Peru instalará boias oceanográficas para detectar emergências

A Marinha de Guerra do Peru terá mais ferramentas de monitoramento na costa norte do país para alertar a população contra eventos climáticos.
Julieta Pelcastre/Diálogo | 2 agosto 2018

Capacitação e Desenvolvimento

A Marinha de Guerra do Peru, através da Direção de Hidrografia e Navegação, fortalecerá o monitoramento de El Niño Costeiro na costa norte do país, em 2019. (Foto: Direção de Hidrografia e Navegação do Peru)

A Marinha de Guerra do Peru, através da Direção de Hidrografia e Navegação (DHN), instalará quatro boias oceanográficas na costa norte do país em 2019. As boias fortalecerão a capacidade de resposta das autoridades na ocorrência de desastres naturais, como o fenômeno climático El Niño Costeiro, que causou muitos danos ao país em 2017.

“As boias ajudarão as autoridades, que terão mais ferramentas de monitoramento em áreas estratégicas e a disponibilidade de informações em tempo real para fazer [o acompanhamento] e a prevenção na ocorrência de um fenômeno como o El Niño”, disse à Diálogo o Capitão-de-Fragata da Marinha do Peru Alfieri Buccicardi, chefe do departamento de Oceanografia da DHN. “[Procuramos] alertar a população e responder para reduzir a perda de vidas humanas e danos materiais nas atividades socioeconômicas de importância nacional.”

O Estado peruano autorizou seu Ministério da Defesa a utilizar US$ 2,69 milhões do orçamento do Fundo para Intervenções frente à Ocorrência de Desastres Naturais (FONDES, em espanhol) para a aquisição das quatro boias, informou o diário oficial El Peruano. O FONDES financia projetos de investimento público para a mitigação, capacidade de resposta, reabilitação e reconstrução do Peru na presença de anomalias que causem grande impacto socioeconômico, sobretudo eventos de rápida ocorrência.

 Além de contar com informações de áreas mais afastadas da costa e de áreas estratégicas, os instrumentos permitirão fazer um acompanhamento das mudanças das variáveis físicas, para ajudar na análise de previsão das mudanças rápidas no mar, que causam impactos na zona marinha costeira. As boias poderão enviar por satélite dados das variações oceanográficas obtidos através de sensores de temperatura, salinidade e oxigênio da água do mar em diferentes níveis, entre 10 e 500 metros de profundidade. Elas também contarão com sensores para medição de ondas e marés e com um sistema de instalação para manter uma posição permanente, monitorada por GPS a partir da DHN.

 “As boias serão adquiridas no mercado internacional. A Marinha de Guerra do Peru está em processo de seleção [do fabricante] para adquiri-las”, explicou o CF Buccicardi. “A instalação está prevista para o início de 2019. Duas delas [ficarão] na costa norte do Peru, a uma profundidade aproximada de 4.500 metros, e duas serão destinadas a reposição e manutenção.”

 As boias serão instaladas com o navio oceanográfico polar da Marinha BAP Carrasco, que tem equipamento para sua “plantação” na posição geográfica definida, com o apoio de um sistema de posicionamento dinâmico. A missão terá a duração de uma semana.

 Uma ferramenta importante

O navio da Marinha de Guerra do Peru BAP Carrasco “plantará” as quatro boias na costa norte do país no início de 2019. (Foto: Direção de Hidrografia e Navegação do Peru)

 A DHN da Marinha tem como parte de sua missão realizar e pesquisar os trabalhos relacionados às ciências do ambiente aquático, para contribuir com o desenvolvimento nacional. Ela também intervém na missão do Comitê Multissetorial do Estudo Nacional do Fenômeno El Niño (ENFEN), que estuda o desenvolvimento dos fenômenos El Niño e La Niña, principalmente no Oceano Pacífico equatorial e no litoral do Peru. No entanto, há uma lacuna de informações na região conhecida como Niño 1+2, onde não se pode prever a presença dos fenômenos El Niño e La Niña. “Hoje em dia, a falta de boias na região faz com que uma referência precisa das condições oceano-meteorológicas na zona Niño 1+2, na costa norte do Peru, [seja] uma tarefa impossível. A situação fez com que não se percebesse a presença de El Niño Costeiro no verão de 2017, o que trouxe um grande prejuízo ao país, não apenas econômico, mas também em infraestrutura e, sobretudo, em perdas de vidas humanas”, disse o CF Buccicardi. “As boias oceanográficas são de suma importância para alertar a população na ocorrência desse tipo de eventos.”

 El Niño Costeiro 2017 causou um aumento abrupto da temperatura da superfície do mar, até atingir números acima de 26 graus centígrados em vários pontos da costa norte, enquanto que no Pacífico equatorial central ainda ocorria a transição de La Niña para um fenômeno neutro, o que causou as ocorrências de precipitações torrenciais. “Devido aos seus impactos associados às chuvas e inundações, esse evento pôde ser considerado o terceiro fenômeno El Niño mais intenso dos últimos 100 anos no Peru”, garante o Boletim Técnico Extraordinário emitido pelo ENFEN.

 Graças à coordenação entre o Peru e a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, em inglês) dos Estados Unidos, a Marinha e o Instituto do Mar do Peru colocaram 12 boias oceanográficas entre o Equador e as Ilhas Galápagos, a 240 milhas da costa, em 2016. As boias foram doadas pela Marinha dos EUA e pela NOAA.

 “A Marinha, através da DHN, tem mais ferramentas de monitoramento em alguns pontos oceânicos, sem precisar administrar a execução de um cruzeiro oceanográfico”, disse o CF Buccicardi. “Embora sejam uma importante ferramenta de monitoramento, isso não significa que em relação à gestão elas ajudem a melhorar a capacidade de planejamento. Esse tipo de boias é uma ferramenta de alerta precoce contra tsunamis.”

 NAYLAMP II

 Em 1999, o Banco Mundial e o governo peruano financiaram o projeto NAYLAMP (nome de um personagem mitológico do Peru que chegou do mar) para realizar o monitoramento e as pesquisas do Pacífico tropical sudeste peruano e determinar o surgimento do fenômeno El Niño. Naquela ocasião, a DHN teve sob sua responsabilidade a instalação, operacionalidade e manutenção das boias instaladas em frente ao litoral norte do Peru, entre 50 e 400 milhas da costa.

 “O projeto não está em vigor atualmente; no entanto, se procura a retomada dos trabalhos de monitoramento na região e nas áreas estratégicas para estudar as possíveis chegadas de colunas de água ou os números de suas mudanças. Com as [novas] boias esses objetivos poderão ser alcançados, porque elas seriam reativadas como um projeto novo, com o nome de NAYLAMP II”, concluiu o CF Buccicardi.

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