Guiana está na mira das empresas chinesas

Um grande projeto de infraestrutura e vias de comunicações terrestres e marítimas na América Latina e no Caribe pode endividar a Guiana.
Julieta Pelcastre/Diálogo | 12 setembro 2019

Barcaças com casas para trabalhadores de mineração flutuam sobre uma mina de ouro no Rio Mazaruni, em Bartica, Guiana. Bartica é o ponto de partida para as pessoas que extraem ouro e diamantes nas regiões de selva. (Foto: Andrew Caballero-Reynolds, AFP)

Como parte de um ambicioso plano geopolítico, a China pretende construir uma estrada na Guiana para conectar a cidade de Lethem, na fronteira com o Brasil, com Linden, a 108 quilômetros da capital Georgetown. O plano prevê ainda um projeto portuário de águas profundas na costa norte para receber navios de grande porte.

Embora as autoridades estejam aguardando os resultados de um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento para iniciar a construção dos dois projetos, “existem planos para que a China forneça o capital necessário e realize os trabalhos de construção”, informa a revista digital Diálogo Chino na reportagem: China estende seu alcance até a Guiana.

A conexão pela estrada reduzirá os tempos de transporte para o Brasil, o maior parceiro comercial da China na região, ao proporcionar uma saída mais curta por mar até o Canal do Panamá. Dessa forma, as empresas chinesas se beneficiarão ao receberem matéria-prima rápida e barata. O plano estima que o projeto esteja pronto em outubro de 2019.

A Guiana é um dos países mais pobres da América do Sul; no entanto, abriga importantes depósitos de bauxita, ouro, dos 17 elementos denominados “terras raras”, utilizados para a fabricação de tecnologia de ponta, e “vastas reservas de petróleo descobertas recentemente, o que dentro de alguns anos poderia transformar o país no mais rico do hemisfério e potencialmente no país mais rico do mundo”, disse a agência de notícias BBC Mundo

O Cinturão e a Rota

Desde 2017, o Estado guianês trabalha em coordenação com o governo da China para ter acesso a um fundo especial de US$ 50 bilhões para construir os projetos, bem como a nova ponte do porto de Demerara, a modernização do Aeroporto Internacional Cheddi Jagan e o desenvolvimento da central hidrelétrica Amalia Falls, informou o jornal Guyana Chronicle. A cooperação entre os dois países vem crescendo de maneira constante; em julho de 2018, foi assinado o acordo de entendimento da Iniciativa do Cinturão e da Rota. 

Essa iniciativa é o plano de expansão da China, cujo nome oficial é “Cinturão Econômico da Rota da Seda e da Rota Marítima do Século XXI”.

“As nações do hemisfério ocidental que já assinaram o acordo do projeto chinês esperam obter mais investimentos em infraestrutura”, segundo uma publicação na revista digital britânica The Dialogue de Margaret Myers, diretora do programa Ásia e América Latina. A revista digital indica que desde 2002 empresas construtoras e bancos chineses vêm demonstrando interesse em participar de cerca de 150 projetos de infraestrutura de transporte na América Latina e no Caribe, e que quase a metade desses projetos já entraram em alguma fase de construção em 2018. 

“O objetivo final da China é conseguir um peso relevante em nível internacional e ampliar sua influência através da criação de uma dependência comercial e econômica de outros países”, disse à Diálogo Yadira Gálvez Salvador, especialista em defesa e segurança e professora da Universidade Nacional Autônoma do México. “Pequim não se importa com o tipo de governo com o qual está lidando; simplesmente mantém relações a partir de seus interesses geopolíticos, econômicos, militares e de inteligência.”

A China é a principal fonte de recursos financeiros para a Guiana e outros países latino-americanos, mas enfrenta fortes questionamentos em função das consequências sociais, ambientais e da construção de megaprojetos de infraestrutura sem planejamento adequado e com materiais de baixa qualidade, nas diversas comunidades onde atua.

“De acordo com nossa experiência recente com investimentos chineses, a Guiana sempre fica com a parte mais podre da fruta. Nas obras realizadas até o momento, já vimos invasão de projetos e denúncias de corrupção, pouca utilização da mão de obra local, e não existe transferência de habilidades”, declarou Abena Rockcliffe, jornalista sênior do jornal guianês Kaieteur News. “As autoridades daquele país não dão informações suficientes sobre os termos dos empréstimos e investimentos chineses.”

Os projetos de conectividade terrestre e marítima podem pôr em risco a Estratégia Estatal de Desenvolvimento Verde: Visão 2040, o plano nacional de desenvolvimento sustentável da Guiana, que busca preservar a riqueza natural do país, o gerenciamento sustentável dos recursos naturais e a transição para energias renováveis. Segundo a Organização das Nações Unidas, três quartos do país estão cobertos por florestas tropicais. Desenvolver projetos de alto impacto na selva guianesa deixaria “um rastro de florestas arrasadas”, garante o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais em sua página na internet.

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