Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Guatemala tem uma nova visão militar

Sistema de alto nível de defesa e gestão encaminha as Forças Armadas da Guatemala para um novo horizonte.
Geraldine Cook/Diálogo | 14 agosto 2017

O General-de-Brigada Juan Manuel Pérez Ramírez, chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da Guatemala, está focado em modernizar o Exército da Guatemala para combater as ameaças de segurança nacional. (Foto: Geraldine Cook/Diálogo)

O General-de-Brigada Juan Manuel Pérez Ramírez, chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da Guatemala, conta com uma longa trajetória castrense. Com mais de 30 anos de serviço e um treinamento militar consolidado, especialmente para apoiar as operações de paz e o combate ao terrorismo e ao crime organizado, o Gen Brig Pérez Ramírez está focado em modernizar o Exército da Guatemala para combater as ameaças de segurança nacional.

O Gen Brig Pérez Ramírez conversou com a Diálogo durante o encerramento do “Seminário Regional Centro-americano para Combater as Redes de Ameaças Transregionais e Transnacionais”, realizado de 20 a 22 de junho em Antígua, Guatemala. A cooperação dos países do Triângulo Norte, o trabalho interagencial, a questão de gênero e direitos humanos foram alguns dos assuntos que o alto chefe militar guatemalteco destacou.

Diálogo: O que significa para o senhor e para a Guatemala ser o anfitrião desse seminário que analisa o crime transnacional organizado?

General-de-Brigada Juan Manuel Pérez Ramírez, chefe do Estado-Maior da Defesa da Guatemala: É uma experiência extraordinária porque, como guatemalteco que sou e como oficial do Exército, é por meio desses seminários e conferências que se adquire uma quantidade de experiências e de lições aprendidas. Falar pessoalmente, frente a frente, com El Salvador, com Honduras, com o México e com as autoridades e os militares é uma experiência valiosa. Após esses eventos, nós nos reunimos e fazemos grupos de trabalho para poder revisar as estratégias e gerar novos mecanismos para podermos ser mais eficazes. Há mais atividades nas quais, como guatemaltecos, temos sido levados em consideração, e tudo isso comprova nossa efetividade. Temos muita vontade de trabalhar e de estar em harmonia com outras nações, como El Salvador e Honduras. A cooperação, a relação que temos com o México também é extraordinária e, então, tudo isso nos ajuda bastante e esse tipo de seminário nos permite fortalecer e consolidar essas relações.

Diálogo: General, o senhor assumiu o cargo em janeiro de 2016. Após mais de um ano e meio, quais foram os seus maiores desafios?

Gen Brig Pérez Ramírez: Encontramos oportunidades muito boas para as Forças Armadas. Hoje em dia, estamos trabalhando em um novo sistema de planejamento conhecido como Sistema Integrado de Planejamento e Gestão da Defesa (SIPLAGDE). Essa é a visão do Exército da Guatemala. A visão é realmente para um sistema de alto nível de gestão e, basicamente, coloca as Forças Armadas em novos rumos, com novas capacitações, com suas forças de terra, mar e ar fortalecidas para cumprir com sua missão constitucional. Isso é muito importante, porque nos ajuda a ter as capacidades para participar de nossa missão constitucional e, além disso, nos ajuda a interagir com outras instituições. Também nos ajuda e vai nos ajudar a trabalhar com outros países da região. Atualmente, conhecemos os fenômenos que afetam nossos países: o crime organizado, a atividade do narcotráfico etc. É necessário que unamos esforços, unamos estratégias para poder combater essas atividades criminosas.

Diálogo: Como chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional, qual é o seu principal desafio?

Gen Brig Pérez Ramírez: O desafio é poder contribuir e avançar no SIPLAGDE. Esse é um sistema apoiado pelos Estados Unidos. Nossa equipe vem trabalhando há aproximadamente cinco anos e, durante o último ano e meio, avançamos de forma significativa. Temos muitas expectativas para poder contar com nossas Forças Armadas que estejam em um nível tal que possam cumprir com seu mandato constitucional e possam se estender por até cinco áreas de missão.

Estas áreas de missão são as que definem o SIPLAGDE. A primeira é a proteção das fronteiras nacionais e a defesa contra as ameaças transnacionais. A segunda tem a ver com a contribuição ao desenvolvimento nacional e à proteção da infraestrutura crítica. Atualmente se trabalha em projetos estratégicos nesta área de tal maneira que a ação integral interinstitucional possa ser efetiva em zonas geográficas onde não houve presença do Estado para assim complementar as estratégias de segurança de forma integral. A área de missão três tem a ver com o apoio institucional no âmbito da segurança interna. A quarta tem a ver com a cooperação dentro do âmbito de gestão de riscos, da defesa civil e do Sistema de Ajuda em Desastres Naturais. E a área de missão cinco tem a ver com as ações proativas em apoio à política externa do Estado da Guatemala.

Diálogo: Fale-nos dos esforços de cooperação que os países do Triângulo Norte estão realizando para combater as atividades do crime organizado.

Gen Brig Pérez Ramírez: Neste momento, está funcionando um plano que se chama Plano Fortaleza. Historicamente, a porosidade das fronteiras aumentava e diminuía e não passava nada. Esse plano posicionou as forças de segurança integradas nessa porosidade. Temos compartilhado essa experiência com El Salvador e também com Honduras, porque afinal são os mesmos fenômenos, é a mesma fronteira. Essa estratégia de segurança foi muito bem-sucedida e queremos replicá-la. Queremos replicar esse mesmo plano de segurança de fronteiras com o México. Há uma intenção de querer replicar isso juntamente com os outros ministérios e poder ser fortes na fronteira. Definitivamente, se conseguirmos isso, vamos poder ter fronteiras mais seguras, vamos ter melhor controle dos ilícitos que atravessam por esses lugares e, efetivamente, poder ter melhores condições de segurança e de prosperidade na região.

Diálogo: Qual é a importância da cooperação entre as nações parceiras para combater os problemas de segurança?

Gen Brig Pérez Ramírez: Acabo de participar de reuniões em Cozumel, México, no mês de maio, em Salvador, na Bahia, Brasil, e outras em Houston, Texas, porque definitivamente continuamos analisando as estratégias de segurança. Quero ressaltar o apoio dos Estados Unidos por seu apoio a esse tipo de atividades para que possamos desenvolver as discussões e as mesas de trabalho, já que isso nos traz um resultado muito importante, porque ao compartilhá-lo com outras instituições, podemos ser mais eficazes na hora de desenvolver as estratégias de segurança. Estamos absolutamente seguros e conscientes de que se tivermos a segurança como uma prioridade, posteriormente virá a prosperidade.

Diálogo: As Forças Armadas da Guatemala vêm fazendo avanços no tema de gênero. Quais foram os resultados obtidos?

Gen Brig Pérez Ramírez: Hoje em dia, vemos mulheres trabalhando em unidades especiais; por exemplo, na Brigada de Forças Especiais Kaibil, duas mulheres estão trabalhando na brigada de paraquedistas. As mulheres já tinham participado anteriormente, mas atualmente já é com um enfoque e um suporte desde a chefia do Estado-Maior do Exército. E, assim, vamos ampliando essa participação. Já temos uma mulher em um posto importante na unidade humanitária de resgate. Sabemos o valor, as qualidades e as capacidades que as mulheres possuem. É importante ressaltar que durante o mês de julho será realizada a conferência “Mulheres na profissão militar e segurança 2017”, que contará com a participação de 18 países e o apoio do Comando Sul dos EUA. O seu comandante, Almirante [da Marinha dos EUA] Kurt W. Tidd, nos acompanhará.

Diálogo: Que avanços as Forças Armadas da Guatemala obtiveram no tema dos direitos humanos?

Gen Brig Pérez Ramírez: Lembro-me que tive uma capacitação no Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança, em Fort Benning, e como parte desse treinamento houve um curso que se chamava “Instrutor de instrutores em direitos humanos”. Nessa época, eu tinha a patente de major e, desde então, tive como base a prática e a difusão dos direitos humanos dentro das fileiras do Exército. Como chefe das Forças Armadas, atualmente, os direitos humanos são uma guia transversal para nós. Os direitos humanos e seu respeito estão presentes nos centros de educação e nos centros cívico-militares que temos na Escola Politécnica. Sabemos que as sociedades democráticas estão cada dia mais fortes no que se refere ao respeito aos direitos humanos. Como Forças Armadas, não somos a exceção. Nos centros de educação, nas brigadas militares, nos lugares onde se encontram tropas, sempre está presente o tema da educação nesse campo de direitos humanos.

Diálogo: O Exército da Guatemala e a Polícia Nacional Civil vêm trabalhando juntos para a proteção da cidadania. Esse tipo de relacionamento continuará no futuro?

Gen Brig Pérez Ramírez: Desde o ano passado, devido a uma ordem presidencial, vimos trabalhando para reduzir nossa participação na segurança dos cidadãos, usando segurança militar como apoio à Polícia Nacional Civil. Atualmente, já vamos para a segunda fase. No final deste ano, terminará o apoio à segurança dos cidadãos, o apoio de soldados aos policiais. Para nós, é algo muito importante, porque vamos ter mais recursos para utilizar nessas cinco áreas de missão mencionadas anteriormente. É algo muito importante, que foi decidido no Conselho de Segurança. Vemos e notamos que, atualmente, a Polícia Nacional Civil tomou e recuperou capacidades históricas e isso para nós é muito alentador, já que cada instituição desempenha o papel que lhe cabe.

Diálogo: General, o senhor gostaria de acrescentar algo sobre a importância de trabalhar em equipe entre países para combater o crime internacional?

Gen Brig Pérez Ramírez: Sim. Os criminosos têm redes ilegais e, com tais redes ilegais, não possuem fronteiras nem limites. Nós temos redes legais no Estado. Esse tipo de conferência, esse tipo de reunião nos ajuda a fortalecer nossas redes legais para combater as redes ilegais. Na medida em que continuemos a nos reunir mais, continuemos compartilhando estratégias, vamos ficar mais fortes, teremos mais confiança entre nós e poderemos combater as ameaças de maneira mais eficaz.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 53
Carregando conversa