Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Competência é o que confere legitimidade

A única mulher oficial general da Marinha da Argentina fala sobre a integração de gêneros e outros temas relevantes.
Marcos Ommati/Diálogo | 5 março 2018

A Contra-Almirante Engenheira María Inés Uriarte é a única oficial general da Marinha da Argentina. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

María Inés Uriarte vem de uma família numerosa. Sendo a mais velha de nove irmãos, ela nasceu em 1º de setembro de 1954, na pequena cidade argentina de Lamarque, na província de Río Negro, no sul da Patagônia. Sua mãe era professora e diretora da escola local. Seu pai trabalhava em uma ferrovia. Mais adiante, ela foi estudar em um internato em Bahía Blanca, uma cidade portuária nos arredores de Buenos Aires. Longe de sua família, aprendeu a assumir responsabilidades e a cuidar de si mesma.

 

Anos mais tarde, já formada em engenharia, ela ingressou na Escola Naval Militar, onde se formou em 1982 como 1º tenente e, em 31 de dezembro de 2015, foi promovida ao posto de contra-almirante. Para saber mais sobre a vida e os desafios da primeira mulher a se tornar oficial general da Marinha da Argentina, Diálogo viajou para Buenos Aires para conversar com a Contra-Almirante Engenheira María Inés Uriarte, diretora-geral de Pesquisa e Desenvolvimento da Marinha da Argentina.

 

Diálogo: Como foi ter sua mãe como diretora da escola onde a senhora estudava?

 

Contra-Almirante Engenheira María Inés Uriarte, diretora-geral de Pesquisa e Desenvolvimento da Marinha da Argentina: Muito difícil. Naquela época, ter os pais na escola e em casa era complicado, porque não era como agora, quando os pais defendem seus filhos sob qualquer condição. Naquela época, a criança nunca tinha razão, e menos ainda quando era um adulto que dizia que ela havia feito alguma travessura. Sempre foi uma provação, no sentido de que em casa se exigia muita disciplina e na escola também, mas, no meu caso, quem fazia as exigências era a mesma pessoa. Não havia escapatória. Minha mãe sempre dizia: “Vocês têm que dar o exemplo porque são os filhos da diretora”.

  

Diálogo: Havia tempo para os amigos, tendo tantos irmãos?

 

C Alte Uriarte: Foi uma infância feliz, com tantos irmãos, mas não tive tempo para os amigos. É que os irmãos acabavam dividindo tudo comigo e era uma cidade muito pequena. 

 

Diálogo: A senhora era aluna interna. Quando via seus pais e irmãos?

 

C Alte Uriarte: Só nas férias. Como meu pai viajava muito por causa da ferrovia, obviamente ia e vinha, e quando passava por Bahía Blanca, ele arranjava um tempo para fazer uma visitinha, quando dava para conciliar o horário com o da escola. Mas, do contrário, eu só ia à minha casa nas férias.

 

Diálogo: O que deve ter sido bem difícil para uma garota tão jovem...

 

C Alte Uriarte: Verdade. Quando me perguntam sobre a Escola Naval, eu sempre digo que sim, é muito difícil, mas que, para mim, não foi tão difícil porque eu já tinha certa idade. Não é o mesmo aos 12 anos. Na Escola Naval, eu ingressei como engenheira e já estava casada.

 

Diálogo: Qual foi o seu primeiro contato com a Marinha?

 

C Alte Uriarte: Minha mãe conseguiu uma transferência, em seu cargo docente, para uma escola na Base de Infantaria do Corpo de Fuzileiros Navais. Foi lá o meu primeiro encontro com a instituição, a partir de um outro ângulo, claro. Mas lá, conheci a instituição porque vivi dentro da base.

 

Diálogo: Como foi viver em uma base militar?

 

C Alte Uriarte: Passei uns anos fantásticos lá porque, primeiro, como uma adolescente, estava muito protegida. Os pais não tinham que se preocupar quando seu filho saísse, saber onde ia, com quem andava e se havia riscos. Fazíamos muitas atividades lá e não havia nenhum risco; portanto, tínhamos muita liberdade e pudemos aproveitar muito a adolescência, que é uma etapa difícil. Foi lá que, finalmente, fiz muitos amigos. E pensava: “Nunca vou me casar com um militar”.

 

Diálogo: Por que não?

 

C Alte Uriarte: Porque eu via o sacrifício, ou seja, via também o quanto a família se sacrificava, como sentiam saudade quando seus pais não estavam presentes porque estavam navegando ou participando de uma missão; e eles tinham um evento e seu pai não podia comparecer. E então pensava: “Eu não poderia tolerar formar uma família em que meu esposo vivesse fora o tempo todo e eu nunca soubesse onde ele estava”. Bem, nunca se deve dizer: “desta água não beberei”, porque eu a bebi e de bom grado.

 

Diálogo: Antes de se tornar militar, a senhora se formou em engenharia, outra carreira não muito comum entre as mulheres, principalmente naquela época. Por quê?

 

C Alte Uriarte: Desde pequena sempre fui interessada nos fenômenos físicos e químicos, nos motivos de sua ocorrência, em suas causas e por que tal coisa acontecia. Ou seja, as áreas da física, química e matemática sempre me interessaram. No ensino médio, eu achava muito fácil, mas achava fácil porque eu gostava. Além disso, quando surgiam projetos de qualquer tipo na escola, como, por exemplo, de pesquisa para uma feira de ciências ou uma competição de matemática, lá estava eu, porque era apaixonada por aquilo. Naturalmente, tinha uma tendência a escolher carreiras que tinham a ver com isso. E, na verdade, embora pareça antagônico, também gostava muito de advocacia.

 

Diálogo: Ciências exatas e humanas ao mesmo tempo...

 

C Alte Uriarte: Exatamente. Eu gostava muito de advocacia, mas, em Bahía Blanca, naquela época, não existia a carreira de advocacia. Na Universidad Nacional del Sur eram ensinadas carreiras relacionadas com biologia e bioquímica, mas a universidade era muito forte e tinha muito prestígio em engenharia e nas áreas de contabilidade e administração. Além disso, não me ocorreu, porque exigia que eu me estabelecesse em outra cidade e isso era realmente impossível para minha família do ponto de vista econômico, porque, de algum modo, iria influir nas possibilidades de estudos universitários do resto dos meus irmãos. Então, escolhi engenharia química, algo de que eu gostava e que pensava não ser tão difícil. Na Universidad del Sur, a carreira era muito promovida porque o Polo Petroquímico de Bahía Blanca estava sendo construído. Portanto, as autoridades da universidade, com bom senso, começaram a formar profissionais para poderem tratar das necessidades industriais do polo.

 

Diálogo: Mas, em números, quantas eram mulheres na sua turma?

 

C Alte Uriarte: Não me lembro exatamente, mas não mais de 10 por cento.

 

Diálogo: De mais de 150, no total...

 

C Alte Uriarte: Sim, mas, no grupo que se formou ao mesmo tempo, éramos menos de 30, dos quais seis éramos mulheres, ou seja, a média foi muito boa.

 

Diálogo: A senhora ingressou imediatamente na Marinha?

 

C Alte Uriarte: Não. Trabalhei dois anos como docente e, quando me inteirei sobre a instauração da possibilidade de ingressar na Marinha como profissional, me apresentei. Ingressei como engenheira, mas, na verdade, para trabalhar na área de informática, ou seja, no quadro de engenharia com especialização em informática.

 

Diálogo: Mas, naquela época, a informática era incipiente, não?

 

C Alte Uriarte: Sim. Eu já havia explorado a área de informática na faculdade. O primeiro computador da Universidad del Sur encontrava-se nas instalações piloto de engenharia química. Era um PDP - 8 da Digital, com fita perfurada. À medida que a computação e a área de informática começaram a se difundir pelo país, tornou-se necessário adquirir novos conhecimentos para aplicá-los na área de competência.

 

Diálogo: E como foi se tornar militar?

 

C Alte Uriarte: Foram quatro meses de treinamento militar, onde cursei diferentes matérias, como direito marítimo, regulamentação, operações militares etc. que, por um lado, estavam relacionadas com a dinâmica da organização e, por outro, com as atividades que constituem a missão da organização. Embora um indivíduo venha formado academicamente na profissão, o curso é um complemento necessário para se conhecer a instituição, sua organização, as regras, a cultura e também quais são as atividades desenvolvidas nessa organização e a partir de onde pode-se contribuir.

 

Diálogo: Qual foi, na sua opinião, o maior avanço em termos de integração de gênero, desde o início dos anos 1980, quando saiu como 1º tenente, até hoje?

 

C Alte Uriarte: Houve muitas mudanças, sobretudo no que se refere a regulamentações e leis. Todas as normas foram reguladas e adaptadas de algum modo, levando-se em conta as especificidades das mulheres. Quer dizer que, de algum modo, havia ficado claro, se tornou transparente e não era necessário lutar e perguntar: “Como faço isto? Como faço aquilo?”. Não era necessário ficar com incertezas quando se chega a um destino, quando não se conhece o cotidiano, em sua condição de mulher, ou seja, se há um banheiro, onde vou me alojar; tudo o que tem a ver com habitação, infraestrutura e regulamento sobre as especificidades da mulher – relacionados com maternidade, aleitamento, zelo pela família, isto é, tudo o que é muito específico da mulher, que até então não era contemplado pela instituição. Isso foi adaptado, do ponto de vista da regulamentação, de modo a tornar mais simples para as mulheres o desempenho da atividade, porque embora a licença-maternidade estivesse prevista, havia outros detalhes cotidianos, como o uniforme. Às vezes, parecem bobagens, mas, na verdade, são aspectos importantes. Se você perguntar agora a alguém que ingressou recentemente, todas essas coisas nem passam por sua cabeça, porque já está tudo resolvido. Então, as mulheres recém-ingressas não têm a mesma vivência. Está tudo organizado, seus alojamentos; elas têm seus recursos, seus lugares, seu uniforme bem definido, suas funções bem definidas.

 

Diálogo: A senhora acredita que ainda haja dúvidas, na instituição, sobre a capacidade que as mulheres têm de fazer este ou aquele trabalho?

 

C Alte Uriarte: Acredito que haja uma consciência dentro da instituição a respeito das capacidades que as mulheres podem desenvolver; quer dizer, não está em dúvida que uma mulher possa ocupar um posto, que possa ocupá-lo bem e que possa preenchê-lo. Logicamente, há postos que ainda não foram preenchidos e cabe à pioneira ou às pioneiras daqueles postos que ainda não foram preenchidos mostrar que é possível.

 

Diálogo: A senhora poderia nos dar um exemplo?

 

C Alte Uriarte: No meu caso, eu sou pioneira. Para mim, cada fase foi sempre um desafio. O que para o homem era algo natural, quer dizer, hoje é tenente, amanhã passa a ser capitão... ninguém questionava o porquê de ele ter sido promovido a capitão ou averiguava se era um verdadeiro capitão. No meu caso, por ter sido a primeira promoção, sempre fui a primeira a passar por cada situação; a primeira vez que ingressava em um Estado-Maior, como aconteceu comigo na frota. Dá para imaginar? Nos navios, a primeira vez que uma mulher aparecia, todos olhavam para ver o que estava acontecendo. Este, logicamente, é o primeiro momento e ela sabe que está sendo observada 24 horas por dia, como estar na reunião de Estado-Maior e pensar sobre qual seria a expectativa. A expectativa talvez fosse a de que a mulher estivesse meio escondida, ao fundo da sala, e que não desse nem uma opinião, o que não era o meu caso.

 

Diálogo: E todos eram mais antigos, certo?

 

C Alte Uriarte: Exatamente! Eram todos capitães-de-mar-e-guerra. Eu estava a cargo do departamento de informática do Comando da Frota, como assessora direta do comandante. Como o comandante estava muito dedicado à informatização e automatização dos procedimentos, processamento de dados e obtenção de dados estatísticos, eu era a sua mão direita nesse aspecto; por isso, sempre me proporcionou oportunidade e autoridade para exercer minha função. Então, não sei se eles se acostumaram rapidamente ou não lhes restava outra opção. [Risos]

 

Diálogo: A senhora ganhou seu lugar por competência.

 

C Alte Uriarte: Exato. Porque não é fácil implantar um sistema informatizado. Lembro-me de que o comandante dizia: “Não quero ninguém esperando aqui na entrada do escritório. Comuniquem-se pelo computador”. Imagine, nessa época, nem todos estavam acostumados com os computadores; então, de certa forma, eu fui o apoio técnico para ajudá-los. E, desde aquele momento, ganhei total consideração e respeito de toda a equipe. Além disso, tive que dar aulas sobre os aplicativos, onde explicava qual era o âmbito de aplicação do aplicativo, como funcionava etc. Imagino que não deve ter sido muito fácil para eles. “Essa senhora aí, por que não fica na cozinha em vez de vir nos importunar?” [Risos]

 

Diálogo: Tudo isso ajudou a fortalecê-la?

 

C Alte Uriarte: Acho que sim, isso fortalece. Mas, pela minha formação e pelo que passei na minha infância, já estava fortalecida. Claro, depende do caráter de cada um. Há pessoas que se fortalecem e há pessoas que não; ou seja, há pessoas que, diante de determinadas situações de exposição, em vez de se fortalecerem, se reprimem, se deprimem. Para mim, de forma geral, a cada degrau, eu analisava se poderia saltá-lo. Nunca um obstáculo significou: “Ai, que sofrimento, não vou conseguir”, não, não.

 

Diálogo: O que foi mais difícil, quando a senhora ingressou na Marinha ou depois de ser promovida a oficial general?

 

C Alte Uriarte: O ingresso, sem dúvida. Devemos pensar que, para chegar a esta patente, cumpri inúmeras funções, com diversos graus de complexidade. Como exemplo, fui segunda chefe e, em seguida, chefe do Serviço de Análise de Operações, que é um serviço no qual eu tinha mais de 180 pessoas sob o meu comando, entre as quais havia uns 39 civis, a maioria qualificados — engenheiros, mestres e doutores em diversas disciplinas. Com relação ao pessoal militar, havia oficiais e suboficiais subordinados. Em particular, além dos oficiais profissionais (engenheiros), havia oficiais que tinham sido comandantes de navio e eram meus subordinados, ou seja, fui adquirindo experiência, conhecimento, aprendendo sobre a gestão e a direção de pessoal durante toda a minha carreira. De certa forma, a Marinha me muniu de ferramentas para que eu pudesse exercer minha função.

 

Diálogo: E o que significa ser a única mulher almirante da Marinha da Argentina?

 

C Alte Uriarte: Na verdade, para mim, ser a única não significa muito, porque em cada promoção, de capitão-de-corveta em diante, eu sempre fui a única mulher. Eu sempre fui a única em cada instância. Mas depois vieram outras mulheres e espero que assim continue. Além de ser almirante, acho que para mim foi realmente importantíssima e inesperada a nomeação como adida naval na Espanha. Isso sim foi impressionante. Embora seja um orgulho chegar ao mais alto posto da instituição, o âmbito de atuação de uma missão no exterior é muito mais amplo. Ter a honra de poder representar o país, particularmente a Marinha, em um país estrangeiro, é incrível, o fato de que o país tenha confiado e enviado uma mulher pela primeira vez, como adida, e à Espanha! Maior voto de confiança do que esse não existe. Deste ponto de vista, quando você pergunta sobre a evolução, este é um exemplo de evolução da instituição. Para mim, sim teve grande significado, além da experiência que realmente foi enriquecedora, não apenas no âmbito profissional, mas também no familiar. Sempre participei de tudo e, além do mais, foi uma surpresa para a Marinha espanhola, porque eles ainda não têm mulheres oficiais generais.

 

Diálogo: Pessoalmente, talvez não seja tão importante, mas a senhora tem consciência da magnitude que isso representa para uma garota que esteja pensando em ingressar nas forças armadas?

 

C Alte Uriarte: Sim, claro. É muito importante do ponto de vista da conquista por parte de uma mulher em uma instituição como as forças armadas. Por si só, é difícil para as mulheres chegarem a um posto com poder de alta decisão e, em uma instituição como as forças armadas, pareceria ainda mais difícil porque, historicamente, sempre foi uma instituição muito masculina. O que ocorre é que muita água passou por baixo da ponte e hoje isso já não é tão absurdo. Sim, é muito importante e, claro, acho que o mais importante é poder cumprir o mandato da melhor maneira, para não deixar, definitivamente, nenhuma dúvida de que ele possa ser cumprido na área na qual desempenho minhas funções. Obviamente, devemos pensar que, hoje em dia, embora haja uma mulher almirante na Marinha, os oficiais femininos de comando são capitães-tenentes.

 

Diálogo: A senhora se refere às primeiras mulheres que estudaram na Escola Naval, junto com homens?

 

C Alte Uriarte: Sim. Há muito a se percorrer. Parece-me que será um marco importantíssimo e adoraria vê-lo, ou seja, uma mulher comandante de um navio. As primeiras serão sempre as pioneiras, serão objeto de observação e, obviamente, sentirão essa pressão. Então, realmente poderemos afirmar que a mulher exerceu uma carreira plena dentro da instituição, porque são oficiais de comando. Eu sou um oficial profissional feminino. Exige-se muito mais de um oficial de comando. Em toda a sua carreira, lhe será exigido muito mais do que foi exigido de mim, sobretudo a dificuldade de poder conciliar sua vida familiar com a vida profissional. No caso das mulheres de comando, isso vai sendo visto conforme vão evoluindo em sua carreira. Mas é difícil porque a carreira militar é muito exigente. E a isso somamos as atribuições sociais que são impostas às mulheres, um protagonismo contínuo com relação ao zelo pela família, muito além de sua própria característica de procriação. Cuidar das crianças, participar ativamente das atividades escolares e da atividade doméstica, tudo isso implica uma demanda excessivamente exigente e se torna complicado conciliar.

 

Diálogo: Qual é a solução?

 

C Alte Uriarte: Acho que a única maneira é o planejamento. Devemos pensar que a faixa etária relativa à procriação coincide exatamente com a época da formação militar, ou seja, quando o oficial está sendo educado para cumprir funções superiores. Isto exige embarques, campanhas, cursos, comissões; esta etapa é muito afetada por essas atividades que, geralmente, acarretam ausência, tempo fora da zona portuária ou da unidade, enfim, falta de disponibilidade para atender questões de cunho pessoal. Se, além disso, somarmos o fato de que a mulher está na etapa de formação de uma família e tem seus filhos, não se pode conciliar tudo isso se não houver um bom planejamento.

 

Diálogo: Mas, não foi tudo isso que serviu como desculpa, durante todos esses anos, para que não se permitisse que as mulheres fossem militares plenas, por assim dizer?

 

C Alte Uriarte: Claro. A questão é que não devemos buscar desculpas para ver o que irá acontecer a uma pessoa nessa ou naquela situação. Devemos deixar que a situação ocorra e que a pessoa a resolva. Posso dizer: “Não, esta pessoa, na verdade, por seu perfil, me parece que não poderia fazer isso”. A mim não cabe julgar, ou seja, deve se permitir que a pessoa demonstre ser capaz ou não. Se ela não cumpre suas funções, bem, não cumpre por este ou aquele motivo. Mas, não devo julgar de antemão, por isso não me parece um argumento válido. Sim, acho que para exercer uma carreira miliar, a mulher deve planejar sua vida. Não é que tenha a liberdade de ação total como pode ter outra pessoa que se dedique a outra profissão. Por quê? Porque é uma carreira que exige, em uma determinada etapa, que se deva adquirir certas habilidades para que se possa chegar à próxima etapa. Além disso, devemos pensar que a atividade a ser realizada é uma atividade crítica. É uma atividade de defesa. Então, não posso aceitar: “Não, é melhor exigirmos menos horas de adestramento, menos dias de embarque”. Por que menos horas de tiro, menos horas daquilo... Perdão, eu a estou preparando para a guerra? Se a estou preparando para a guerra em condições especiais, estou preparando uma incapacitada. Ela não poderá se defender. Devo lhe dar a máxima quantidade de ferramentas para que possa se defender e para que cumpra sua missão de defesa adequadamente. Se não, não seria justo. Agora, qual é a implicação disso? Que a mulher tenha disponibilidade. Ah, bem, então é um problema das mulheres e elas deverão resolvê-lo.

 

Diálogo: E quanto às expectativas do parceiro? Dos filhos?

 

C Alte Uriarte: Isso é decisão dela. Não é problema da instituição.

 

Diálogo: Como em outras profissões…

 

C Alte Uriarte: Exato. É um assunto pessoal, como ocorre em muitas atividades. Uma mulher que é comissária de bordo, por exemplo, também passa tempo fora de casa, viajando continuamente. Talvez a comparação seja muito simplista, mas há muitas profissões que exigem que a mulher planeje sua vida, a mulher e o homem, seu parceiro, quem seja. Por isso digo: planeje sua vida. Porque senão, não se pode fazer as duas coisas. E uma atividade é finalizada em detrimento de outra, ou acaba se conformando com funções ou atividades menos exigentes.

 

Diálogo: E a senhora concorda com a presença das mulheres em zonas de combate?

 

C Alte Uriarte: Concordo porque, na verdade, historicamente a mulher sempre participou, voluntariamente, de diversos modos, nas zonas de combate. Além disso, a mulher participa, involuntariamente, nas zonas de combate, geralmente como parte da população civil e, nesse caso, é a mais afetada, mesmo que não seja combatente. Em geral, a mulher tem demonstrado ter plena capacidade de resiliência em uma zona de combate, desde tratar de resistir aos diferentes ataques até as diversas formas de violência sexual que sofre pelo fato de ser mulher; tratar de proteger seus filhos, os idosos que ficaram para trás; tratar de conseguir alimentos para que sua família sobreviva; tratar de começar a reunir a família. Ou seja, ela deve desenvolver suas habilidades independentemente do que acontecer, mesmo sendo civil. E ela já demonstrou ter disposição e fibra para fazer isso. Acho que se uma mulher escolhe ser combatente ou escolhe ser parte ativa de uma força armada e, portanto, irá combater, não será mais arriscado para ela do que para o resto. Creio que, hoje em dia, em alguns casos, isso é aceito, embora persistam algumas restrições e ainda existam intensos debates.

 

Diálogo: Há vários textos a respeito.

 

C Alte Uriarte: Sim, e não chegam a um consenso! Uns dizem uma coisa, outros afirmam o contrário. Alguns argumentam que enfraquece o ânimo da tropa porque, na verdade, os homens se preocupam em cuidar das mulheres. Não sei porque se preocupam em cuidar delas, mas isso me parece um argumento muito fraco. Outros dizem: “Não, porque são uma tentação; em uma situação de adrenalina, ver a mulher é uma tentação”. São argumentos estúpidos. Penso que, na verdade, é um tema cultural porque as mulheres morrem na guerra assim como os homens. Ou vai doer mais ao filho que sua mãe morra do que morra seu pai? Estamos conscientes? Ou seja, os dois são seres humanos. Qual é a diferença? Em uma zona de guerra, a mulher realiza tarefas de apoio e está submetida ao mesmo risco que quaisquer dos combatentes. Além disso, quando se ingressa na instituição armada, o primeiro que se faz é o juramento de defender a nação ou a pátria e até morrer por ela, se necessário. Assim fazem os homens e as mulheres. Então, se jurou defender a pátria e, se for necessário, ou porque a situação assim o pede, deve-se perder a vida pois já se comprometeu; então, está-se agindo em conformidade. Senão, as mulheres não deveriam jurar. Parece-me que há uma série de incoerências que não têm relação com as capacidades.

 

Diálogo: Além disso, devemos pensar que a guerra mudou. A guerra tradicional que vemos nos filmes, com soldados se enfrentando entre trincheiras, já não existe mais.

 

C Alte Uriarte: É verdade. Toda a cavalaria deste lado enfrentando a cavalaria do outro lado, o combate corpo a corpo, isso não existe mais, ou seja, hoje em dia, a defesa está além do objetivo; a defesa não é a guerra, a guerra é o último recurso. A defesa é outra coisa. Para a defesa, é necessário gente com capacidade e inteligência em muitas áreas do conhecimento para que se alcance um equilíbrio estável que gere a dissuasão. E, caso a guerra ocorra, as mulheres hoje estão cumprindo funções nas missões de paz, seja para a restauração, a intervenção ou o restabelecimento da paz, para fazer com que determinada nação ou país recupere sua autonomia e sua capacidade, institucionalmente falando. A tarefa que essas mulheres executam nessas intervenções é realmente digna de destaque. Acho que é uma das áreas onde, hoje, a participação da mulher é indiscutível. E, de fato, é realçada em inúmeras publicações. Nós temos nossa própria experiência, mas há países que têm muito mais experiência, e todos afirmam que realmente a tarefa da mulher neste tipo de atividade é muito importante.

 

Diálogo: Por que as mulheres se destacam tanto nas missões de paz?

 

C Alte Uriarte: É que a mulher tem uma perspectiva distinta. E, nesses ambientes tão críticos, tão complexos, onde não há apenas guerra, há outros aspectos sociais, econômicos, de todo tipo, a influência da mulher é realmente fundamental. Ver uma mulher de uniforme não é o mesmo que ver um homem, sobretudo pela idiossincrasia que se tem. Então, a forma de poder abordar e se aproximar dessa pessoa é muito mais fácil para a mulher, porque gera mais confiança. E pode-se, de certa maneira, intervir de forma mais direta, porque o homem, em geral, por mais bem-intencionado que seja, costuma ser rejeitado por parte da população civil, por razões históricas e culturais. Isso não acontece com as mulheres. Poder aproveitar essa situação para intervir de forma direta e conseguir, de alguma forma, recuperar e restaurar a paz é importante. Parece-me que é fundamental, além das tarefas específicas, que tradicionalmente foram realizadas na área de assistência sanitária.

 

Diálogo: Como quais?

 

C Alte Uriarte: Parece-me que nesta relação de construção e restauração de vida com a população civil, a presença da mulher é vital por sua capacidade de contenção e empatia. De fato, quando se observa em países onde a segurança e a defesa estão associadas, há muito mais participação de mulheres. Porque na área de segurança, onde há mais contato com a população civil, há mais mulheres do que em uma área específica das forças armadas. E creio que está fora de discussão, ou seja, é difícil que hoje alguém pergunte por que as mulheres estão nos corpos de segurança interna e de polícia. Parece natural, não?

 

Diálogo: A senhora concorda com o sistema de cotas para que mais mulheres entrem nas forças armadas ou nas forças de segurança?

 

C Alte Uriarte: Não, na verdade, não. Não concordo com o sistema de cotas porque, na verdade, creio que, quando uma análise é feita sob o ponto de vista numérico, o número não diz muito a respeito da verdadeira integração da mulher na instituição. Pode não ser tão numeroso e haver uma boa integração, e pode ser excessivamente numeroso e continuar estando relegada, ou seja, o número não nos dá um modelo que garanta igualdade. Sim, é um começo, mas não determina o que vai ocorrer depois. Quer dizer, se não existe uma vontade e se não existe uma cultura organizacional de que a contribuição da mulher é necessária na instituição, os números serão apenas números porque os obstáculos não serão ultrapassados e não haverá, em muitos casos, a retenção dessas mulheres. A verdadeira integração não está associada ao número. Parece-me que as cotas são perigosas em uma instituição armada, porque, na verdade, atentam contra uma seleção eficiente. É imprescindível poder selecionar a pessoa mais apta e mais capaz para determinada tarefa, independentemente de ser mulher ou homem.

 

Diálogo: O que deveria ser feito para não se cometer discriminação? E a ação afirmativa?

 

C Alte Uriarte: Na verdade, o processo de seleção, tanto para ingresso quanto para promoções, postos ou cargos, deveria ser um procedimento transparente. O procedimento em si deveria ser transparente com o objetivo de assegurar que não haja discriminação. Se no procedimento de seleção ou promoção, na análise ou avaliação forem introduzidas preconcepções relacionadas a gênero, evidentemente estaremos, de alguma forma, colocando obstáculos para o ingresso ou para que a mulher seja promovida ou ocupe certo cargo. Também não acredito na ação afirmativa, ou seja, se tenho um grupo de pessoas e preciso decidir sobre uma promoção ou um cargo importante, analiso as carreiras, os perfis, os desempenhos, as habilidades, as experiências na área para cada um dos membros deste grupo. Mas, faço uma análise independente do fato de serem homens ou mulheres. “E quem está mais bem qualificado? Este. Ah, é mulher, ah, não, é homem.” Deve haver transparência. Se esse procedimento for transparente, garante-se que qualquer pessoa alcance seu objetivo. Há igualdade de oportunidades, não há igualdade de número, porque é voluntário, ou seja, ingressar em uma instituição como as forças armadas é voluntário. Escolher ou não tal especialidade é voluntário. Quando se falou, por exemplo em implementar um sistema de cotas nas armas de Infantaria e Cavalaria, nas quais, em um primeiro momento, as mulheres não podiam ingressar, foi suscitado: “Bem, vamos introduzir uma cota”. Por quê? Se estabelecemos uma cota, impomos uma obrigação a mulheres que não querem fazê-lo, porque a escolha da arma ocorre no segundo ano do colégio militar, não no primeiro. Então, se estabelecemos: “Pelo menos dez têm de entrar nesta especialidade”, se do grupo de mulheres disponíveis não há voluntárias suficientes, as outras acabam sendo obrigadas a escolher, porque a cota deve ser cumprida. Por outro lado, suponhamos que existam 10 voluntárias. Essas 10 voluntárias são capazes, aptas, são as melhores do grupo que temos? Ou nós as designamos porque são mulheres? Não funciona. Isso não contribui. É a competência que confere legitimidade. E não deve haver pior situação do que não ter legitimidade. E muito menos em uma instituição armada, onde se deve comandar o pessoal e prepará-lo para levá-lo à guerra. Ou seja, se os meus subordinados presumem que eu tenho sob minha responsabilidade esse batalhão ou esse navio, ou o que seja, porque sou filha de, amiga de, ou porque sou mulher, não poderão me ver como líder nem confiar plenamente nas decisões que eu venha a tomar.

 

Diálogo: A senhora acha que o ambiente está mais propício para que as mulheres possam ser promovidas a oficiais generais?

 

C Alte Uriarte: Eu acho que nosso país e muitos países da América Latina foram grandemente influenciados pelo fato de mulheres terem chegado a altos cargos políticos com poder de decisão. Isso ocorreu em muitos países latino-americanos, nos ministérios da Defesa, nas presidências, em cargos políticos importantes. Isso, para mim, foi fundamental para o avanço neste sentido. Porque, digamos, se uma mulher pode ser ministra da Defesa ou pode ser presidente de uma nação, se pode dirigir um país e tomar decisões a respeito desse país, por que estamos discutindo se pode se sentar em um carro de combate?

 

Diálogo: É necessária uma mudança cultural?

 

C Alte Uriarte: Sim, me parece que isso é fundamental para a evolução; uma mudança cultural é necessária, sim. Se a organização fizer essa mudança cultural, o caminho estará preparado. Isso é apenas uma questão de esforço, de determinação, de vontade. Não é uma questão de lutar contra a organização porque a organização não é receptiva. A organização é receptiva quando se produz a mudança cultural. À medida que as mudanças sociais ocorrem, elas são difundidas em todas as atividades. Hoje em dia, em todos os âmbitos, há muitas mudanças sendo realizadas no sentido de educar com uma perspectiva de gênero. Desde tenra idade, se começa a educar com a premissa de que o papel que uma pessoa desempenha na sociedade não está associado a fatores biológicos, que esse papel está associado a aspirações e capacidades, mas não a fatores biológicos. As coisas são naturais para um adulto educado com esse conceito desde pequeno.  Hoje, estamos em uma etapa de transição, já há gerações que não viveram isso e tinham outro conceito, outro paradigma, outro estereótipo. Então, “a mulher, dentro de casa, no ambiente doméstico, cuida da casa. Não há ninguém que administre melhor a casa ou que cuide das crianças...”. Ou, “a criança que não tenha sua mãe em casa se tornará incapaz”. Fui criada em um lugar em que minha mãe não estava muito em casa e não me tornei incapaz. Outro paradigma era que o homem era quem decidia. Por exemplo, me lembro que, no início, me perguntavam: “A senhora é militar?”. “Sim.” “E o que o seu marido acha disso?” “Não sei, mas o meu marido tem que achar algo?”

 

Diálogo: A senhora tem alguma história interessante que envolva seu marido e sua carreira militar? 

 

C Alte Uriarte: Bem, na verdade, quase sempre surpreendi menos do que meu marido, porque ele, geralmente, despertava muitas inquietações, o que pensava, como se sentia, quais eram suas opiniões, ou como suportava. Um exemplo de um caso mais recente: quando fomos em missão à Espanha, meu marido havia pedido licença de seu trabalho para me acompanhar. Quando o conheciam, a primeira pergunta era: “Perdão, o que o senhor faz?”. Meu marido respondia: “Sou esposo da adida. Isso parece pouco? O esposo de uma adida tem muito trabalho para fazer e eu sou o esposo de uma adida.” [Risos] O homem está de licença e acompanha a esposa aos eventos e representações como esposo? Isso sim foi uma surpresa.

 

Diálogo: É necessário continuar a comemorar o Dia Internacional da Mulher?

 

C Alte Uriarte: Normalmente, quando se institui “O dia de…” é por alguma razão, para celebrar uma pessoa ilustre ou um acontecimento do qual devemos nos lembrar, para ressaltar um evento histórico etc. Mas, às vezes, “O dia de...” é instituído com o objetivo de sensibilizar, de introduzir um problema — neste caso a questão da mulher — na agenda pública e privada dos estudiosos e de toda a sociedade. É necessário? Sim, é necessário. O Dia Internacional da Mulher está em vigor desde 1975. Foi introduzido no âmbito da Organização das Nações Unidas com esse objetivo, de que pelo menos um dia por ano alguém fale sobre a questão. Alguém fala, obriga-se a discutir, aparecem os que refletem a respeito, os psicólogos... Faz-se um balanço, uma análise, afirma-se “progredimos”, “não progredimos”, “ocorre isto”, “ocorre aquilo”. Parece-me que a manutenção desta questão é importante porque ainda estamos muito longe de alcançar os objetivos.

 

Diálogo: Falando sobre romper barreiras e ser um exemplo para outras mulheres, o que a senhora tem a dizer sobre Eliana María Krawczyk, a primeira submarinista da América Latina que, infelizmente, desapareceu no ARA San Juan?

 

C Alte Uriarte: Infelizmente, é uma dor imensa para todos. Mas, ela foi realmente uma verdadeira pioneira e um exemplo para as jovens que sonham em ser militares. Eu confio na força das mulheres. Sou uma defensora até a morte no sentido de que são capazes de dar tudo de si pelo que acreditam, por sua vocação. Elas são capazes de enfrentar as situações mais críticas, portanto, não creio que isto atue como um efeito negativo; ao contrário, será algo positivo. As mulheres que gostam realmente de sua profissão, suponho que não hesitarão em sua escolha profissional porque já têm uma referência.

 

Diálogo: Existe um legado que queira deixar às suas sucessoras?

 

C Alte Uriarte: Na verdade, não creio que eu seja exemplo para ninguém. Considero que haja muitas pessoas de grande valor. Em geral, fui beneficiada, claro, pela ocasião e circunstância, que tem relação com o fato de eu ter ingressado quando ingressei. Talvez, se tivesse ingressado depois, não estaria na mesma situação. Obviamente, devemos nos esforçar, mas a circunstância ajuda. Creio que tive as oportunidades adequadas e soube aproveitá-las, nada mais do que isso. Estou convencida de que quando se passa por determinado lugar, deve-se deixar uma impressão. O único que pretendo é deixar uma impressão no caminho pelo qual transitei e, de algum modo, ter trabalhado e colaborado para que a instituição evolua, para que a instituição confie na capacidade das mulheres; ter contribuído do meu lugar humilde para que, de alguma maneira, a perspectiva de gênero e a integração de gênero sejam algo real. Apenas diria às mulheres: “Na Marinha, o único impedimento é a falta de vontade e compromisso”. Na vida, nada é de graça. 

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