Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Honduras comprometida com a interoperacionalidade

As Forças Armadas de Honduras ratificam laços de cooperação interagências com as nações parceiras regionais para combater as ameaças do narcotráfico e outros atos criminosos.
Geraldine Cook/Diálogo | 9 julho 2018

Destaque

O General-de-Brigada do Exército René Orlando Ponce Fonseca, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, avalia a cooperação internacional para enfrentar o narcotráfico. (Foto: Geraldine Cook, Diálogo)

O General-de-Brigada do Exército René Orlando Ponce Fonseca, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, está comprometido com o trabalho interagências para combater as organizações transnacionais criminosas, especialmente as dedicadas ao narcotráfico. A Força de Segurança Interinstitucional Nacional (FUSINA, em espanhol), o programa Guardiões da Pátria e os convênios binacionais de segurança fronteiriça fazem parte de seu compromisso institucional.

Para falar sobre esses temas, o Gen Bda Ponce conversou com Diálogo durante a Conferência de Segurança Centro-Americana (CENTSEC, em inglês) 2018, realizada em 9 e 10 de maio em San Salvador. A CENTSEC permite aos líderes de defesa e segurança pública da América Central examinar os problemas de segurança regional e buscar ações que beneficiem a colaboração regional e a erradicação das redes ilícitas.

Diálogo: Qual é a importância e o objetivo da participação de Honduras na CENTSEC?

General-de-Brigada do Exército René Orlando Ponce Fonseca, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras: Temos como objetivo o de reunir todas essas experiências e oportunidades de cooperação mútua que deve haver entre os Estados, especificamente os países centro-americanos. É importante conhecer o pensamento crítico de cada um dos chefes de Estado-Maior das forças armadas em relação a como enfrentar essas ameaças emergentes que estão afetando a região.

Diálogo: Quais são as iniciativas de trabalho conjunto e combinado das Forças Armadas de Honduras para combater as organizações transnacionais?

Gen Bda Ponce: Realizamos uma série de iniciativas. Entre as mais importantes está a capacidade da FUSINA, dedicada a enfrentar o flagelo do narcotráfico, das gangues e quadrilhas, bem como o do tráfico de armas e de pessoas, que já causaram muitos prejuízos à sociedade. O tema da segurança é uma abordagem integral; trabalhamos arduamente no fortalecimento das leis, especificamente daquelas voltadas para o confisco de bens provenientes de atividades ilícitas, e para a redução da idade penal dos criminosos, porque parte dessa atividade em Honduras envolve uma grande quantidade de crianças e adolescentes que pertencem ao crime organizado e praticam muitas atividades criminosas. Outra iniciativa é a da forte projeção social, onde o governo vem fazendo vultosos investimentos para permitir melhores condições de vida para a população. Através desses programas sociais, nós, como força armada, estamos integrados com jornadas médicas e com o programa Guardiões da Pátria, que visa resgatar jovens em risco social. Por isso chegamos aos bairros e colônias, onde a criminalidade tem um nível alto, para incutir valores sociais, éticos, espirituais, morais, bem como dar a esses jovens a oportunidade de concluir os estudos elementares ou secundários.

Diálogo: Qual é o resultado das operações da FUSINA?

Gen Bda Ponce: A FUSINA integrou diferentes instituições do Estado. Com esse esforço conjunto conseguimos desarticular praticamente a maioria das quadrilhas do crime organizado existentes em Honduras. Isso foi possível graças a uma forte vontade política do governo de enfrentar esse flagelo. Quando abordamos o tema da segurança e queremos enfrentar o narcotráfico, acreditamos que esse seja um problema que demande participação integral e não somente das forças armadas ou da polícia, mas que necessita caminhar simultaneamente com o fortalecimento das instituições jurídicas, entre outras. O mais importante é o esforço coordenado e integral, porque quando trabalhamos em conjunto e nos envolvemos todos com a parte jurídica bem fortalecida, as operações obtêm mais êxito.

Diálogo: Uma das responsabilidades da FUSINA é a de vigiar as fronteiras terrestres, aéreas e marítimas para combater o crime organizado transnacional e sobretudo capturar os integrantes de quadrilhas que fogem para os países vizinhos. Que trabalho conjunto e combinado Honduras realiza com as forças armadas da Guatemala, de El Salvador e da Nicarágua para combater esse flagelo?

Gen Bda Ponce: Dentro desse esforço interagências, que também denominamos multinacional, Honduras assinou protocolos em questão de segurança com os países vizinhos. Eu tive a oportunidade de viajar à Nicarágua em abril de 2018 e, junto com o General-de-Exército Julio César Avilés, comandante em chefe do Exército da Nicarágua, assinamos um protocolo de cooperação mútua entre os países e suas forças armadas para realizar operações em toda a linha de fronteira e assim reduzir a passagem de pessoas ilegais e contribuir com uma maior vigilância nos pontos cegos da fronteira que são utilizados pelos narcotraficantes. Esse protocolo nos tem trazido resultados muito bons. Com a Guatemala, temos a Força-Tarefa Conjunta Maya-Chortí, que nos permitiu reduzir imensamente o contrabando, mas cuja missão principal é a do controle do narcotráfico em toda a região. Com El Salvador, de forma conjunta e combinada, temos a Força-Tarefa Conjunta Lenca-Sumúl, com missão similar à da Força Maya-Chortí, onde obtivemos grandes resultados. Nós nos sentimos muito satisfeitos porque através do trabalho conjunto e combinado estamos mantendo as melhores relações com os países vizinhos, já que reconhecemos que esse flagelo não atinge somente Honduras, mas também os países da América Central e, obviamente por sua posição geoestratégica, também afeta o México, os Estados Unidos e o Canadá.

Diálogo: Qual é o balanço da Força-Tarefa Conjunta Maya-Chortí?

Gen Bda Ponce: Essa força tem pessoal capacitado da Força Aérea, Naval e do Exército. Suas operações bloquearam as atividades ilícitas, especialmente no estado de Gracias a Dios, onde tivemos uma presença massiva com patrulhamentos aéreos, marítimos e terrestres. A atividade do narcotráfico era evidente e existiam enormes problemas de criminalidade e, quando a Força Maya-Chortí entrou em operação em 2015, a onda de crimes diminuiu. Os integrantes do clã dos irmãos Valle Valle, uma organização poderosa do narcotráfico, foram extraditados dali para os Estados Unidos e com isso esse flagelo diminuiu.

Diálogo: Os cidadãos proporcionaram à FUSINA informações oportunas relativas à presença de pessoas suspeitas. Qual é a importância da participação cidadã no combate à criminalidade?

Gen Bda Ponce: A princípio nos custou fazer com que a sociedade se integrasse para que pudéssemos ter um fluxo de informações mais efetivo e, com isso, criar uma inteligência operacional que nos permitisse obter bons resultados. Hoje em dia há um compromisso maior da sociedade e conseguimos fomentar essa cultura da denúncia de atos ilícitos de pessoas, que algumas vezes são hondurenhas e outras são estrangeiras radicadas no país. As informações que a população nos forneceu até o momento foram fundamentais, o que nos permitiu obter resultados mais contundentes.

Diálogo: Como se criou essa cultura cidadã de denúncia?

Gen Bda Ponce: Entre outras atividades, as forças armadas e outras instituições publicaram boletins sobre a importância da segurança do cidadão. Obtivemos a confiança da população para reportar e por isso hoje existem outras entidades no governo, como por exemplo a Força Nacional Antiextorsão, que tem uma grande aceitação entre a população.

Diálogo: O treinamento de elite para as Forças Armadas de Honduras foi fundamental para o sucesso da Operação Morazán. Que tipo de cooperação internacional é realizada com as nações parceiras para treinar as forças armadas?

Gen Bda Ponce: Quero ressaltar a enorme cooperação que tivemos com o Comando Sul dos Estados Unidos, onde, especificamente através do Exército Sul, capacitamos nosso pessoal para tomar decisões e os suboficiais e soldados em operações urbanas, em esvaziamento de prédios, patrulhamento e postos de controle, entre outros. Temos também intercâmbios de adestramento com a Guatemala, a República Dominicana e a Nicarágua. Tudo isso nos deu um maior grau de confiança e graças a isto obtivemos resultados positivos.

Diálogo: Que tipo de cooperação existe entre as Forças Armadas de Honduras e a Força-Tarefa Conjunta Bravo (FTC-Bravo) do Comando Sur e qual a importância da mesma?

Gen Bda Ponce: Existe uma grande cooperação com a FTC-Bravo. Coordenamos operações de reconhecimento aéreo com suas aeronaves e eles nos apoiaram continuamente em missões aéreas médicas em diferentes pontos do país. A FTC-Bravo cumpre uma missão extremamente importante tanto para os Estados Unidos como para nós e o fundamental é ressaltar a amizade, a cordialidade e a coordenação. Estamos trabalhando com os mesmos objetivos, já que o hemisfério está ameaçado pelo narcotráfico, pelo tráfico de armas, pelo terrorismo, e é importante que ambos os países tenham forças equipadas e adestradas para dar uma resposta pronta e oportuna a qualquer problema que se possa apresentar.

Diálogo: Por que o senhor considera que a interoperacionalidade seja fundamental para o combate ao crime organizado?

Gen Bda Ponce: Chegamos à conclusão de que precisamos fazer esse esforço interagências. A interoperacionalidade é sumamente importante, visto que a segurança não é uma tarefa de uma instituição apenas. Sem interoperacionalidade é muito difícil combater os flagelos da segurança.


Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 27
Carregando conversa