Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Forças Armadas do Peru contra crimes

Aos 60 anos da criação do Comando Conjunto e duas décadas após a operação militar Chavín de Huántar, o Peru foi a sede da Conferência Sul-Americana de Defesa 2017.
Marcos Ommati/Diálogo | 28 setembro 2017

O Almirante-de-Esquadra da Marinha de Guerra José Luis Paredes, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru (na frente, ao centro), participa da Conferência de Defesa Sul-Americana 2017, juntamente com o General-de-Divisão do Exército Bari del Valle Sosa, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Argentina (à direita), e o ministro da Defesa do Peru Jorge Nieto (à esquerda). (Foto: Marcos Ommati, Diálogo)

O ano de 2017 tem sido muito especial para as Forças Armadas do Peru. O país serviu como coanfitrião da Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC, por sua sigla em inglês), juntamente com o Comando Sul dos EUA, pela segunda vez desde o primeiro evento deste tipo, em 2010. Mas 2017 também marca o 20º aniversário do resgate dos reféns sequestrados pelo grupo terrorista Movimento Revolucionário Túpac Amaru, conhecido como a Operação Militar Chavín de Huántar, considerada uma das mais bem-sucedidas da história; e o 60º aniversário da criação do Comando Conjunto das Forças Armadas (CCFFAA) do Peru. Para falar sobre esses e outros temas, Diálogo conversou com o Almirante-de-Esquadra da Marinha de Guerra José Luis Paredes Lora, chefe do CCFFAA do Peru.

Diálogo: Quais são seus maiores desafios como chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru?

Almirante-de-Esquadra José Luis Paredes Lora, chefe do CCFFAA do Peru: São as ameaças que muitos chamam de “novas”, mas que estão aí há muito tempo, que vão mudando suas formas de atuar. São ameaças transnacionais, ou seja, que afetam a região e não apenas o nosso país. Todos os países da região têm praticamente os mesmos problemas. É comum, por isso, tratar esses temas neste encontro importante com o Comando Sul e com outras nações amigas. É bom para nós porque trocamos algumas experiências e podemos estabelecer canais de comunicação para apoio mútuo. Se não houver sinergia entre as forças armadas dos países da região para poder atacar essas quadrilhas em conjunto, elas realmente afetam a estabilidade dos cidadãos. Temos o tema do narcotráfico, alguns remanescentes do terrorismo, que ainda estão presentes em uma região do país, denominada Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro ou VRAEM. Essas quadrilhas remanescentes, como já não têm nenhuma ideologia terrorista, dedicam-se a trabalhar para o narcotráfico, para as organizações criminosas. A forma de sobreviver, a única coisa que sabem fazer, é a delinquência e o crime, financiar-se por meio desses cartéis de drogas.

Diálogo: Com relação ao crime transnacional, o senhor considera que o problema mais grave no Peru é a produção de cocaína?

Alte Esq Paredes: Exatamente. Esse é o problema para nós, porque, aqui no Peru, não foram encontrados grandes empreendimentos do narcotráfico ou quadrilhas com o tamanho das que se estabeleceram em outros países da região, mas há sim produção de cocaína, que este ano foi reduzida em aproximadamente 16 por cento. É um trabalho árduo, mas está diminuindo. Então, essa é a matéria-prima para o produto final e isso é o que sai do país, e sabemos que vai para a América do Norte, para a Europa e para o Brasil. Isso faz com que essa região seja atraente para as quadrilhas porque a matéria-prima está aqui, mas estamos trabalhando muito com os países fronteiriços, como o Brasil. Há duas semanas, tivemos uma reunião em Tabatinga, no estado do Amazonas, justamente para ver os problemas fronteiriços com o Brasil, para ver quais medidas, quais canais de comunicação seguros e ágeis adotamos que nos permitam agir imediatamente, para estabelecer um sistema de vigilância de fronteiras comum, eficaz para controlar as fronteiras. Com a Colômbia, também temos um grande plano na região de Putumayo. Acredito que o trabalho integrado com os países de fronteira é importante. Com o Equador, não há problema maior deste tipo. Há outros crimes, como a mineração ilegal, por exemplo, o desmatamento ilegal, mas em torno desses crimes geram-se círculos viciosos que desenvolvem várias atividades ilícitas. Temos a depredação do meio ambiente e, na região sul, por exemplo, com a mineração, que usa matérias-primas altamente nocivas, como o mercúrio, essas áreas ficam totalmente destruídas. Há uma contaminação impressionante. Recuperar essas áreas leva muito tempo, mas em torno destes crimes são criados outros, como o tráfico de pessoas. É um tema complicado.

Diálogo: Em sua visita a Tabatinga, discutiu-se sobre o exercício militar transnacional AMAZONLOG, que ocorrerá em novembro. O Peru participará?

Alte Esq Paredes: Sim. O Peru participa com o Exército, mas, neste dia, em Tabatinga, conversamos também para que o próximo AMAZONLOG seja ainda mais conjunto, porque a atividade na região da Amazônia não é apenas terrestre; há muita atividade fluvial, e aí a Marinha tem um papel importante, porque todo o controle como autoridade fluvial no Peru é feito pela Marinha por meio da Direção de Capitanias e da Guarda Costeira. Falamos um pouco sobre a legislação, porque o Brasil tem uma que, para nós, é importante. Afinal, não temos capacidade para intervir como Forças Armadas na região fronteiriça. Os crimes nesta região são atividades policiais, mas há uma lei complementar que o Brasil criou para que as Forças Armadas possam estar nos 150 quilômetros da fronteira e agir com capacidade plena, sem necessidade de ajuda da polícia. Estamos trabalhando com nosso ministério em uma proposta de mudança na legislação, que nos permita agir como Forças Armadas na região de fronteira contra todos os crimes. Acredito que essa será uma ferramenta que nos permitirá agir com mais rapidez. É um processo demorado, mas estamos conversando com o Brasil. Começaram com ótimos resultados e vamos propor essa iniciativa para ver se resolvemos esse problema.

Diálogo: O ano de 2017 tem duas datas muito importantes para as Forças Armadas do Peru: o 20º aniversário da Operação Chavín de Huántar e o 60º aniversário do Comando Conjunto. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Alte Esq Paredes: Sobre Chavín de Huántar, o importante trabalho que nossos comandos realizaram no resgate dos reféns foi reconhecido internacionalmente. Eles foram condecorados com a Medalha de Honra ao Mérito de Combatente, por isso, também foi uma data especial para eles, e acredito que, nessa cerimônia, seu trabalho foi reconhecido e foi feito um agradecimento por essa importante intervenção, que acabou de uma vez por todas com o terrorismo no país. Essa ação foi importante e, assim, é reconhecida por todos os peruanos. O Comando Conjunto é realmente uma instituição jovem ainda. Estamos nos esforçando para consolidar a doutrina conjunta, aquela que realmente enfatizamos nestes últimos anos. Há pouco tempo, aprovamos o Plano Estratégico Conjunto das Forças Armadas. Trata-se de uma aprovação histórica pelo presidente e pelo Conselho de Segurança Nacional. Apresentamos um plano de capacidade conjunta de recuperação. Isto foi para que os meios sejam otimizados, para que não haja dualidade, para que sejam interoperacionais, polivalentes, com tudo o que uma força armada moderna deve ter. Projetamos a Força Armada para 2030 como uma força com recursos altamente tecnológicos e de alta mobilidade. As novas ameaças exigem que sejamos uma força armada com grande mobilidade e intensa em tecnologia. Não há outra forma.

Diálogo: Qual foi a participação das Forças Armadas do Peru e a contribuição das nações parceiras para os esforços de ajuda humanitária e resgate após as inundações causadas por El Niño Costero?

Alte Esq Paredes: Começamos o ano com uma emergência, resultado do Niño Costero, que se denominou assim apesar de não ter afetado somente a costa do país, mas também algumas cidades da serra e, posteriormente, da selva. Foram quatro meses de trabalho intenso. A partir de 15 de janeiro, mais ou menos, estivemos já com os primeiros ataques da natureza; terminamos no mês de maio. Esta é uma situação que continua, porque ainda temos abrigos aos quais atender enquanto se inicia a etapa de reconstrução. Algumas residências temporárias já foram construídas. O governo instalou residências temporárias, mas a etapa de reconstrução começou este ano. O apoio das forças armadas das nações parceiras também foi importante, tanto por meio aéreo quanto por ajuda humanitária, porque a emergência se estendeu nacionalmente e os meios com os quais contávamos eram muito restritos para poder atender a tamanha emergência, ainda mais com respeito a transporte e carga. Claro que colocamos navios à disposição para transportar carga, aviões de carga das Forças Armadas, helicópteros, mas nos faltavam mãos para atender a tantos lugares, desde Arequipa, ao sul, toda a região do Sur Chico, como costumamos chamá-lo, Cañete, Chincha, até o norte, Trujillo, Lambayeque, Piura e Tumbes; na serra, as regiões de Chimbote, Ancash, Huancavelica, Junín, ou seja, praticamente todo o país. Então, para ajudar tanta gente, os meios que tínhamos eram escassos. Mas, graças a Deus, tivemos o apoio das nações parceiras.

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