Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Investir em ciberdefesa é fundamental para o futuro do Brasil

Brigadeiro da Força Aérea Brasileira conversa com Diálogo durante a SOUTHDEC 2017
Marcos Ommati/Diálogo | 12 outubro 2017

O Brigadeiro-do-Ar da Força Aérea Brasileira Ricardo Reis Tavares discutiu algumas das ações realizadas pelas Forças Armadas brasileiras para combater as ameaças cibernéticas. (Foto: Marcos Ommati, Diálogo)

O Brigadeiro-do-Ar Ricardo Reis Tavares, subchefe de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, foi o representante do Brasil durante a Conferência Sul-Americana de Defesa 2017 (SOUTHDEC, por sua sigla em inglês). O brigadeiro foi o moderador de um painel que discutiu o problema dos ciberataques. Entre outras informações importantes, ele disse que nos últimos dois anos houve um aumento de mais de 270 por cento nos ataques cibernéticos a sites de empresas e do governo no Brasil. Para falar sobre este e outros temas, Diálogo conversou com o Brig Reis durante o evento realizado em Lima, capital do Peru, de 22 a 24 de agosto.

Diálogo: O senhor falou muito durante o painel sobre compartilhamento de informações, que isso seria fundamental para enfrentar o problema dos ciberataques. O que é que está faltando para que este compartilhamento de informação ocorra de fato?

Brigadeiro-do-Ar Ricardo Reis Tavares, subchefe de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa do Brasil: O que ocorre é que essa necessidade está se despertando cada vez mais. Então, esta conferência já é um mecanismo de boa vontade, de boa fé dos países para você aí sim identificar essas necessidades. Não que esteja faltando algo, mas temos que complementar nossas intenções. O próximo passo é, no aspecto bilateral, cada país expor a sua necessidade, compartilhar essa informação. E como nós vamos compartilhar? Qual é a maneira? Só no aspecto de confiança mútua isso pode ser concretizado. E todos os países têm o seu mecanismo de reuniões bilaterais. Então, temos que fazer intercâmbios, trocar experiência, capacitação, cursos, visitas técnicas e, como nós vamos operacionalizar entre os especialistas na área de cibernética, com certeza vão achar caminhos mais adequados para que essa informação chegue em tempo oportuno para fazer frente a uma ameaça colocada no cenário, dentro das infraestruturas críticas do país.

Diálogo: O senhor acha que o Brasil tendo sido sede da Copa do Mundo, em 2014, e das Olimpíadas, em 2016, melhorou suas capacidades neste segmento?

Brig Reis: Com certeza elevou o nível do país pelo menos em um patamar de onde ele estava anteriormente. Sem fazer comparações, eu acredito que o Brasil aprendeu muito, reformulou sua própria doutrina, em termos de cyber defense, e criou protocolos, logicamente, para um evento de grande porte, mundial, como foram as Olimpíadas, por exemplo. Há muitas lições aprendidas em termos de compartilhamento de informação. Então, esses fóruns futuros com os especialistas acho que serão uma grande chave para cada país, regionalmente, realizar essa troca de experiências e informações. Vimos e identificamos aqui, no painel de hoje, como a Argentina, os Estados Unidos e o Uruguai têm criado também seus próprios modelos, adequando-os às leis de seus países. Então, com certeza, um processo, um ponto identificado naquele país poderá ser útil para o Brasil também e vice-versa. Mas o Brasil, com certeza, cresceu muito e aprendeu muito com os Jogos Olímpicos.

Diálogo: O governo brasileiro anunciou um corte de mais de 40 por cento no orçamento, atingindo em cheio as Forças Armadas. Como equilibrar as contas e continuar investindo no que muitos consideram ser a próxima guerra, ou seja, a guerra cibernética?

Brig Reis: Como uma nova capacidade militar, a cibernética tem que estar dentro do orçamento das Forças Armadas, assim como tem sido no marco regulatório da trajetória do Brasil no campo cibernético. Então, nós vimos que, em 2012, com a criação do projeto estratégico de sistemas de defesa, foi criada, justamente, uma ação específica orçamentária para esse tipo de investimento, porque não o vemos nem como um gasto. Porque é um investimento em ciberdefesa, que justamente vai nos proteger dos danos que poderão ser causados por futuras ameaças, más intenções, de ataques de terroristas, de hackers ou de criminosos. Um levantamento realizado por bancos latino-americanos reportou um prejuízo de 90 bilhões de dólares num único ano. É muita coisa. Então é um investimento para nos proteger porque cabe justamente à estrutura de defesa de sistemas, de defesa cibernética, apoiar. E as Forças Armadas estão ali para contribuir no combate a essa ameaça que pode causar um dano.

Diálogo: Como o senhor analisa a participação da Força Aérea Brasileira em atividades na Amazônia, principalmente, em apoio ao Exército e à Polícia Federal?

Brig Reis: É fundamental a presença das Forças Armadas na Amazônia. É a presença do Estado brasileiro e, as Forças Armadas, como instituição de Estado, estão presentes nas nossas fronteiras, nos nossos pelotões de fronteiras, nos nossos batalhões, no comando militar na Amazônia, nos distritos navais, na presença das alas, que estão posicionadas nas diversas regiões da Amazônia. E isso cumpre a nossa missão que é defender a soberania; é a presença do Estado. É um bem-social que o Brasil faz integrando aquela região, as suas comunidades, sejam comunidades indígenas ou não, levando saúde, escola e educação para aquele povo. Ou seja, as comunidades não vivem ali sem as Forças Armadas. Então, é muito importante realmente.

Diálogo: Como o Brasil, um país em desenvolvimento, conseguiu colocar no mercado uma aeronave que parece ser uma unanimidade: o Super Tucano (A-29). Há projetos futuros?

Brig Reis: As Forças Armadas são ainda idealistas. Somos idealistas e patriotas. Pensamos no Estado brasileiro e investimos nisso. Então, a Força Aérea, por meio da Embraer [empresa que fabrica os Super Tucano], que era uma companhia estatal, estava trabalhando na fabricação de um avião Bandeirantes a hélice, em 1968. Só que já havia o Concorde naquela época. O gap entre ambas as aeronaves era enorme. Mas a Força Aérea acreditou naquele projeto, investiu naquele projeto, e com os conhecimentos adquiridos, hoje os nossos aviões não têm diferença com outros do mundo, não ficam aquém. No âmbito de aeronaves, de conhecimento, de engenharia da aviação, as aeronaves da Embraer estão no mesmo nível das demais. Voltando ao Super Tucano, ele foi possível porque nós acreditamos no nosso produto, acreditamos no nosso investimento, e sabemos que é um grande avião, realmente, para a missão que lhe foi concebida. Só recebemos elogios dos países que têm adquirido esse produto. Então, realmente, é um investimento das Forças Armadas, em especial, da Força Aérea.

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