Rússia tenta salvar regime chavista para recuperar seus investimentos

Moscou tenta recuperar os ativos financeiros que confiou a Maduro.
Julieta Pelcastre/Diálogo | 15 março 2019

Ameaças Transnacionais

Os partidários do movimento de oposição venezuelano participam de um comício em Caracas, no dia 12 de fevereiro de 2019, para pressionar Maduro a deixar o poder. (Foto: Yuri Cortez, AFP)

A Rússia corre o risco de perder seus investimentos políticos e econômicos na Venezuela pelo seu apoio solidário ao regime de Nicolás Maduro. Face à iminente mudança do governo venezuelano, Moscou aposta em diferentes frentes para respaldar o líder chavista, recuperar sua posição na tomada de decisões em Caracas e salvar o que for possível.

Um cidadão contrário a Maduro ergue um cartaz em um comício em Urea, estado de Táchira, na Venezuela, para protestar contra a violência do governo contra a população. (Foto: Juan Barreto, AFP)

“O governo russo sabe que seus investimentos correm perigo se seu sócio estratégico na América Latina perder o poder”, disse à Diálogo Yadira Gálvez, especialista em defesa e segurança e professora da Universidade Nacional Autônoma do México. Como parte desse jogo, um avião Boeing 777 da companhia aérea russa Nordwind pousou pela segunda vez no Aeroporto de La Guaira, em Caracas, no dia 28 de janeiro de 2019. O que trouxe e o que levou a bordo, três dias depois, é desconhecido.

“Chegou um avião de Moscou no qual se pretende levar pelo menos 20 toneladas de ouro”, disse à imprensa o deputado da Assembleia Nacional da Venezuela José Guerra. “Exigimos que o Banco Central da Venezuela explique com detalhes o que está ocorrendo. Esse ouro pertence ao povo venezuelano.”

As autoridades russas responderam através das suas agências estatais de informação “sobre o suposto voo” com um lacônico “não há informação”. A mesma aeronave de carga pousou ao lado do hangar presidencial no mesmo aeroporto, no dia 3 de dezembro de 2018, quando Maduro viajou a Moscou para fortalecer suas relações estratégicas com o presidente russo Vladimir Putin.

“As viagens do avião russo são uma provocação”, disse à Diálogo Juan Belikow, professor de Relações Internacionais da Universidade de Buenos Aires. “Com isto, a Rússia afirmou seu apoio a Maduro”, acrescentou.

“A visita do avião russo coincide com as sanções do governo dos Estados Unidos contra a petrolífera estatal Petróleos da Venezuela S.A. [PDVSA, dona dos postos de gasolina Citgo]”, disse Gálvez. “Até agora, essa foi uma das medidas mais fortes contra o governo de Maduro, cada vez mais encurralado. A PDVSA é a maior fonte de receita da Venezuela.”

Putin e Maduro disseram que essas sanções são ilegais. Dias depois, em 10 de dezembro, a Rússia enviou à Venezuela dois bombardeiros da sua Força Aérea para mostrar seu poderio militar. “Maduro se apega a Moscou para permanecer no poder e Putin se apega a Caracas porque faz parte do seu projeto político e pessoal de projeção global no novo contexto internacional”, disse Gálvez.

País em risco

Um Boeing 777 da companhia Nordwind Airlines da Rússia permanece pousado ao lado do hangar presidencial no aeroporto de La Guaira, no dia 30 de janeiro de 2019. (Foto: Juan Barreto, AFP)

Em 1999, Chávez declarou diante do Congresso venezuelano que a falta de investimentos nos serviços públicos estava empurrando seu país para uma verdadeira emergência, razão pela qual recomendou a obtenção de empréstimos para renovar a infraestrutura estratégica. Em 2005, a Venezuela devia US$ 45 bilhões à China. A Rússia aproveitou a situação para oferecer dinheiro em troca de petróleo.

O dinheiro dos empréstimos foi utilizado para fins diferentes do seu propósito original, incluindo uma desmedida militarização, enquanto a infraestrutura nacional continua se deteriorando. Por exemplo, a série de apagões que começaram no dia 7 de março de 2019 em quase todo o país ocorre em função de redes e equipamentos elétricos deteriorados e obsoletos, bem como pela manutenção insuficiente devido à falta de trabalhadores, demitidos por terem participado de manifestações contra Maduro. “Estes apagões causaram a morte de no mínimo 17 pessoas que estavam em tratamento médico em hospitais”, garantiu o presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, em 10 de março.

Apoio condicionado

Belikow e Gálvez disseram que a Rússia destinou bilhões de dólares para apoiar o regime chavista, desde o aumento da produção petrolífera e mineradora até a outorga de créditos armamentistas. O Ministério das Finanças russo revelou à imprensa em janeiro de 2019 que a Venezuela deve pagar no mínimo US$ 100 milhões no final de março para não cair em descumprimento do pagamento da dívida de US$ 3,15 bilhões que tem com o seu país. O compromisso foi assumido em novembro de 2017, com a garantia de 51 por cento das ações das redes de postos de gasolina Citgo. A empresa russa Rosneft possui 49 por cento das mesmas, de acordo com o seu website. Segundo os termos do acordo, o empréstimo deve ser pago no prazo máximo de 10 anos.

O vice-ministro de Finanças da Rússia Sergei Storchak disse à imprensa que até agora não existem parcelas em atraso, mas que no momento não descarta a falta de pagamento, devido à crise política que impera no país. “Talvez haja problemas. Tudo depende do Exército, dos militares, de quão obedientes serão”, acrescentou, embora não tenha esclarecido os tipos de sanções que a Rússia poderia impor, nem o tipo de obediência que se exigirá dos militares.

Armas por petróleo

Em janeiro de 2018, Putin demonstrou seu interesse em equipar o país sul-americano com novos armamentos. A Venezuela é o maior importador de armas russas da América Latina, segundo o relatório da Associação Civil de Controle Cidadão, Venezuela: Aquisições de sistemas de armas e material militar.

“A Rússia corre o sério risco de ficar impossibilitada de cobrar as somas relativas às armas que vendeu desnecessariamente para apoiar um regime questionável”, comentou Belikow. “Na medida em que apoie o regime ilegítimo, inclusive criminoso, corre o risco de perder todos os seus investimentos.”

Além das declarações políticas em apoio ao regime chavista e das demonstrações do seu poderio militar, a Rússia tenta se garantir com medo de perder seus negócios. “Putin manterá sua promessa de fazer tudo o que for necessário para defender o regime de Maduro, exceto militarmente”, disse Gálvez. “Mas a Rússia sabe que a sua estratégia é limitada”, acrescentou Belikow.

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