Lanchas go-fast mudam o panorama do narcotráfico marítimo

As lanchas panga desenvolvem um papel importante nas rotas que abrangem a extensão da América do Sul à América do Norte e o Caribe.
Major do Exército dos EUA Brenda Fiegel, Gabinete de Estudos Militares Estrangeiros, Fort Leavenworth, Kansas | 12 julho 2018

Ameaças Transnacionais

O Serviço Nacional da Guarda Costeira da Costa Rica capturou a panga go-fast em águas internacionais longe da costa do Pacífico oriental da Costa Rica. (Foto: Serviço Nacional da Guarda Costeira da Costa Rica)

As autoridades da América Latina enfrentam uma constante e crescente batalha contra as organizações de tráfico de drogas, uma vez que o contrabando angaria anualmente lucros multibilionários para esses grupos. Em troca, os lucros são utilizados por estas organizações para fazer coisas inimagináveis para um cidadão comum, devido a seus limites financeiros. Por exemplo, as organizações de tráfico de drogas que operam praticamente em qualquer país podem comprar seus “direitos de operar livremente”, pagando membros da manutenção da ordem pública e do governo em troca de favores multifacetados e de proteções.

Outro benefício que vem com um fluxo de caixa infinito é o da capacidade para construir navios de tráfico altamente avançados que são usados para transportar cargas marítimas da América do Sul para mercados lucrativos nos Estados Unidos e na Europa. O que é mais relevante sobre os navios usados pelas organizações de tráfico de drogas é que, apesar de terem evoluído nas últimas duas décadas, as embarcações testadas e aprovadas, como os pangas, que foram aperfeiçoados e transformados em embarcações tipo go-fast, ainda são um elemento fundamental para o arsenal do tráfico marítimo de qualquer cartel.

Um breve histórico das lanchas panga

A panga original ganhou popularidade nos anos 1960, em países no mundo inteiro, quando foi usado principalmente para a pesca. No entanto, devido ao seu desenho, o barco estilo panga pode ser facilmente transformado em um barco conhecido no mundo do tráfico de drogas como go-fast. Como indica a revista Boating, na edição de agosto de 2017, o modelo original panga foi construído em madeira, mas, com o passar do tempo, os fabricantes perceberam que as versões feitas com fibra de vidro poderiam ser produzidas em massa rapidamente, com um custo reduzido, usando moldes ao invés de serem trabalhadas em madeira. Além disso, os modelos de fibra de vidro provaram ser incrivelmente mais duráveis e podem suportar múltiplos motores externos, permitindo que se movam mais rapidamente.

Para os traficantes de drogas, Inside Costa Rica destaca que a adição da fibra de vidro em si é importante porque proporciona ás embarcações tipo go-fast a habilidade de evitar a detecção de radar. Além do mais, os modelos mais novos são construídos inteiramente com fibra de vidro, enquanto que nos go-fast tradicionais apenas os cascos eram feitos com esse material. O uso da fibra de vidro é importante por várias razões, mas principalmente porque é difícil para os radares detectarem.

Em segundo lugar, as versões mais novas são mais leves, mais rápidas e mais espaçosas do que o típico barco go-fast renovado. Por exemplo, quando comparamos o tempo levado por um go-fast renovado e um go-fast de fibra de vidro para efetuar a mesma viagem, o de fibra de vidro é duas vezes mais rápido. Finalmente, as versões mais recentes consomem menos gasolina, fazendo com que a logística de parada para reabastecimento seja desnecessária em alguns casos.

Atributos adicionais das pangas tipo go-fast para o tráfico de drogas

As pangas utilizadas para o tráfico de drogas são geralmente equipados com GPS, sistemas de comunicação por satélite e equipamentos de visão noturna. Outra característica importante dos pangas utilizados no tráfico de drogas é que seu interior é pintado de azul, preto ou verde, para se camuflarem melhor em mar aberto. Devido à cor da tinta, se os membros da tripulação da go-fast perceberem a presença de patrulhas marítimas ou aéreas, eles simplesmente desligam os motores e cobrem o barco com uma lona azul, o que já provou ser eficaz porque, mesmo de uma distância curta, eles são praticamente imperceptíveis.

O modelo dessas embarcações também é importante, porque elas são versáteis e têm boa estabilidade tanto em águas profundas quanto rasas. Além disso, o jornal colombiano Semana informou que eles podem ser equipados com múltiplos motores (que variam de dois a cinco) de 250 a 300 HP, possibilitando que eles naveguem a uma velocidade de até 50 a 60 milhas por hora, em condições ideais de mar.

Outra característica dos mais novos pangas é algo conhecido como plataforma Delta, que é uma superfície plana, levemente côncava, que se estende ao longo da quilha. Esse elemento mede aproximadamente 5 centímetros de largura na direção da proa e mais ou menos 40 cm na popa. É útil para os traficantes de drogas porque permite que eles tirem o barco rapidamente do oceano, em direção a águas rasas e em seguida para a praia, para fazer uma descarga rápida.

Além disso, a plataforma, em combinação com a viga estreita, influencia as habilidades do barco de se manter no mar. Isso significa que o barco se torna um planador quase que instantaneamente e salta sobre as ondas ao invés de cortá-las. Para os propósitos do tráfico de drogas isso é fundamental, porque os interiores ocos desses barcos podem transportar até 1.5 tonelada ou mais de cocaína em um único carregamento e se a viga estreita e a plataforma usadas nos modelos mais novos cortassem a água, haveria o risco de a panga virar ou tornar-se instável.

As pangas go-fast estão em ação há décadas, mas provavelmente continuarão a ser um suporte para as organizações de tráfico de drogas devido a fatores tais como velocidade, versatilidade e custo. Elas são também de difícil detecção em alto mar e frequentemente podem despistar embarcações patrulheiras utilizadas por entidades de manutenção da ordem na América Central. Para finalizar, as pangas go-fast parecem ter chegado para ficar, sem importar o seu modelo, seja em fibra de vidro ou mais tradicional. O que podemos esperar é que as organizações de tráfico de drogas encontrarão novos meios para tornar essas embarcações mais eficientes e de mais difícil detecção.

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