Rússia se volta para Cuba diante da crise na Venezuela e na Nicarágua

Moscou investe nas Forças Armadas cubanas para garantir sua presença estratégica no mar do Caribe.
Gustavo Arias Retana/Diálogo | 21 março 2019

Capacitação e Desenvolvimento

Uma limusine de fabricação soviética passa em frente ao navio de guerra russo classe Vishnya, atracado no porto de Havana. Moscou utiliza os navios para coletar informações de inteligência. (Foto: Adalberto Roque, AFP)

No início de fevereiro de 2019, o governo russo anunciou a aprovação de um crédito para que Cuba adquira novos armamentos, cuja decisão mostra o renovado interesse político e militar de Moscou na ilha, face às crises humanitárias dos seus dois aliados mais ativos na região: Venezuela e Nicarágua. Segundo Carlos Murillo, analista de relações internacionais da Universidade Nacional da Costa Rica, esse crédito no valor de US$ 42 milhões indica que a Rússia vê cada vez menos opções de projeção na Venezuela e na Nicarágua.

“Maduro já não pode ajudar Cuba, que se aproxima de um novo ‘período especial’, como o da década de 1990, quando a Rússia retirou seu apoio, e agora Havana precisa de assistência com urgência. É melhor avisar com antecedência ao ‘amigo’ que ele está lá para ajudar”, garantiu Murillo à Diálogo. “Moscou pressente a volta da Guerra Fria e vê sua presença militar na ilha como estratégica nesse cenário.”

Antonio Barrios, especialista em geopolítica e segurança da Universidade da Costa Rica, concorda com Murillo e acrescenta que após o fim da Guerra Fria em 1991, com a dissolução da União Soviética pelo reconhecimento da independência dos países bálticos, houve um afastamento entre Moscou e Havana. Agora, o Vladimir Putin reativou esses laços, fortalecidos pelas crises que seus aliados vivem na região.

“Putin se interessou em reativar e aprofundar as relações com Havana. Durante vários anos, especialistas russos viajaram à ilha para fortalecer os laços comerciais, políticos e militares”, disse Barrios à Diálogo. “A ilha busca esse investimento militar há muito tempo, porque deixou de renovar seu arsenal. O interesse de Moscou em fortalecer Cuba ocorre porque a ponte construída pelo chavismo está quebrada ou prestes a ruir.”

Atraso militar

Apesar dos investimentos russos em Cuba, alguns especialistas acham que as aspirações militares castristas são limitadas, já que seu papel geopolítico mudou completamente e o atraso em termos de atualização de equipamentos de defesa é grande. O único elemento de destaque na ilha atualmente, o qual seria um dos principais interesses russos, é a sua localização geográfica.

“Cuba já não tem o protagonismo nem as aspirações do século passado e não se lançará a aventuras militares em várias partes do mundo; no momento, o seu interesse é sobreviver”, explicou Murillo. “No entanto, caso o cenário internacional se torne tenso, não duvido que o país esteja disposto a fornecer tropas, como no passado.”

Turistas visitam uma exposição de armamentos da era soviética em La Cabaña, Havana, no dia 16 de outubro de 2017. (Foto: Yamil Lage, AFP)

Barrios também acha que, apesar dessa fraqueza militar, Cuba é um país importante no controle estratégico do Caribe. Diante do panorama atual, seria uma das poucas opções de Moscou para conseguir uma cota de poder na região.

“A questão militar havia ficado para trás na ilha, pois só tem armamentos obsoletos da era soviética. O que interessa agora à Rússia é não apenas poder garantir um pouco o fator político da relação, mas também dotar o país de melhores condições militares”, acrescentou Barrios. “Esse investimento garante a Moscou uma presença militar no Caribe, pois a Rússia sabe que isso só será possível se tiver uma presença em Cuba.”

Mudança na Nicarágua

Ainda que em menor escala que em relação aos venezuelanos, a crise social que vivem os nicaraguenses também afeta o renovado interesse russo no Caribe. Segundo Murillo, para Moscou está claro que o presidente da Nicarágua Daniel Ortega é um dos seus aliados mais fracos e que é possível que ele saia do poder. Isso faz com que Cuba se torne uma aposta mais segura para os russos do que investir para manter Ortega no poder.

“O ponto de menor interesse de Moscou [na América Latina] é Manágua. Putin sabe que Ortega tem poucas chances de sobreviver; então, ele o apoiará, mas sem arriscar muito” disse Murillo. “O interesse em Cuba não diminui a necessidade da Rússia de apoiar o regime nicaraguense, acrescentou Barrios. “Se a crise persistir na Venezuela, a posição do país eslavo na América Latina ficaria muito afetada.”

Pode haver um efeito dominó complicado para a Rússia. Se Maduro cair, é provável que não caia o regime castrista, mas Ortega pode cair. Os três únicos aliados de Moscou [no hemisfério] são Nicarágua, Cuba e Venezuela.

“Putin apoiará Maduro enquanto puder, porque com isso garante a sobrevivência da Nicarágua”, concluiu Barrios. “Por esse motivo, há interesse em Cuba; a ilha não depende de Ortega para sobreviver.”

O interesse expansionista de Moscou na América Latina continua. Cuba aparece como seu novo recurso face ao enfraquecimento do chavismo na Venezuela. Os países latino-americanos deverão estar atentos aos movimentos externos com relação à ilha, porque, como já ficou demonstrado no passado, a política exterior russa só tem um interesse: a Rússia.

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