidade de crescimento para veículos de mídia russos, como o RT e o Sputnik, encontra-se nos programas online e nas mídias sociais. Esses são os meios aos quais a maioria do público mais jovem, de classe média, recorre para obter suas informações, o que oferece ao Kremlin uma oportunidade de atingir, de forma eficaz e eficiente, a maioria dos setores influentes da sociedade.

 A fim de atenuar, eficazmente, a ameaça da propaganda russa, os EUA e seus aliados latino-americanos devem continuar reforçando a importância das instituições e dos princípios democráticos por meio da prática e ajudando a criar resiliência entre as comunidades da região.  Por fim, os EUA e seus aliados devem continuar expondo as mentiras contidas nas mensagens russas, bem como as práticas autoritárias de Moscou, que funcionam de maneira oposta à cultura política emergente entre as sociedades latino-americanas.

 

*Brian Fonseca também atua como professor adjunto no Departamento de Política e Relações Internacionais da FIU, e é pesquisador em Políticas de Segurança Cibernética, na think tank New America, em Washington D.C.

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