Maioria de voos com drogas da América do Sul pousa em Honduras

Cerca de 79% dos voos com cocaína procedentes das pistas clandestinas da América do Sul aterrissam em Honduras, segundo o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei dos EUA.
Adam Williams | 1 maio 2012

Cerca de 79% dos voos com cocaína procedentes das pistas clandestinas da América do Sul aterrissam em Honduras, segundo o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei dos EUA.

O Relatório de Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos 2012 (INCSR), divulgado em março, afirma que as cargas aéreas de cocaína estão usando a região de floresta do leste de Honduras, conhecida como La Mosquitia, como uma central de transporte e redistribuição de drogas. O local permanece vulnerável “devido a seu isolamento, infraestrutura limitada, falta de presença do Estado e instituições de cumprimento da lei fracas”.

“A princípio, La Mosquitia era uma zona de pouso para voos que transportavam drogas e o transbordo era facilitado por voos subsequentes, embarcações marítimas, tráfego fluvial e movimentação por terra pela Rodovia Pan-americana e estradas vicinais”, diz o INCSR.

Alguns dias após a publicação do relatório, as Forças Armadas hondurenhas descobriram mais de 70 pistas de pouso ocultas nas escassamente povoadas regiões leste e nordeste. Os militares encontraram tais pistas nas regiões de Olancho, Colón, El Paraíso e Gracias a Diós, onde foram abertas faixas estreitas na floresta para a aterrissagem de pequenas aeronaves.

“Essas pistas de pouso estavam prontas para as aterrissagens, o que indica que eram usadas com uma frequência de uma ou duas vezes por semana pelos traficantes de drogas”, revela o general René Osorio Canales.

Forças Armadas dinamitam pistas de pouso clandestinas

Juntos, integrantes do Exército, Marinha e Aeronáutica do país localizaram as pistas em La Mosquitia, uma região coberta por florestas densas e rios sinuosos que ligam principalmente as comunidades indígenas, afirma Osorio. Assim que foram encontradas, as pistas, que tinham entre 1.200 m e 2.800 m de extensão, foram dinamitadas pelos militares para impedir pousos futuros.

Os militares destruíram 13 pistas de pouso clandestinas nas primeiras duas semanas de março e planejam destruir cerca de 60 até o final de abril. O relatório, que descreve o excessivo tráfico de drogas em La Mosquitia, não chegou a surpreender os militares hondurenhos.

Desde 2007, as Forças Armadas hondurenhas e a Comissão Antidrogas do governo apreenderam ou recuperaram inúmeros aviões de pequeno porte nas florestas de La Mosquitia. Em março de 2010, um pequeno bimotor que transportava 550 kg de cocaína foi encontrado ali, junto com três barcos e centenas de armas que fariam parte de uma operação colombiana.

Em agosto de 2010, uma unidade antidrogas especial hondurenha reagiu a uma aterrissagem de uma aeronave suspeita. Os soldados apreenderam o avião com 470 kg de cocaína e uma granada-foguete em um caminhão.

Em fevereiro, a Marinha hondurenha recuperou um Cessna 206 abandonado em uma área de pântano localizada entre duas lagoas em La Mosquitia, que, acredita-se, tenha sido usado no tráfico de drogas. Considerado irreparável, foi destruído pela Marinha e pela Comissão Antidrogas. O Ministério da Defesa afirma que 99 aviões com drogas aterrissaram em Honduras no ano passado, comparado a 94 em 2010.

“É uma pena que La Mosquitia esteja sendo usada para o tráfico de drogas”, afirmou aos jornalistas o ministro da Defesa, Marlon Pascua, em fevereiro. “É importante que as Forças Armadas mantenham uma forte presença na região para que os narcotraficantes não vejam La Mosquitia como um território de livre operação.”

Captura de semissubmersível é um marco

Além dos aviões com drogas, em julho de 2011, a Marinha interceptou um semissubmersível de autopropulsão a 27 km da costa de La Mosquitia. A captura do submarino com drogas foi a primeira de Honduras e resultou no confisco de 5,9 t de cocaína — a maior apreensão do gênero na história do país.

Em setembro de 2011, um segundo semissubmersível foi interceptado a 210 km do mesmo litoral, transportando uma quantidade equivalente de cocaína.

“Nós consideramos um sucesso que a Marinha hondurenha tenha interceptado essas embarcações com drogas pela primeira vez em águas nacionais”, comemora Pascua. “Ficou evidente a proeza tecnológica com que evoluem os narcotraficantes e temos que continuar a progredir nossa tecnologia para impedir que cargas futuras atravessem Honduras.”

A Marinha hondurenha apreendeu mais de 22 t de cocaína em 2011, quase quatro vezes mais que a quantidade confiscada em 2010.

Ao norte de La Mosquitia, na cidade montanhosa de Cerro Negro, autoridades encontraram, no ano passado, o primeiro laboratório de cocaína do país. A descoberta ocorreu graças a dicas de moradores locais sobre atividades estranhas em uma remota plantação de café — incluindo a chegada e partida frequentes de helicópteros.

Laboratório clandestino de cocaína nas montanhas

A polícia subiu montanhas e atravessou rios de barco para chegar ao laboratório, onde encontraram tecnologia ampla e avançada utilizada no processamento de cocaína. Após mais investigações, descobriram que a instalação fabricava pasta-base contrabandeada da Colômbia, que era enviada à Guatemala e ao México. O Ministério da Defesa determinou que o laboratório era operado pelo cartel mexicano de Sinaloa.

“O combate ao narcotráfico deve ser um esforço colaborativo dos países da América Latina”, decreta o ex-ministro da Defesa Oscar Álvarez. “O laboratório foi encontrado aqui, mas tem ligações com Colômbia, Guatemala e México. Temos que trabalhar juntos para encontrar todos os pontos de transporte, da origem ao destino.”

O relatório, que denuncia o tráfico de cocaína via Honduras, chega em um momento em que a violência ligada às drogas deixou o país em um estado de crise. Em 2010, a Pesquisa Global de Homicídios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime revelou que Honduras tinha a maior taxa de homicídios do mundo — 82 por 100.000 habitantes.

Em fevereiro, o presidente hondurenho, Porfirio Lobo, declarou que a violência relacionada às drogas mata cerca de 22 pessoas por dia e que “um número infinito de vidas” se perdeu como resultado do tráfico de drogas. Cerca de 7.000 habitantes foram mortos em Honduras em 2011. Uma pesquisa da ONU do ano passado determinou que 66% dos hondurenhos classificam o uso de drogas como uma das principais questões de segurança em nível de bairro.

A apreensão de 2011 indica que as forças de segurança hondurenhas estão melhorando, mas o INCSR garante que a luta contra os traficantes de drogas será longa. “As organizações criminosas que operam em Honduras são cruéis, bem armadas, bem financiadas e aptas logisticamente”, diz o relatório. “Enquanto o governo hondurenho mostra progresso, falta-lhe conhecimento, recursos e uma legislação abrangente para combater a ameaça de maneira eficaz.”

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