Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Nosso melhor motor: capacidade humana

O apoio ao pessoal institucional é um fator-chave para proteger os céus guatemaltecos contra as ameaças transnacionais.
Geraldine Cook/Diálogo | 27 janeiro 2017

Capacitação e Desenvolvimento

O Brigadeiro Jorge Ruíz Serovic, comandante da Força Aérea da Guatemala, busca fortalecer a capacidade humana da aviação de seu país. (Foto: Geraldine Cook/Diálogo)

A Força Aérea da Guatemala possui um motor fundamental para o sucesso de suas missões: sua capacidade humana. O potencial humano da instituição é comprovado todos os dias através de jornadas extenuantes de ajuda humanitária, de apoio às operações da luta contra o crime organizado transnacional e na erradicação de incêndios florestais, entre outros.

O Brigadeiro Jorge Ruíz Serovic, comandante da Força Aérea da Guatemala, busca fortalecer a capacidade humana da aviação guatemalteca.

Em conversa com a Diálogo durante a Conferência de Chefes das Forças Aéreas da América Central, realizada de 12 a 13 de dezembro de 2016, em Tucson, Arizona, o Brig Ruíz falou do processo de desenvolvimento da aviação do seu país, da doutrina e dos princípios para enfrentar os desafios do futuro, em especial o das ameaças à segurança, como também da importância da cooperação internacional, como garantia de paz para o hemisfério ocidental.

Diálogo: Por que é importante a presença da Guatemala nesta conferência centro-americana?

Brigadeiro Jorge Ruíz Serovic: Venho na qualidade de comandante de nossa Força Aérea. Para nós é importante nossa presença porque queremos confirmar que, para a Guatemala, é fundamental colaborar com o cumprimento da missão da Força-Tarefa Conjunta Interagências Sul no combate contra o crime organizado transnacional, já que esse é um flagelo que afeta não só os Estados Unidos mas também cada um dos países parceiros da região sul. Nós queremos estreitar laços de amizade com os comandantes das forças aéreas de toda a região, para facilitar a comunicação entre as forças aéreas e possibilitar o intercâmbio de informações. Para o futuro, estamos pensando em fazer parte da interoperabilidade entre forças aéreas para realizar exercícios conjuntos contra o crime organizado transnacional.

Nesta conferência estou vendo caras conhecidas e amigas; vi membros de outras forças aéreas, porque tínhamos participado anteriormente de outras reuniões bilaterais, e isso facilita muito [as relações], principalmente porque somos todos latinos e fazemos amigos facilmente. O fato de nos conhecermos previamente nos permite ganhar tempo quando precisamos estabelecer algum tipo de intercâmbio; isso nos permite eliminar muitas barreiras que normalmente ocorrem quando duas pessoas ou dois comandantes não se conhecem. O conhecimento prévio nos permite agilizar qualquer trâmite e realizar exercícios de uma maneira mais fluida.

Diálogo: Quais são os problemas mais importantes de segurança que a Guatemala enfrenta?

Brig Ruíz: Temos dois problemas bastante importantes: a vulnerabilidade de nosso espaço aéreo por causa das aeronaves envolvidas com o crime transnacional e, ao mesmo tempo, a porosidade de nossas fronteiras, onde não podemos exercer uma presença constante. Devido ao fato de que grande parte dessa fronteira é selva, as pessoas entram e saem sem que tenhamos muito controle ou muita supervisão sobre isso. Então, receamos que nessas áreas estejam passando drogas, armamentos e pessoas sem documentação. Esses negócios ilícitos são muito grandes em nível internacional. Até terroristas podem passar, devido à falta de controle que temos em nossos países. Por isso é que a força de uma corrente não se mede como um todo, mas pelo seu elo mais fraco. Então, é preciso considerar todos os que participam dessa corrente.

Diálogo: A partir da perspectiva da Guatemala, qual é a importância dos programas de cooperação regional para a luta regional contra o crime organizado transnacional, por exemplo?

Brig Ruíz: O crime organizado transnacional, como eu disse, é transnacional, transcendendo as fronteiras. Hoje em dia, um país sozinho não consegue combater o crime organizado transnacional. Eles têm dinheiro, têm uma logística gerenciada em nível mundial, e os países como os nossos não possuem orçamentos muito grandes para poder fazer-lhes frente. Então, é necessário um aparato logístico muito grande de inteligência e, no caso específico das forças aéreas, ter aeronaves, ter mecânicos para sua manutenção para poder enfrentá-los. Em nosso caso, enfrentá-los no espaço aéreo. Por isso são muito importantes as conquistas que conseguimos obter nesse tipo de reuniões, como propostas e acordos, porque definitivamente sozinhos não podemos fazer nada.

É importante que os Estados Unidos vejam qual é a perspectiva pela qual enxergamos essa problemática. Na reunião, levantei um tema que pode se converter em um grande problema, como o caso das gangues, e como elas estão operando. As gangues não dependem só do narcotráfico; elas são independentes do narcotráfico. Elas já estão no meu país e começaram com atos de terrorismo. Esse é um fator novo dentro da fórmula das organizações criminais; é um fator que é preciso ver como funciona, quais são suas variáveis e como vai afetar no futuro não só a América Central, mas também a segurança nacional dos Estados Unidos. Porque tudo o que acontece em nossos países vem de volta para os Estados Unidos. Isso fica evidente com as correntes de imigrantes que existem, que vão e voltam, passando livremente por nossos países, porque não temos essa capacidade de contenção das pessoas que vão e vêm do sul para o norte. Então a colaboração, a comunicação e o intercâmbio de informações são vitais para todos os nossos países. Por isso, achamos muito bom que os Estados Unidos estejam pedindo nossa opinião e perspectiva para enfrentarmos a problemática do crime organizado transnacional.

Diálogo: Por que é importante para a Guatemala pertencer ao Sistema de Cooperação das Forças Aéreas da América Central (SICOFAA)?

Brig Ruíz: A Força Aérea da Guatemala representa a Guatemala no SICOFAA. Isso é muito importante, porque estamos em constante comunicação e, quando um país tem problemas e, principalmente em países como os nossos, nos quais os problemas são em sua maioria desastres naturais, como terremotos, chuvas, furacões e tudo isso, o sistema do SICOFAA entra imediatamente para nos apoiar. Como membros do SICOFAA, vimos apoiando outras nações como El Salvador e Costa Rica. Do mesmo modo, temos sido apoiados por outras forças aéreas como a do México, que colaborou conosco no controle de incêndios florestais. A Força Aérea do México possui a experiência e os meios aéreos para proporcionar esse tipo de apoio. O SICOFAA é importante, uma vez que permite também estreitar laços de amizade e trocar experiências, em especial experiências que vão muito além do tratamento do crime organizado transnacional, como, por exemplo, experiências de treinamento de pilotos e manutenção de aeronaves. Há um campo muito grande no qual todos os membros do SICOFAA colaboram entre si.

Diálogo: O senhor acredita que, para os países da região, é importante ter esse tipo de sistema de cooperação internacional regional?

Brig Ruíz: Definitivamente, isto é importante. Isso nos permite organizar-nos e dar uma resposta imediata no momento em que qualquer dos membros do SICOFAA solicitem. Essa resposta pode ser no caso de desastres naturais, antropogênicos, treinamentos e até em assessorias.

Diálogo: Como comandante das Forças Aéreas da Guatemala, qual é seu desafio mais importante?

Brig Ruíz: O desafio mais importante são os membros da Força Aérea da Guatemala. O recurso humano é o mais importante. São importantes os princípios e os valores que eles têm e seu treinamento; não importa se você tiver ou não aeronaves, se tiver ou não a infraestrutura; isso se pode conseguir da noite para o dia. Pode-se comprar uma aeronave de um dia para o outro, mas o oficial, o técnico aeronáutico, todas as pessoas que estão envolvidas no cumprimento da missão da Força Aérea, não são feitas de um dia para o outro. É muito importante que tenhamos pessoas comprometidas com o país e com os princípios e valores da instituição.

Diálogo: O senhor gostaria de acrescentar algo?

Brig Ruíz: Estão chegando tempos difíceis nos quais será necessária a colaboração de todos, tanto dos membros do SICOFAA como do Comando Sul dos Estados Unidos. O flagelo que estamos sofrendo do crime organizado transnacional, que não é só narcotráfico, afeta todas as nações, nos empobrece ainda mais e introduz a violência extrema dentro de nossos países. Necessitamos unir esforços para podermos seguir em frente, porque sozinhos não vamos poder fazê-lo; não temos nem orçamento e, às vezes, falta-nos capacidade. É bom ver como outros países com suas perspectivas conseguiram obter sucesso e analisar se isso pode ser reproduzido em outras nações. Por fim, é importante que continuemos mantendo essa amizade e relação entre os países irmãos latino-americanos.

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