Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Responsabilidade da mídia na ciberjihad

Com a comunicação de massa, as organizações terroristas atingem os seus alvos onde quer que eles estejam.
Colonel Fernando Montenegro* | 2 novembro 2016

Ameaças Transnacionais

Membros da Polícia da Espanha prendem um marroquino suspeito de recrutar novos militantes para o grupo Estado Islâmico, em Valência, em 7 de junho de 2016. (Foto: José Jordán /AFP)

O terrorismo transnacional, considerado como uma das principais ameaças à segurança internacional, é um tema de grande relevância sobre o qual é necessário refletir e buscar as respostas adequadas e sensibilizar a opinião pública, que é elemento fundamental na legitimação do processo de decisão em regimes democráticos. Nesse cenário, o papel da mídia tem participação decisiva no sucesso ou fracasso no combate à ciberjihad.

Como se sabe, o terrorismo não é um fenômeno recente. As alterações estão nos objetivos, métodos, meios utilizados e, nesse sentido, no seu impacto estratégico. O terrorismo transnacional, materializado recentemente pelos atentados de Istambul, Paris, Bruxelas e Nice, caracteriza essa evolução. O escopo é provocar alteração no estilo de vida e nos valores das sociedades democráticas, fomentando o terror através da utilização de violência em larga escala e apresentando potencial capacidade de atuação em nível global. Os métodos passam pela utilização das redes de contatos transnacionais, muitas vezes em associação com a criminalidade organizada e pelo recrutamento dos designados “foreign fighters” (combatentes estrangeiros), normalmente jovens radicalizados em um contexto de desintegração social nas sociedades ocidentais.

Ao se observar este contexto, também se constata que a utilização dos meios apresenta mudanças. Depois de utilizar aeronaves civis nos atentados de 11 de setembro de 2001, aproveitando meios do próprio país-alvo, destaca-se agora o uso acessível de recursos de redes criminosas. Este contexto acrescenta uma dimensão muito relevante: o aproveitamento de novas tecnologias de informação e comunicação, que se manifesta de várias maneiras, tais como propaganda imediata das ações realizadas, atuando na componente psicológica da difusão do terror e do medo, e utilização das redes sociais como meio de comunicação entre as redes operacionais e instrumento de prospecção, recrutamento e radicalização.

Em face deste cenário, fica claro que não há nação imune a esta ameaça global e que a sua prevenção e combate exigem cooperação internacional entre os Estados, serviços de informação eficazes (essenciais para prevenir atentados terroristas) e o emprego de estratégias de resposta integradas, quer pelos países, quer pelos órgãos de cooperação internacionais.

O combate ao terrorismo não se esgota apenas no isolamento da desarticulação de redes terroristas e na destruição da sua capacidade criminosa; ele requer também uma política de cooperação internacional multifacetada, capaz de combater eficazmente o subdesenvolvimento, a miséria e a ausência do estado de direito, que são os contextos favoráveis ao desenvolvimento de muitas lógicas terroristas.

Isso exige estratégias integradas que combinem ações diplomáticas, militares e policiais, abrangendo também ações de informação pública, de natureza econômica, financeira e social.

No tocante às estratégias de comunicação como forma de prevenção e resposta ao terrorismo transnacional, será necessário refletir sobre as necessárias linhas de ação para se fazer face a este problema. Desde logo, merecem destaque as ações de propaganda que visam ao desenvolvimento dos processos de radicalização e recrutamento e a contenção do impacto da violência que busca provocar o terror e o medo. Nessa matéria, os meios de comunicação social assumem um papel fundamental.

O terrorismo jihadista, que já é em si uma forma de comunicação, corporiza a violência à qual está associado em uma mensagem dirigida ao poder político, à população e aos simpatizantes da jihad. Essa mensagem possui objetivos diversos como condicionar o Estado às suas políticas, obter financiamento, aterrorizar as populações, instalar o ódio entre comunidades, condicionar ou influenciar o exercício do direito de voto, recrutar combatentes ou levar ao reconhecimento da liderança na jihad global.

A era da informação, com as televisões por satélite, o acesso a todos os meios de comunicação através da internet e as redes sociais deu uma capacidade e eficácia assustadoras a essa estratégia. Por essa razão, Abu Musab al-Zarqawi, um dos mais proeminentes teóricos do jihadismo global, no princípio dos anos 1980, já assinalava a necessidade do recrutamento de engenheiros, químicos, técnicos de informática e outros especialistas, bem como uma forte necessidade em investir na capacidade de comunicação. Mais de 20 anos depois, em julho de 2005, Ayman Al Zawahiri – o líder atual da Al-Qaeda e o atual ou antigo membro e autoridade superior das organizações islâmicas que planejaram e levaram a cabo os ataques na América do Norte, Ásia, África e no Oriente Médio – declarava que a Al-Qaeda estava em guerra e que mais da metade da mesma era realizada no campo de batalha da mídia.

Desde então, as capacidades no domínio da comunicação aumentaram exponencialmente e os especialistas da Al-Qaeda são aprendizes comparados com seus rivais do Estado Islâmico. Por sua vez, a comunicação de massa gerou profundas alterações nas formas de comunicação dos terroristas, alargando novamente o palco de sua atuação e os destinatários de sua ação violenta, ampliando a mensagem dos seus autores e simplificando a logística necessária para diversas ações.

Antes da chamada era da informação, um ato terrorista só tinha verdadeiro impacto internacional quando dirigido contra o poder político ou poder econômico e tinha tanto mais força quanto mais próximo atingia os núcleos do poder.

As vítimas eram, em geral, elementos com responsabilidade no governo, nas forças armadas, forças de segurança, serviços de informações, altos funcionários do Estado ou destacadas figuras do mundo empresarial. Com a comunicação de massa, as organizações terroristas atingem os seus objetivos onde quer que atuem, desde que façam um grande número de vítimas e recorram ao uso da violência.

Esta questão transporta-nos para outro plano, que é o da relação entre o terrorismo e a mídia. É uma velha discussão que envolve temas complexos relacionados com direitos fundamentais, como: direito à informação, direito à liberdade de imprensa, proibições legais (principalmente à propaganda, apologia ou mesmo cumplicidade com o terrorismo), mas essencialmente, uma questão ética e de ideologia dos profissionais da informação e da inteligência na filtragem das informações a serem difundidas no tocante aos fatos e, principalmente, às imagens.

Os terroristas tendem a dar à mídia justamente o que ela deseja: sensacionalismo e audiência. Entretanto, se a postura da imprensa, em relação aos atos terroristas, minimiza a transmissão de imagens violentas, particularmente nas redes sociais, a verdade é que a capacidade de projeção das redes terroristas será significativamente diminuída.

O essencial é que se entenda que o atentado terrorista por si só não tem outro efeito além daquele que é produzido sobre as vítimas, considerando-se que a violência terrorista é apenas o primeiro canal de comunicação. O que os terroristas procuram é a exploração política, econômica ou social do atentado, que será tanto mais vantajosa quanto maior e mais detalhada a divulgação dos atentados.

Neste contexto, os países democráticos deparam-se com o desafio de desenvolver uma consciência ética nos diversos órgãos de comunicação e na gigantesca massa que utiliza as redes sociais na tentativa de impedir ou reduzir a propagação da mensagem terrorista. Esta é uma ação altamente estratégica e delicada, uma vez que exercer o controle sobre os meios de comunicação, inclusive da internet, é algo incompatível com os princípios das sociedades ocidentais.

Ao observar-se o mapa da América Latina, destaca-se a região da tríplice fronteira Brasil-Paraguai-Argentina. Além da numerosa comunidade islâmica, cujo tecido humano serve como camuflagem para terroristas jihadistas procurados internacionalmente e potencial universo de recrutamento de simpatizantes, a simbiose entre crime organizado e terroristas é uma realidade.

Em 2014 a Brasileira Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência apontaram ali a invulgar conexão entre o Primeiro Comando da Capital (facção de crime organizado brasileira) e o Hezbollah (Líbano). Anteriormente, já havia sido identificada a presença da Al-Qaeda (Oriente Médio, África e Ásia), Hamas (Palestina), Yakuza (Japão), Triads (China), Comando Vermelho (Brasil), dentre outras facções de terroristas e de crime organizado.

Dessa forma, crescem de importância a sinergia entre as forças de segurança internas dos países, os acordos de cooperação internacional, viabilizando a interoperabilidade entre diferentes forças, e as operações interagências de Inteligência, como a primeira linha de frente na defesa das democracias do continente americano na prevenção e combate à jihad cibernética.

*Forças Especiais do Exército Brasileiro, ex-oficial de Inteligência do Destacamento de Contraterror, Auditor de Defesa em Portugal, Professor da Universidade Autônoma de Lisboa.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 54
Carregando conversa