Liderança de Nicolás Maduro se enfraquece perante a Força Armada

Maduro está cada vez mais isolado e só conta com o apoio parcial da cúpula militar.
Gustavo Arias Retana/Diálogo | 7 março 2019

Relações Internacionais

O líder opositor venezuelano Juan Guaidó saúda a multidão em sua chegada a Caracas no dia 4 de março de 2019, apesar de ter sido ameaçado de prisão pelo regime de Maduro, caso saísse do país. (Foto: Ronaldo Schemidt, AFP)

Desde que Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela, no dia 23 de janeiro de 2019, existe uma constante na Força Armada: cada dia mais militares viram as costas ao regime de Nicolás Maduro. Segundo Guaidó, os números já somariam 600 militares. A posição dos que abandonam Maduro é clara: eles acreditam que o chavista esteja violando a Constituição e que o representante escolhido pelo povo é Guaidó.

Os simpatizantes de Juan Guaidó participam de um comício em Caracas, no dia 23 de fevereiro de 2019, para protestar contra a apreensão de centenas de toneladas de ajuda humanitária para a Venezuela na fronteira com a Colômbia. (Foto: Matías Delacroix, AFP)

“Declaramos, com toda a responsabilidade, que nos atemos ao nosso juramento de defender o nosso povo e fazer respeitar as leis e a Constituição da nossa República”, disse o 1º Tenente do Exército Bolivariano da Venezuela Josué Hidalgo Azuaje, representando um grupo de militares venezuelanos exilados no Peru, em um vídeo no dia 17 de janeiro de 2019. “Desconhecemos Nicolás Maduro Moros como presidente da Venezuela e comandante em chefe da Força Armada Nacional Bolivariana.”

O posicionamento do 1º Ten Azuaje não representa apenas o sentimento dos diversos comandos militares refugiados fora da Venezuela. Ele também se alinha com a realidade vivida no interior da Força Armada, já que segundo analistas e militares exilados, o apoio à gestão de Nicolás Maduro é cada vez menor.

O General reformado do Exército Bolivariano da Venezuela Antonio Rivero, que continua exilado nos Estados Unidos, e José Ricardo Thomas, cientista político da Universidade Central da Venezuela, concordam que as diferenças entre a Força Armada e Maduro não são novas. Ambos acreditam que tais diferenças tenham aumentado desde que o líder chavista assumiu seu novo mandato, em 10 de janeiro de 2018, embora a Assembleia Nacional da Venezuela e a comunidade internacional otenham considerado inconstitucional.

As demonstrações de descontentamento nas instituições militares venezuelanas são evidentes. Uma publicação do dia 21 de janeiro de soldados exilados na Colômbia desconhece Maduro como líder da Força Armada. Nesse mesmo dia houve uma tentativa de revolta de funcionários da Guarda Nacional Bolivariana, em Caracas. Como resultado, foram detidos 27 militares. Além disso, no dia 23 de fevereiro, dia em que Guaidó tentou levar a ajuda humanitária para a Venezuela através das fronteiras com o Brasil e a Colômbia, foram contabilizados pelo menos 100 militares que abandonaram a Força Armada e pediram refúgio na Colômbia.

Maduro controla apenas os altos comandos

Para Thomas, a liderança de Maduro só tem peso sobre uma parte da cúpula militar, já que a maioria, nos postos mais baixos, também sofre a crise, portanto, questionam as decisões do líder chavista.

Os venezuelanos comemoram a volta do líder opositor e presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, que chegou a Caracas no dia 4 de março de 2019, depois de uma viagem pela América Latina. (Foto: Matías Delacroix, AFP)

“Ao que parece, ele mantém um certo respaldo nos altos comandos, porque eles estão incluídos nos negócios do chavismo e Maduro aumentou sua participação política para que eles continuem sendo seus aliados. A informação sobre o que realmente ocorre nos quartéis entre os altos comandos e os demais militares não é clara, há muita especulação; mas um fato comprovado é que [de 2018 a 2019] já houve sete tentativas de revolta interna, o que é um indício claro do descontentamento”, disse Thomas à Diálogo. “Os cargos mais baixos sofrem a crise como os demais venezuelanos que não têm relações com Maduro, e é aí onde reside o descontentamento.”

Além disso, a decisão de Maduro de assumir um novo mandato ilegítimo de acordo com seus opositores e pela comunidade internacional é uma situação que, segundo o Gen Ex Rivero, aumenta o repúdio pela sua gestão. O oficial explicou que os militares são, por formação, fiéis à estrutura; Maduro não apenas estaria violando a Constituição mas, além disso, por não ser um presidente legítimo, tampouco seria o líder legítimo da Força Armada.

“Essa situação é difícil de ser mensurada, porque apenas a cúpula militar se expressa, e ela está a favor de Maduro; mas sabemos que há um repúdio interno importante a essa nova assunção ilegal de Nicolás Maduro ao poder e isso incentiva muitos militares a expressar seu descontentamento”, explicou à Diálogo o Gen Ex Rivero. “Para a Força Armada, ter um comandante ilegítimo não deveria ser uma opção viável.”

A figura de Guaidó

De acordo com o oficial reformado, outro fator que influi nesse enfraquecimento militar é a liderança que Guaidó assumiu à frente da Assembleia Nacional e sua autoproclamação como presidente interino da Venezuela. “Parte dos militares esperavam a posse para mostrar seu respaldo diante da ilegalidade de Maduro. Há um reconhecimento de que Maduro esteja usurpando o poder e é possível que mais militares se coloquem sob o comando de Guaidó”, acrescentou.

Além disso, a Assembleia Nacional, dirigida por Guaidó, se comprometeu a aprovar uma lei de anistia para funcionários civis ou militares que colaborem para o restabelecimento da ordem constitucional. Pelo menos 50 países reconhecem Guaidó como presidente, incluindo os Estados Unidos e a maioria das nações latino-americanas.

Após a autoproclamação de Guaidó, o secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo pediu a renúncia de Maduro e o respaldo e a proteção dos militares venezuelanos à democracia e aos cidadãos daquele país. “O povo venezuelano já sofreu bastante com a desastrosa ditadura de Nicolás Maduro”, disse Pompeu no Twitter. “Incitamos Maduro a se afastar em favor de um líder legítimo que reflete a vontade do povo venezuelano.”

A situação é complexa, pois a Venezuela continua nas ruas e a liderança de Maduro está cada vez mais fraca. Em meio à crise, a Força Armada parece recuperar pouco a pouco o caminho da ordem constitucional.

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