Narcotraficante colombiano preso em festa de casamento

Aprendendo com os erros do audacioso Pablo Escobar, os contrabandistas de drogas colombianos dos dias de hoje preferem manter a discrição: jeans Levi’s em vez de ternos Armani, carros Toyota em vez de Ferraris, voos comerciais em vez de jatos particulares.
John Otis | 16 julho 2012

Festa de arromba: convidados comemoram o casamento do traficante de drogas Camilo Torres, vulgo “Fritanga”, em 1º de julho, em uma ilha colombiana no Caribe. [Foto/Revista Semana]

BOGOTÁ, Colômbia – Aprendendo com os erros do audacioso Pablo Escobar, os contrabandistas de drogas colombianos dos dias de hoje preferem manter a discrição: jeans Levi’s em vez de ternos Armani, carros Toyota em vez de Ferraris, voos comerciais em vez de jatos particulares.

Mas Camilo Torres, procurado nos Estados Unidos por tráfico de drogas, quebrou todas as regras.

Em 1º de julho, a polícia colombiana invadiu uma festa extravagante que já durava uma semana em um hotel de luxo em uma ilha caribenha, que contava com diversas bandas, astros de novelas, modelos e prostitutas entre os 200 convidados. O anfitrião era Torres, um membro de alto escalão da organização de tráfico de drogas Los Urabeños.

Torres, de 37 anos, acabara de se casar e dançava com a noiva quando os policiais acabaram com a festa, que já estava em sua sexta noite, e prendeu o noivo. Os convidados de Torres estavam tão embriagados que nem perceberam que se tratava de uma operação policial de verdade.

“Foi a coisa mais esquisita que vi em 10 anos de perseguição a traficantes”, disse um policial à revista Semana, de Bogotá. “Embora estivéssemos armados e uniformizados, as pessoas aplaudiam. Elas acharam que estávamos fantasiados e fazíamos parte do espetáculo.”

Algumas fotos da festa mostram Torres cantando com rappers. Em outras, a explosão de fogos de artifício e semicelebridades colombianas posando perto de letras em rosa formando a palavra “LOVE”.

‘Ilha da Fantasia’ traz de volta lembranças do cartel de Medellín

A festa aconteceu no Hotel Punta Faro, na ilha de Múcura, que fica no Golfo de Morosquillo, onde a diária custa entre 300 e 700 dólares (600 e 1.400 reais). A mídia local apelidou o atol tropical de “Ilha da Fantasia”.

As notícias e fotos da comemoração causaram furor na Colômbia, em parte por relembrar os dias em que os cartéis de Medellín e Cali comandavam o submundo da cocaína e exibiam sua opulência.

Descrevendo a época em “Matando Pablo” — um livro sobre Pablo Escobar e o cartel de Medellín — Mark Bowden escreveu que os barões da cocaína tinham mansões, limusines, carros de corrida, helicópteros e aviões particulares, roupas finas e obras de arte caríssimas. “Era uma vida de luxo jamais vista na Colômbia”, detalhou.

Em 1979, por exemplo, Escobar comprou uma fazenda de 3.000 hectares, batizando-a de Hacienda Nápoles. O barão das drogas construiu um aeroporto, um heliporto, seis piscinas e lagos artificiais no local e o encheu com animais exóticos, incluindo elefantes, búfalos, leões, rinocerontes, gazelas, zebras, hipopótamos, camelos e avestruzes.

“A mansão tinha todos os brinquedos e extravagâncias que o dinheiro pode comprar”, escreveu Bowden. “Pablo podia hospedar centenas de convidados por noite… Logo na entrada, havia um sedã da década de 1930 com marcas de tiros que Pablo afirmava ter pertencido ao casal de criminosos Bonnie e Clyde. Nápoles misturava o erótico, o exótico e o extravagante de maneira ultrajante.”

Hoje em dia, os traficantes de drogas preferem a discrição

Mas, com um padrão de vida elevado e fazendo uso da violência extrema para manter a riqueza e o poder, Escobar acabou se tornando um alvo fácil para as autoridades colombianas e americanas, e também para os traficantes rivais. Desde a derrocada dos cartéis de Medellín e Cali nos anos 90, os chefões de drogas que o sucederam procuram levar um estilo de vida discreto.

Isso, em parte, deve-se ao fato de terem perdido a influência. Na última década, as organizações colombianas foram desbancadas pelos cartéis mexicanos, que passaram a dominar as rotas de distribuição de drogas para os Estados Unidos, a parte mais lucrativa do negócio. Como consequência, há menos dinheiro das drogas circulando na economia colombiana.

Alejandro Gaviria, reitor do departamento de economia da Universidade dos Andes, de Bogotá, calcula que o comércio de drogas ilegais responde por 2,5% do produto interno bruto colombiano, em comparação aos 4% da época do domínio dos cartéis de Medellín e Cali.

Mas, além da lógica econômica, manter a discrição é mais seguro e, geralmente, mais eficaz. Em vez de matar funcionários públicos, por exemplo, os traficantes preferem suborná-los. Em vez de mansões, alguns moram em bairros de classe média, pegam táxi e são praticamente desconhecidos do público colombiano ou até dos agentes antidrogas.

É por isso que Torres, conhecido pelo caprichoso pseudônimo de Fritanga (Fritada), parece uma anomalia.

“Ele era um traficante experiente”, diz um investigador de polícia. “Daí a surpresa por ele ter cometido o erro grosseiro de dar uma festa típica dos famosos barões das drogas – algo que não vemos desde a década de 1980. Se não fosse pela festa, talvez não o tivéssemos capturado.”

'Fritanga' pode ser extraditado para os Estados Unidos

Embora não fosse um líder de cartel, Torres era um membro importante do Los Urabeños, uma gangue criminosa que controla muitas rotas de tráfico de cocaína no norte da Colômbia. Autoridades do país alegam que o papel de Torres era ajudar a levar as drogas à América Central, em parte obtendo informações de navegação da marinha colombiana para que as embarcações carregadas de cocaína pudessem evitar incursões.

Em 2008, Torres foi preso por acusações relacionadas a drogas, mas foi solto depois. Então, ele sumiu do radar das autoridades colombianas ao forjar a própria morte em 2010, convencendo um funcionário do governo a falsificar seu atestado de óbito.

Outro sinal de sua importância é que sete cidadãos americanos, incluindo cinco de Porto Rico — uma escala importante dos carregamentos de cocaína provenientes da Colômbia com destino aos Estados Unidos — foram detidos temporariamente na festa.

“A presença de estrangeiros no casamento pode ser mais um indicador do status de Fritanga na rede de negócios do Los Urabeños”, constata uma análise publicada pelo grupo de reflexão colombiano Insight Crime. “Já existem alguns sinais de que Fritanga exercia uma influência significativa sobre as autoridades colombianas: ele conseguiu obter um atestado de óbito falso, constando o reconhecimento cartorial e médico, em 2010.”

Após a prisão, Torres deverá ser extraditado aos Estados Unidos sob acusação de transportar cocaína para o território americano via América Central e México. Enquanto era levado algemado, Torres — que teria gasto US$ 1,4 milhão (R$ 2,8 milhões) no casamento — parecia tranquilo e gritou aos convidados: “Serei seu amigo eternamente”.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 14
Carregando conversa