Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Peru discute importância das missões de paz

Diálogo conversou com o Almirante de Esquadra Jorge Moscoso, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, durante a SOUTHDEC 2016.
Marcos Ommati/Diálogo | 12 setembro 2016

O Almirante Jorge Moscoso participou do painel "Experiências Compartilhadas Relacionadas à Integração entre Gêneros nas Forças Armadas" durante a SOUTHDEC 2016. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

O Peru tem uma vasta tradição de participação em missões de paz, inclusive é membro fundador da Organização das Nações Unidas (ONU). E foi sob a gestão de um peruano, Javier Pérez de Cuéllar, como secretário geral da ONU que, em 1988, as Forças de Paz das Nações Unidas receberam o Prêmio Nobel da Paz.

Aproveitando a participação do chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru na Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC) 2016, realizada em Montevidéu, Uruguai, de 16 a 19 de agosto, Diálogo conversou com o Almirante de Esquadra Jorge Moscoso sobre este e outros temas.

Diálogo: O senhor poderia nos falar um pouco sobre a participação de seu país nas missões internacionais de paz e outras atividades relacionadas?

Almirante de Esquadra Jorge Moscoso: Parte da política do estado inclui o apoio ao sistema internacional e ao respeito ao direito internacional. Temos participado ao longo de muitos anos nestas operações de paz, tanto como parte dos estados-maiores ou dos oficiais observadores, como também na formação de contingentes. Temos atualmente um contingente no Haiti, que é um batalhão combinado com o Uruguai, o qual nos tem gerado experiências muito interessantes que vão servir para futuras missões. Há muito interesse da nossa parte e contamos também com o apoio de países amigos, entre eles os Estados Unidos, que sempre nos apoiam na parte de capacitação, bem como com alguns equipamentos. Já a outra missão que nós temos é na África Central, para onde foi enviada uma companhia de engenharia formada por 260 homens, mais uma boa quantidade de equipamento de engenharia e máquinas. Eles estão ajudando o Force Commander da África Central na manutenção de aeródromos e em toda a infraestrutura relacionada. É uma experiência nova e muito interessante, porque só a formação da companhia e o deslocamento já geraram muitas experiências e nos ensinaram muitas lições, sendo que agora vamos nos engajar na fase de sustentação. A logística na África Central é um questão bastante complicada que exigirá um trabalho muito detalhado e coordenado entre nós, o Force Commander e os países aliados.

Diálogo: Se a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH) terminar este ano, como já anunciou a ONU, o que acontecerá com o contingente peruano atualmente ali alocado? Vai ser mobilizado para outra região?

Alte Esq Moscoso: Efetivamente, já que isto também é parte do oferecimento do Peru à ONU, devemos manter uma companhia de infantaria pronta para ser mobilizada com um tempo mínimo de aviso, e já o estamos fazendo. A ideia é que, como parte do processo de participação na África Central, a companhia vá se mobilizando ao longo do território da África Central, porque neste momento estamos em um ou dois lugares diferentes e isto vai exigir um forte componente de segurança. Portanto, a ideia é preparar essa companhia, melhorar a sua capacidade antes de transferi-la à África Central e para que se possa apoiar o processo de mobilização da companhia de engenharia ao longo do tempo. É um processo que mantemos em coordenação com a ONU em Nova York e com o Force Commander na África Central.

Diálogo: Poderia nos explicar um pouco mais sobre a missão peruana na África Central?

Alte Esq Moscoso: Nos foi definido um âmbito de responsabilidade lá pela ONU, claro. No momento, estamos trabalhando com a manutenção de aeródromos em dois lugares, mas a ideia é ir avançando progressivamente e, para isto, temos que ir melhorando nossas capacidades e preparando o nosso pessoal. De fato, já nos deparamos com aspetos técnicos, por exemplo, a exigência de contar com profissionais credenciados pelos organismos internacionais para certificar o aeródromo, seja por questões de seguro ou de segurança. Então estamos preparando oficiais do Exército e da Força Aérea de forma a certificá-los e assim poder orientar adequadamente o trabalho de manutenção dos aeródromos.

Diálogo: Estas perguntas estão relacionadas, obviamente, com o tema da SOUTHDEC 2016 que é a evolução do papel militar na América Latina. O Peru já tem isto presente há muitos anos, e também já cumpre há muitos anos a outra função – que não é específica das Forças Armadas – que é a luta contra o narcotráfico e, especialmente, contra o Sendero Luminoso. Como está essa participação dos militares das Forças Armadas trabalhando em conjunto com a Polícia do Peru?

Alte Esq Moscoso: De fato, já vimos trabalhando há muitos anos para combater o que agora denominamos os remanescentes dessa organização ilegal, o Sendero Luminoso, que atua muito próxima e de forma entrelaçada com o narcotráfico. A missão das Forças Armadas é combater os atrasos representados pelo Sendero Luminoso. No entanto, manejamos o esquema das operações de forma integrada com a Polícia, porque não se pode separar uma coisa da outra. Há âmbitos ou cenários onde a presença de elementos do Sendero é maior, mas também há outros onde convivem os dois. Já comprovamos que é o Sendero Luminoso que presta segurança ao transporte da droga, sendo que cobram por isto. Assim, neste cenário e nesta parte do território, operamos com a Polícia de forma integrada, de maneira que se evidencie o ato ilícito. Se for do narcotráfico, nós damos todo o componente de segurança e a Polícia intervém. Então realmente estamos trabalhando ali de forma integrada.

Diálogo: O Sendero Luminoso, como já foi divulgado pelo governo e Forças Militares do Peru, está muito presente na região do Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro, mais conhecida como VRAEM. Mas está também em outras áreas do país? Existe participação das Forças Armadas em outras regiões e especificamente por este motivo?

Alte Esq Moscoso: Em outras partes do país, a única entidade que, por lei, tem atribuições para intervir em caso de ocorrências ilícitas é a Marinha, através da Direção Geral de Capitanias e Guarda-Costas. Têm sua própria lei e trabalham também com a Polícia em outras zonas, principalmente no mar, nos portos, nas zonas costeiras, nas zonas marítimas, nos rios navegáveis, na Amazônia, na área lacustre, lago Titicaca e nas outras áreas de lagos. Então, a Marinha é que tem o poder de intervir em ações ilícitas, entre elas o tráfico de drogas.

Diálogo: E a Força Aérea?

Alte Esq Moscoso: A Força Aérea não tem essa responsabilidade. O que a Força Aérea realiza é o controle do espaço aéreo, através de uma capacidade que está regulamentada pela lei de controle do espaço aéreo, que permite a interceptação de aeronaves que chamamos de hostis, ou seja, aeronaves que, por não terem um plano de voo ou um destino autorizado, invadem o espaço aéreo e são interceptadas por nossas aeronaves, para que não possam realizar ações ilícitas. Isto está regulamentado por lei, com todos os protocolos, e é este o trabalho que a Força Aérea realiza.

Diálogo: Como as Forças Armadas peruanas participam do que se refere como ajuda humanitária, particularmente no interior do país?

Alte Esq Moscoso: No que se refere aos problemas dentro do território, nos organizamos também através das subzonas de segurança, uma espécie de organização interna que permite às Forças Armadas utilizarem suas capacidades em apoio à população. Por exemplo, quando ocorre um terremoto, como este que acaba de nos atingir há alguns dias, estabeleceu-se imediatamente a ponte aérea e o Exército utilizou seus helicópteros para poder transportar a ajuda do sistema de defesa civil à zona do evento, neste caso o terremoto, e levar ou transportar os feridos para que possam ser atendidos nos hospitais das cidades. Este é um exemplo muito claro de como atuam as Forças Armadas. No caso de uma inundação nas zonas da Amazônia, por exemplo, a Marinha apoia a evacuação das pessoas feridas ou são estabelecidas, através do Exército ou da Força Aérea, pontes aéreas e abrigos para proteger essa população. No Peru, as Forças Armadas participam no sistema de defesa civil, na preparação e na resposta. Temos muitas provas que indicam termos uma resposta muito qualificada e bem preparada, pois temos a capacidade para fazer isto, ou seja, comando e controle, logística, e meios tanto do Exército como da Marinha e Força Aérea que podem ajudar a mitigar o impacto desses desastres, caso ocorram.

Diálogo: E com os países vizinhos, há uma troca de ajuda?

Alte Esq Moscoso: Mantemos muito boa relação. A Força Aérea realiza exercícios permanentemente porque há aspetos logísticos administrativos que são muito importantes. Eu posso querer ajudar um país, caso ocorra um evento qualquer, e o primeiro que se faz é enviar aeronaves, mas a carga tem que estar em paletes e de forma tal que os volumes possam ser transportados em diferentes tipos de aeronaves. Este sistema de logística é o que a Força Aérea utiliza com seus pares na região, de maneira tal que quando as aeronaves vêm, os volumes estejam paletizados e possam assim ser transportados sem gerar problemas para o país que estejamos apoiando.

Diálogo: Que foi o que não ocorreu no Haiti no início da ajuda humanitária, por exemplo, depois do terremoto de 2010...

Alte Esq Moscoso: Exatamente. Todos querem ajudar, mas enviam caixas ou volumes que não podem ser transportados. As forças aéreas sabem administrar este esquema muito bem para que a ajuda chegue e não se perca tempo em classificar a carga ou o sistema de apoio. Tudo isto já vem preparado dentro de um esquema logístico. Igualmente ao caso da Marinha, contamos com unidades como um navio logístico, adquirido já há algum tempo, que permite o transporte de médicos e a produção de água potável. Temos helicópteros embarcados para poder fazer uma ponte aérea local, ou seja, há uma série de capacidades que coordenamos com nossos países amigos e vizinhos para prestar apoio, caso ocorra um evento como o que ocorreu, por exemplo, em abril no Equador, que foi um evento de grande magnitude e nos permitiu oferecer a ajuda das Forças Armadas, que transportaram a carga e também apoiaram nas operações em áreas afetadas.

Diálogo: E os Estados Unidos estão conectados com vocês nesta parte de ajuda humanitária?

Alte Esq Moscoso: Sim, com os Estados Unidos nós mantemos uma relação muito boa no que se refere à capacitação e preparação e também temos a possibilidade de que enviem barcos de apoio e médicos que realizam trabalhos de assistência humanitária nas zonas costeiras. Há um trabalho muito bom de coordenação e apoio à comunidade.

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