Criminosos latino-americanos viajam à China para lavar dinheiro

Vínculos com máfias e cumplicidade do sistema financeiro tornam o país asiático um destino perfeito para o dinheiro do narcotráfico e outras atividades ilícitas da América Latina.
Gustavo Arias Retana/Diálogo | 30 novembro 2018

Ameaças Transnacionais

Reprodução artística da transição do dólar dos EUA para o renmimbi chinês. (Foto: Wei yao, AFP)

Em agosto de 2018 um tribunal especial do Colorado, EUA, apresentou queixas contra 16 narcotraficantes que levavam cocaína do México para os Estados Unidos e depois lavavam o dinheiro das vendas através de bancos chineses. A dinâmica não é nova; em 2017, a Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA, em inglês) advertiu que grupos criminosos do México, da Colômbia e da Venezuela utilizam seus contatos com as máfias chinesas para lavar dinheiro através de instituições bancárias do país asiático.

Sara Hsu, professora adjunta de Economia da Universidade Estadual de Nova York e especialista no sistema financeiro chinês, explicou que a nação asiática é um destino atraente para a lavagem de dinheiro do crime latino-americano. Uma das razões disso é o fortalecimento dos vínculos entre grupos como os cartéis mexicanos de drogas e as máfias chinesas.

“É bem verdade que no passado as regulamentações chinesas sobre lavagem de dinheiro eram menos rigorosas”, disse Hsu à Diálogo. “Mas o incentivo decorre da existência de algumas gangues criminosas chinesas que se dispõem a cooperar com os criminosos da América Latina para lavar dinheiro e participar de outras atividades ilegais, tornando-se assim facilitadores importantes para as organizações [criminosas] latino-americanas.”

A opinião de Hsu coincide com a abordagem da DEA no seu relatório Avaliação Nacional de Ameaça de Drogas 2017 sobre o papel das organizações criminosas chinesas, especialmente as que atuam nos EUA como facilitadoras da lavagem de dinheiro para os criminosos latino-americanos. “Essas organizações têm um papel chave na lavagem dos lucros das drogas ilícitas. As quadrilhas asiáticas envolvidas em lavagem de dinheiro contratam seus serviços e, em alguns casos, trabalham em conjunto com outros grupos criminosos como as gangues mexicanas, colombianas e dominicanas”, afirma o relatório.

Hsu disse que entre as táticas mais comuns empregadas na lavagem de dinheiro estão a compra de produtos da China e os intercâmbios comerciais falsos através de cassinos em Macau e casas de câmbio de divisas chinesas. Gonzalo Villa, diretor para a América Latina da Associação de Especialistas Certificados em Delitos Financeiros, com sede em Miami, Flórida, acrescenta a essas estratégias o uso de criptomoedas, como o bitcoin.

“Os delinquentes se sentem atraídos pelo bitcoin e outras moedas similares, devido à sua percepção de anonimato e ao seu sistema descentralizado”, disse Villa à Diálogo. “Por exemplo, a rede obscura ou dark web se tornou o lugar escolhido para a atividade ilegal online. As criptomoedas são um método cada vez mais utilizado pelos criminosos.”

Uma modelo mostra o funcionamento do primeiro caixa automático de bitcoins em Hong Kong, no dia 25 de novembro de 2014. O bitcoin é uma moeda baseada em um software criado em 2009 pelo indivíduo conhecido como Satoshi Nakamoto. (Foto: EyePress Noticias, AFP)

A DEA também confirma que os bitcoins e outras moedas virtuais permitem que os cartéis de drogas latino-americanos transfiram seus lucros ilegais com facilidade em escala internacional. “O bitcoin é o método mais comum de pagamento na venda de drogas nos mercados de redes obscuras, como a denominada deep web, e surge como uma maneira prática para transferir os lucros das vendas de entorpecentes ilícitos em escala internacional”, disse a DEA no relatório.

O sistema financeiro chinês é cúmplice

É importante ter sempre em mente que muitos métodos empregados na lavagem de dinheiro do crime latino-americano na China têm o suporte de um sistema financeiro frequentemente penalizado devido às suas regulamentações escassas. A China se tornou um centro atraente a nível internacional para a lavagem de dinheiro, devido à debilidade do seu sistema financeiro”, garantiu Villa.

Nos últimos anos, vários bancos chineses receberam punições ou advertências nos Estados Unidos por descumprirem os regimes legais para a prevenção dos delitos financeiros vinculados à lavagem de dinheiro. Em 2018, o Industrial and Commercial Bank of China Financial Services LLC foi punido pelas autoridades dos EUA e pelos reguladores da indústria financeira, por apresentar falhas em seu programa de conformidade ao combate à lavagem de dinheiro. O gabinete central da empresa em Nova York foi citado por deficiências em seus programas anti-lavagem e recebeu uma multa de US$ 12,5 milhões.

Em 2016, o Departamento de Serviços Financeiros de Nova York impôs uma multa de US$ 215 milhões ao Agricultural Bank of China por ter violado as regras de lavagem de dinheiro, em grande parte por ocultar deliberadamente transações suspeitas e por ter silenciado seu oficial de conformidade. Em 2015, a Reserva Federal e o Departamento de Serviços Financeiros de Nova York ordenaram que o China Construction Bank ajustasse os controles de lavagem de dinheiro em sua sucursal de Nova York, para resolver uma ação judicial apresentada por ambas as agências reguladoras.

Essas falhas que o sistema financeiro chinês parece pouco interessado em corrigir se transformam no aliado ideal dos criminosos latino-americanos que, quando precisam lavar dinheiro obtido em negócios como a venda de drogas, encontram na China a combinação perfeita entre criminosos aliados, mecanismos de legitimação de capitais e bancos cúmplices.

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