Exército do Peru incentiva valores morais na sociedade

A Escola de Operações Psicológicas do Exército do Peru realizará uma campanha social para fortalecer os valores das tropas.
Gonzalo Silva Infante/Diálogo | 23 agosto 2018

Capacitação e Desenvolvimento

Conversas espontâneas com soldados originaram a campanha de valores Um Cidadão Melhor do General-de-Brigada Oscar de Jesús Reto Otero, chefe do Estado-Maior Geral do Exército do Peru. (Foto: Gonzalo Silva Infante, Diálogo)

A Escola de Operações Psicológicas do Exército do Peru iniciou no dia 1º de julho de 2018 um programa piloto inédito para fortalecer os valores morais das tropas. O programa semestral antecede à campanha nacional do Exército, Um Cidadão Melhor.

Realizado em várias instalações do Exército em Lima, como a Escola Militar de Chorrillos e a Escola Técnica do Exército do Peru, o programa se dirige aos oficiais que se formarão em dezembro. O propósito é ajustar a estratégia da campanha e outorgar as ferramentas aos oficiais, para que eles possam difundir a mensagem às tropas e, ao mesmo tempo, estimular seus valores morais.

O objetivo do Exército é criar um círculo de virtudes que contribua para melhorar a sociedade peruana. Prevê-se que a campanha atinja 20.000 soldados por ano e que cada um consiga influenciar pelo menos 10 pessoas em seu círculo.

“Nos últimos 40 anos, a sociedade de uma maneira geral vem passando por uma crise de valores”, disse à Diálogo o Coronel Jorge Reyes Gutiérrez, diretor da Escola de Operações Psicológicas do Exército do Peru. “No nosso caso, tivemos que enfrentar ao mesmo tempo o terrorismo e a crise econômica. Diante da ausência de boas referências, as pessoas optaram pelo outro caminho. Dali surgiu a imagem do narcotraficante ou do terrorista.”

Autor da campanha

Desde o início de sua carreira, o General-de-Brigada Oscar de Jesús Reto Otero, chefe do Estado-Maior Geral do Exército do Peru, gostava de conversar com os soldados recém-chegados para compreender seus anseios, como um bom posto, relações duradouras e a ajuda aos demais. Através dos anos, as conversas espontâneas se tornaram uma visão cada vez mais concreta: os soldados e seus valores poderiam servir para impactar positivamente o seu ambiente e a sociedade.

Foi assim que, de maneira informal, o Gen Bda Reto começou a fazer palestras instrutivas com oficiais e suboficiais, que originaram a campanha de valores morais Um Cidadão Melhor. A campanha, realizada pela Escola de Operações Psicológicas do Exército, começará em 2019.

“No afã de preencher os espaços vazios, [o Gen Bda Reto] decidiu expor suas preocupações em fevereiro [de 2018]”, disse o Cel Reyes. “Ele viu que a Escola de Operações Psicológicas é a entidade ideal para sustentar o trabalho que realizaremos com base científica e o tempo que isso demandará – o que podemos transmitir e como o faremos.”

Sistema repetitivo

A Escola de Operações Psicológicas abriu suas portas em 1994 no distrito de Santiago de Surco, em Lima. No entanto, o primeiro programa básico de operações psicológicas foi realizado em 1984 nas instalações do Exército.

Apoiados pelos especialistas da escola – antropólogos, sociólogos, psicólogos e jornalistas – o Gen Bda Reto e o Cel Reyes descobriram a maneira de reforçar os bons hábitos das tropas para que os mesmos fossem divulgados em seus ambientes. O modelo, em fase de ajustes, se baseia na repetição, de acordo com um estudo de 2009 da Universidade Colégio de Londres, que acredita que o hábito se forma em cerca de 66 dias.

A Escola de Operações Psicológicas do Exército do Peru, sob a liderança do Coronel Jorge Reyes Gutiérrez, leva adiante a campanha de valores que começará em 2019. (Foto: Gonzalo Silva Infante, Diálogo)

“Atingimos um modelo lento, rigoroso”, explicou o Cel Reyes. “Com esse espaço corroborado de marca de tempo, de sistema repetitivo, começamos a buscar os momentos livres ou os espaços psicológicos que poderíamos aproveitar dentro da formação dos soldados para poder fazer penetrar a mensagem.”

Os oficiais determinaram sete momentos diários onde os hábitos dos militares poderiam ser reforçados. Eles trabalharão a autoestima de maneira oral – através de orações, lemas e palestras dos oficiais encarregados – e por meio de ações no desempenho de suas funções.

“Trabalharemos a autoestima que está muito baixa”, explicou o Cel Reyes. “Por isso há problemas de violência familiar, feminicídios... isso é normal nas sociedades que passaram por períodos de violência generalizada.”

Bons soldados, melhores cidadãos

Os oficiais encarregados de executar a campanha calculam que os resultados possam ser vistos em cerca de três anos. O apoio dos comandantes de seção, eles enfatizaram, será vital para alcançar os resultados esperados. “São eles que estão no dia a dia, permanentemente com [os soldados], como eu estive quando era subtenente”, disse o Gen Bda Reto.

Como parte do projeto, oficiais matriculados na Escola de Operações Psicológicas participam de um curso de comunicações na Universidade San Martín de Porres, em Lima. O curso de dois meses, que terminará em setembro, permite que os oficiais desenvolvam produtos de informação sobre a temática do soldado como agente de mudanças na sociedade.

Todos os anos a Escola de Operações Psicológicas colabora com a faculdade de Ciências de Comunicações de universidades locais para capacitar os operadores psicológicos na especialidade. Graças a essa colaboração, os militares adquirem as ferramentas técnicas para poderem transmitir informações.

Em seus 24 anos, a escola já percorreu um longo caminho, enfocando seus esforços na capacitação de militares e ampliando seu alcance, tanto em instituições civis como na sociedade. Além disso, a escola introduziu outra inovação em 2018: um curso inédito para a Polícia Nacional do Peru (PNP) realizado entre 16 de abril e 26 de maio.

Oficiais da PNP, que lutam contra o narcoterrorismo no Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM), participaram do Curso Especial para Pessoal da PNP Destacado na Equipe de Operações Psicológicas do VRAEM. Com essa capacitação, os membros da PNP estarão melhor preparados para enfrentar os desafios do crime organizado e para proteger a população.

Nos próximos meses, o Gen Bda Reto e o Cel Reyes analisarão os avanços do programa piloto e determinarão os últimos detalhes. Oficiais da Escola de Operações Psicológicas iniciaram diálogos com a Marinha, a Força Aérea e a Polícia Nacional do Peru para criar a réplica do modelo em suas instituições. Segundo eles, a campanha será um catalizador das mudanças da sociedade.

“Meu desejo é que haja bons soldados, melhores cidadãos”, concluiu o Gen Bda Reto. “Que eles não apenas pratiquem os valores, mas que também os exijam. Se isso continuar crescendo, poderemos exigir de nossas autoridades, eleitas por nós, que façam aquilo que nos prometeram fazer.”

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