Curso prepara militares de língua portuguesa para responder a eventos com agentes químicos

O treinamento reuniu militares das Forças Armadas do Brasil e de mais sete países de língua portuguesa no Rio de Janeiro.
Nelza Oliveira/Diálogo | 1 agosto 2018

Capacitação e Desenvolvimento

Alunos participam de uma demonstração prática para ações de resposta em eventos com agentes químicos. (Foto: Marinha do Brasil)

Militares das Forças Armadas do Brasil participaram do primeiro curso básico de Assistência e Proteção para Participantes de Expressão Oficial Portuguesa, atendendo ao calendário de capacitação da Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), de 21 a 25 de maio de 2018, no Rio de Janeiro. O curso, com o objetivo de capacitar e treinar o efetivo para ações de resposta em eventos com agentes químicos, contou ainda com a participação de militares e civis de sete países de língua portuguesa, além de membros da Agência Brasileira de Inteligência, da Polícia Federal e do Corpo de Bombeiros Militar do estado do Rio de Janeiro, todos trabalhando em agências ligadas à temática de defesa química, biológica, radiológica e nuclear (DQBRN).

O curso foi coordenado pelo Centro de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica da Marinha do Brasil (MB). Contou com instrutores da própria Marinha, além de militares do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira (FAB).

“O curso contou com a participação de 15 militares, na condição de alunos, além de um corpo de instrutores composto por 33 membros dos efetivos das Forças Armadas Brasileiras”, contou o 1º Tenente Médico da FAB Gustavo Messias Costa, chefe da Subdivisão Aeromédica do Instituto de Medicina Aeroespacial Brigadeiro Médico Roberto Teixeira (IMAE) da FAB. O instituto desenvolve ensino, pesquisa, aperfeiçoamento, treinamento e instrução da medicina aeroespacial, bem como atendimento médico pré-hospitalar e missões de evacuação aeromédica, descontaminação de aeronaves e pessoal envolvidos em casos de DQBRN. No total foram 38 alunos, entre brasileiros e estrangeiros.

Treinamento intenso

“A FAB designou seis militares do IMAE e oito tripulantes operacionais do Esquadrão Puma para realizarem a instrução de evacuação aeromédica de vítimas contaminadas por agentes QBRN”, informou o 1º Ten Costa. Os profissionais simularam um caso de vítimas contaminadas com agentes QBRN e praticaram sua evacuação aeromédica com isolamento e embarque na aeronave H-36 Caracal, do Esquadrão Puma, que os transportou ao hospital.

“Este treinamento é fundamental para a manutenção operacional e a integração entre as diversas equipes que atuarão em ações de resposta”, disse o 1º Tenente Aviador da FAB Jaison Lopes Garcia, comandante do helicóptero. “A equipe médica e a tripulação precisam estar bem coesas, pois numa ocorrência real o tempo de estabilização e evacuação da vítima pode fazer toda a diferença”, ressaltou.

No treinamento, foi feita uma demonstração de ação terrorista com agente químico. (Foto: Força Aérea Brasileira)

Além da demonstração de evacuação aeromédica, foram realizadas diversas atividades durante a semana do curso, como palestras e oficinas práticas sobre classificação e gestão médica das vítimas dos agentes de guerra química, descontaminação de pessoas em operações médicas e resposta multiagencial integrada a um incidente químico.“O cronograma do curso abrangeu cinco dias, totalizando nove horas de instrução diárias”, enfatizou o 1º Ten Costa. “Os alunos assistiram à demonstração de ação terrorista com agente químico, com ações de primeira resposta, resgate e triagem de vítimas e detecção do agente e descontaminação.”

Experiencia brasileira em DQBRN

A atuação de tropas brasileiras em acidentes com agentes QBRN foi necessária em pelo menos duas ocasiões. A primeira foi na década de 1980, em Goiânia, estado de Goiás, quando catadores de ferro-velho romperam um aparelho de raio-X numa clínica abandonada, expondo a milhares de pessoas a Césio-137, um material radioactivo, que provocou o maior acidente radiológico da história do país. Equipes especializadas das Forças Armadas trabalharam no transporte, incluindo evacuação aeromédica pela FAB até unidades hospitalares e tratamento das vítimas, bem como no processamento e isolamento de toneladas de rejeitos gerados.

O segundo, em 2013, em Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, quando o produto da combustão acidental de espuma de isolamento acústico em uma boate resultou na produção de cianeto, causando a morte de centenas de jovens. A experiência dos militares brasileiros no assunto foi bastante ampliada com a preparação para DQBRN nos grandes eventos que aconteceram na última década no país, como Jogos Panamericanos, em 2007, Jogos Mundiais Militares, em 2011, Rio +20, em 2012, Jornada Mundial da Juventude, em 2013, Copa das Confederações, em 2013, Copa do Mundo, em 2014, e Jogos Olímpicos e Paralímpicos, em 2016.

“Esses eventos fizeram aumentar o alerta situacional acerca da possibilidade de ação de grupos terroristas, devido ao grande número de estrangeiros de diversas nações no país, bem como à presença de autoridades internacionais no território nacional, que configuravam alvos potenciais”, disse o 1º Ten Costa. “Outro ponto importante a salientar é que, dentre as variadas fontes energéticas nacionais, o Brasil possui as usinas nucleares de Angra dos Reis e um sistema constante de alerta e plano de emergência, evacuação e contenção no caso de acidente com rompimento do reator; a rede rodoviária e ferroviária do país transporta diuturnamente uma série de produtos de uso industrial que, num acidente, poderiam causar uma catástrofe química. Tudo isso faz com que o preparo para enfrentar eventos com agentes QBRN seja constantemente buscado e o adestramento das tropas especializadas se faça da maneira mais profissional possível.”

O Brasil sediou o Exercício Regional em Assistência e Proteção para Estados Parte da Região da América Latina e do Caribe, em agosto de 2017, no Rio de Janeiro, reunindo representantes de agências de resposta a emergências químicas de defesa civil e de segurança do Brasil e de outros 18 países da região. O evento marcou a inauguração do Centro Regional de Assistência e Proteção de Armas Químicas para América Latina e Caribe, na sede do Ministério da Defesa, reunindo os meios, equipamentos, e recursos humanos das Forças Armadas do Brasil nessa área.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 2
Carregando conversa