Destaque: Uma conversa com nossos líderes

IADC se transforma para continuar relevante em tempos de novas ameaças

Marcos Ommati/Diálogo | 17 fevereiro 2017

O General de Brigada Da Cunha foi aluno do Colégio Interamericano de Defesa em 2011 e é atualmente o vice-diretor da instituição. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Por questões operacionais, aproveitamento de oportunidades apresentadas ou mera coincidência, os quatro mais recentes vice-diretores do Colégio Interamericano de Defesa (IADC, por sua sigla em inglês) foram brasileiros. O atual é o General de Brigada do Exército Brasileiro Rolemberg Ferreira da Cunha, que foi aluno do IADC em 2011 e também já foi assessor de ensino da instituição. Para falar um pouco sobre como é ser o vice-diretor de uma instituição que conta com 64 alunos de 14 países de língua espanhola ou portuguesa, Diálogo conversou com o Gen Brig Cunha em seu escritório no IADC, que está localizado em Fort Lesley J. McNair, Washington D.C.

Diálogo: Qual é a relevância atual do Colégio Interamericano de Defesa?

General de Brigada Rolemberg Ferreira da Cunha: Embora o Colégio tenha a sua sede aqui na capital dos Estados Unidos, e seja dirigido atualmente por uma almirante americana, é uma instituição de ensino inteiramente ibero-americana. É um colégio basicamente voltado para a comunidade latina, a comunidade de língua espanhola, a comunidade de língua portuguesa. O Colégio hoje estuda os problemas que vive a América Latina: narcotráfico, imigração ilegal, desastres naturais, contrabando de armas, contrabando de pessoas etc. Os problemas da América Latina hoje, as chamadas novas ameaças. E qual é a importância? A importância é a divulgação. A importância é a capilaridade que tem o Colégio. Porque, imagina, qual o colégio hoje, no mundo, que possui uma representatividade de 14 países? E 14 países que vivem os mesmos problemas? Então, nós temos aqui:14 países, com 64 alunos militares ou civis. Militares que têm uma projeção de carreira muito grande; civis que são de altos postos nas suas instituições, ligados ao governo, que vão difundir toda essa ideia, todo esse trabalho, todo esse estudo que é feito aqui em 14 países da América Latina.

Diálogo: No entanto, os problemas que o senhor mencionou, que são extremamente importantes e são comuns entre estas nações, não são mais problemas de segurança e não de defesa?

Gen Brig Cunha: Você foi no cerne da questão. Hoje em dia, as ameaças que temos são internacionais, ou seja, aquela ameaça tradicional, de uma guerra entre nações, por exemplo, não existe atualmente em nossa região. Por isso, tem sido substituída, pouco a pouco, por atividades ilegais interfronteiras. Eu vou falar um pouquinho do que eu vejo de Brasil. Quais são os problemas que o Brasil enfrenta hoje? Na área de defesa: nenhum. É lógico que o Exército tem que estar preparado, você tem que manter uma força atualizada, com armamento, pessoal, conhecimento e adestramento. Mas, hoje você não tem uma ameaça externa. Mas você tem uma ameaça interna ou ameaça interfronteiras que afetam a vida do país, sensivelmente. Então, você não pode excluir as Forças Armadas desse dia-a-dia, desses problemas, que são mais de segurança. O nome do Colégio é Colégio Interamericano de Defesa. Mas, o que se estuda aqui é ligado à área de segurança e defesa. Tanto é que o aluno sai daqui graduado em Segurança e Defesa Hemisférica. Então esse é o título do diploma dele.

Diálogo: Como se chega a vice-diretor do IADC?

Gen Brig Cunha: O Colégio faz parte da Junta Interamericana de Defesa [JIDD, por sua sigla em inglês]. Alguns cargos do sistema JIDD, como o vice-diretor, o chefe de estudos aqui do Colégio, o presidente do Conselho de Delegados e o secretário da JIDD são cargos eletivos. Os países apresentam os seus candidatos e é feita essa eleição. Existe sim todo um trabalho de ocupar esse espaço. Os países se preocupam em ocupar esses espaços, que são espaços de lideranças. Então, existe um entendimento de uma renovação de ciclos. Toda vez que um país consegue colocar um candidato numa dessas funções, o próprio se responsabiliza com o aporte de recursos. Então, esse país tem que ter uma capacidade de aportar esse recurso, obviamente.

Diálogo: Mas o custo-benefício para o país acaba sendo vantajoso, certo?

Gen Brig Cunha: Sem dúvida. Como é um colégio multinacional, com várias nações envolvidas, quanto mais você colocar alguém de uma nação aqui dentro, independente da nação, mais você vai estar projetando o nome daquele país. Então, ter aqui um quarto vice-diretor consecutivo é uma forma de expandir o nome do Brasil, expandir o nome do Exército Brasileiro, expandir o nome das Forças Armadas do Brasil, de divulgar, de mostrar o trabalho que estamos fazendo. E não é apenas em cargo de chefia que o Brasil está representado aqui no IADC. Atualmente temos dois professores brasileiros parte do corpo docente: O dr. Paulo Edvandro Costa Pinto e o professor Carlos Eduardo Acevedo; temos dois assessores de ensino brasileiros; o chefe do Departamento de Protocolo é brasileiro e o chefe do Departamento de Registro também é brasileiro. Temos alguns sargentos que trabalham nos diversos departamentos e funções administrativas. Então, hoje, o Brasil, o Ministério da Defesa, ele está vocacionado a se fazer presente o quanto mais no Colégio porque isso aí, não tenha dúvida, é uma projeção, é uma forma de mostrar o trabalho do Brasil, é uma forma de o Brasil estar cada vez mais inserido nesse contexto das Américas.

Diálogo: O senhor assumiu este cargo em dezembro de 2016. O que espera aportar para o Colégio?

Gen Brig Cunha: Eu acho que a maior participação minha aqui, no Colégio, é tentar convencer o governo brasileiro ou o Ministério da Defesa do Brasil da necessidade do aporte de recursos do país aqui. É lógico, existem as minhas missões aqui como vice-diretor, as minhas tarefas, as minhas atribuições, que são atribuições já regulamentadas, são as missões corriqueiras aqui do Colégio. Agora, eu acho que o meu principal papel aqui é convencer o Ministério da Defesa da importância de se aportar recursos, tanto em pessoal, quanto em recursos financeiros, para o Colégio. Para que o Colégio continue tendo um progresso nos seus objetivos. Que, agora, o grande objetivo do Colégio é transformar uma simples escola numa escola de Mestrado, ter um curso regular de Mestrado aqui. Isso demanda um aporte de recurso grande. Sem considerar já o aporte de recurso que o Exército— que as Forças Armadas fazem, que o Ministério da Defesa faz, através do pessoal que ele banca aqui, que ele sustenta aqui. Eu acho que esse é o principal trabalho meu aqui porque o Brasil é um país, hoje— O Brasil, México, Canadá, Estados Unidos são os países que mais têm capacidade de aportar recursos. Então, esse é um trabalho meu de... eu acho que a minha principal função aqui é essa ligação junto ao Ministério da Defesa pra que a gente consiga aportar o máximo de recurso, o máximo de pessoal aqui pra que o Colégio, ele continue crescendo nos seus objetivos.

Diálogo: O que o senhor espera levar como benefício para o Brasil?

Gen Brig Cunha: Primeiro será muito valioso para minha formação pessoal e profissional. É o ganho de você estar trabalhando num colégio multidimensional, um colégio onde são discutidos temas atuais, relevantes, em que você participa dessas discussões, ou seja, uma atualização muito grande dos problemas. Regressarei a meu país conhecendo mais como as Américas, particularmente a América do Sul e a América Central, enxergam o Brasil. Como elas veem o Brasil, qual é o papel do Brasil com relação aos seus vizinhos, de qual é o papel do Brasil na região e no mundo. Não só com relação às Forças Armadas, como politicamente também.

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