Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Forças Armadas peruanas prontas para o AMAZONLOG

O primeiro exercício militar de logística humanitária na Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru será realizado em novembro.
Marcos Ommati/Diálogo | 2 novembro 2017

O General-de-Brigada do Exército do Peru Jorge Orlando Céliz Kuong fez uma apresentação sobre o apoio a civis afetados pelo narcotráfico e pelo terrorismo, durante o Simpósio de Logística Humanitária, realizado de 26 a 28 de setembro, em Manaus, capital do Estado do Amazonas, Brasil. (Foto: Marcos Ommati, Diálogo)

Talvez o General-de-Brigada Jorge Orlando Céliz Kuong, comandante da V Divisão do Exército do Peru, seja a pessoa mais indicada para falar sobre o apoio das forças armadas a civis afetados pelo narcotráfico e pelo terrorismo no Peru. A V Divisão se encontra acantonada em Loreto, a região mais ampla do território nacional. Seus quase 3.600 quilômetros quadrados englobam quase 30 por cento do país, além de uma fronteira de aproximadamente 3.600 km dividida com a Colômbia, o Equador e o Brasil, portanto, é uma área estratégica e muito atraente para os narcotraficantes. O Gen Brig Céliz, oficial de inteligência do Exército peruano, também foi o comandante geral da Grande Unidade de Combate da Brigada Contraterrorista na problemática região do Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro, onde ainda se encontram simpatizantes e membros remanescentes do grupo terrorista Sendero Luminoso. Diálogo conversou com o Gen Brig Céliz durante o Simpósio de Logística Humanitária, que foi realizado de 26 a 28 de setembro em Manaus, capital do estado do Amazonas, Brasil. O evento foi em preparação para o exercício militar AMAZONLOG, que ocorrerá em novembro na selva amazônica de Tabatinga, Brasil.

Diálogo: O que o Peru pretende levar ao AMAZONLOG e o que espera obter desse exercício?

General-de-Brigada Jorge Orlando Céliz Kuong, comandante da V Divisão do Exército do Peru: Creio que no caso dos três países da região que estão participando, ou seja, Brasil, Colômbia e Peru, há muitas coisas em comum nessa zona. Temos muitos cidadãos que são colombianos e, ao mesmo tempo, são peruanos, ambos com documento de identidade colombiano. Acontece o mesmo com a fronteira brasileira, com os cidadãos que estão em ambos os países. Esse é o modus vivendi que as pessoas das fronteiras têm, principalmente devido ao fato de serem lugares distantes, onde nossos Estados despendem muitos esforços para chegar com sua presença em questões de saúde, educação e bem-estar. Assim, consideramos que participamos aqui para reunir experiências particulares de cada país, a atenção que eles dedicam a esses cidadãos com a presença de suas forças armadas, como também das diversas instituições de que o Estado dispõe para poder lhes dar o desenvolvimento correspondente. Por isso, creio que o maior ganho que poderíamos ter é um intercâmbio de experiências. Por outro lado, nós estamos levando as nossas experiências. Temos uma participação de 50 militares, entre eles oficiais e suboficiais, que vão desenvolver atividades próprias do Exército quanto ao patrulhamento realizado na selva, além do exercício militar, já que está estabelecido o apoio humanitário que poderia haver na zona, empregando a logística militar. Creio que vai ser muito instrutivo que todos os países se unam lá com suas forças armadas... uns mais do que outros. Entendo que o Brasil, como país anfitrião, vai ter a maior envergadura nesse aspecto. Também a Colômbia vai ter um número maior do que o nosso, porém é a primeira vez que [o Peru] participa especificamente com forças do Exército nessa zona e, com certeza, vamos aprender muito.

Diálogo: No início de 2017, os peruanos passaram pela tragédia de El Niño Costero, na qual várias regiões de todo o país ficaram debaixo d’água. As Forças Armadas peruanas tiveram participação ativa nos esforços de ajuda humanitária após o desastre natural. Há lições aprendidas que podem ser levadas ao AMAZONLOG e compartilhadas com os outros países?

Gen Brig Céliz: Sem dúvida. Quando foi declarado o estado de emergência no Peru, no verão deste ano, o país estava envolvido na questão das inundações. Temíamos que os rios fossem subir muito acima do nível normal e o que fizemos foi preparar as pessoas, prevenir as consequências que ocorrem com esse tipo de fenômenos. Com o governo regional, nós nos propusemos a atender a população, entregar-lhes madeira com os fundos que o Estado oferecia para que pudessem garantir suas moradias e, também, em conjunto com os soldados, fomos fazer um recolhimento de detritos nos lugares mais contaminados. Preparamos também as pessoas quanto à parte médica, demos vacinas, todo tipo de prevenção que se exige para evitar as consequências fatais. Contudo, isso não ocorreu com a grandeza esperada. Assim, a experiência que tivemos lá no norte é instrutiva porque, de fato, com a logística que as forças armadas têm, houve uma maior mitigação dos danos, mas também das lições aprendidas considero que, no futuro, e em outra zona que possa sofrer algum desastre desse tipo, já com isso possamos aplicar o ensinado e, com certeza, os danos vão ser menores.

Diálogo: Em 2017, o Peru comemora os 25 anos da Operação Chavín de Huántar. Por que é importante recordar a operação militar de resgate dos reféns feitos pelo grupo terrorista Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) na Embaixada do Japão em Lima, em abril de 1997?

Gen Brig Céliz: Porque ainda há assuntos a serem tratados, como o terrorismo, o narcotráfico e outros temas, que atentam contra a segurança em nossa região. Quando se trata de terrorismo, não podemos deixar de mencionar os maus momentos que tivemos, no caso do Peru, com esses movimentos terroristas. Falar de Chavín de Huántar circunstancialmente nos faz notar que é possível evitar que, no futuro, existam outros movimentos como esses que, empregando más ações, maus procedimentos, matando gente ou criando o terror, possam conseguir seus objetivos. Chavín de Huántar significa o desaparecimento de um movimento que era importante. Podemos dizer que ali acabou o MRTA. Essa operação foi muito bem projetada; houve somente dois reféns mortos. Para a força armada, representa o grau de profissionalismo que poderíamos expressar por meio desses acontecimentos, para que as futuras gerações também se sintam motivadas e vejam que há uma resposta do Estado, há uma resposta dos soldados, para que nossas populações possam viver em paz.

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