Guaidó: ‘As Forças Armadas são essenciais para a estabilidade do país’

Diálogo conversa com o presidente interino da Venezuela Juan Guaidó.
Diálogo | 31 maio 2019

O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, lançou no dia 30 de abril de 2019 a Operação Liberdade, com o objetivo de mobilizar a população e conseguir o apoio das Forças Armadas. (Foto: Pedro Mattey, AFP)

Caracas – Em uma entrevista concedida a el Nuevo Herald e Diálogo – publicada inicialmente em el Nuevo Herald – o presidente interino da Venezuela Juan Guaidó aborda a conclusão sem acordo do diálogo na Noruega, o papel dos militares na reconstrução do país e a interferência cubana, entre outros temas.

Diálogo: Como o senhor descreveria o que ocorreu na Noruega?

Presidente interino da Venezuela Juan Guaidó: Como mais uma iniciativa. Estamos enfrentando uma ditadura que há anos vem demonstrando utilizar todo tipo de iniciativas para adiar, para ganhar tempo, para confundir a opinião pública e para fazer com que pareçamos fracos. Nesse caso não funcionou assim.

A Venezuela não tem tempo, as crianças do [hospital pediátrico] J.M. de Los Ríos [em Caracas] não têm tempo, aquele que não tem comida em Maracaibo não tem tempo; estamos atravessando a pior emergência humanitária da história desse continente. E ela foi criada por fatores humanos; foram políticas ruins, corrupção e incompetência. A agenda é muito clara: fim da usurpação, processo de transição e eleições livres.

O exemplo mais próximo [ao diálogo na Noruega] seria comparar o governo de [Nicolás] Maduro com as FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], se quisermos comparar com algum processo a mediação de um país como a Noruega; 90 por cento da população [da Venezuela] está querendo mudanças e está sendo sequestrada por um pequeno grupo no poder. Como vejo a Noruega? Como mais uma iniciativa. Não amo os meios, amo a Venezuela. Nós não vamos confundir os meios com os objetivos; a Noruega ia ser um meio para facilitar o objetivo.

Diálogo: No dia 3 de junho, o Grupo de Contato Internacional da União Europeia na Venezuela se reunirá com o Grupo de Lima. O que o senhor espera desse processo?

Guaidó: O que eu gostaria? O que eu teria esperado da Noruega: o fim da usurpação, governo de transição e eleições livres. Mas nós, venezuelanos, aprendemos que não há soluções mágicas. Estaríamos reunindo os esforços da Europa e da América Latina, entendendo que a crise se acelera.

Diálogo: A crise está se acelerando?

Guaidó: Seis crianças morreram no principal hospital pediátrico [J.M. de Los Ríos] da Venezuela em uma semana. Não há eletricidade em Maracaibo, hoje [29 de maio], agora, enquanto estamos falando. Estamos à beira de uma catástrofe.

Diálogo: A Assembleia Nacional aprovou a reentrada no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca ou TIAR. O que o senhor acha disso?

Guaidó: O sistema interamericano é fundamental para nós. O diálogo com os países do mundo e o reconhecimento da OEA [Organização dos Estados Americanos] é fundamental. É importante em função da emergência humanitária que vivemos.

Diálogo: Que papel os militares que estão na Colômbia e no Brasil desempenharão no fim da usurpação?

Guaidó: Estão dando mais visibilidade para a crise, para o descontentamento existente nas Forças Armadas, pressionando o regime, seus irmãos, seus colegas de arma, que devem fazer o correto, que devem estar do lado da Constituição. Eles terão um papel na reconstrução da Venezuela; eles manterão suas patentes e seus cargos de acordo com a lei da anistia. Meus dois avós eram militares. E terão um papel central no exercício da soberania. O ELN [Exército de Libertação Nacional] está na fronteira venezuelana e existem 11 estados com presença dos paramilitares e guerrilheiros. Para a estabilidade do país, a Força Armada é fundamental.

Diálogo: Qual é o papel do ELN na crise da Venezuela?

Guaidó: Não sei qual é sua participação política especificamente, mas parece que o governo de Maduro permite sua participação na Venezuela; parece que há uma cumplicidade explícita. Isso é muito grave, pois faria de Maduro um ditador patrocinador do terrorismo. A inteligência da Colômbia já disse que o ataque à academia de polícia em Bogotá tinha sido praticado por um membro do ELN que já estava na Venezuela há muito tempo.

Diálogo: O senhor poderia falar sobre a interferência por parte de Cuba ou outros países nos assuntos internos da Venezuela?

Guaidó: Principalmente por parte de Cuba – eu não vejo outros países com tanta intensidade –; vejo Cuba, Cuba sim tem [interferência], claramente. Participa da tomada de decisões, é o elo mais próximo de segurança; Maduro confia tão pouco nas Forças Armadas, que seu elo de segurança mais próximo é o cubano. É assim. Os militares que ficaram do lado da Constituição contaram como o elo de segurança mais próximo a Maduro é o cubano. Cuba dirige a inteligência e a contra inteligência para aterrorizar e intimidar, e parte das torturas aos militares venezuelanos está sendo praticada por funcionários cubanos, o que incomoda muito as Forças Armadas. É muito grave a interferência, a intervenção de Cuba na Venezuela.

Diálogo: Após a saída do General de Exército Cristopher Figuera, como fica o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional [SEBIN] e como está o aparato de inteligência e segurança de Maduro atualmente?

Guaidó: Imagine que em outro país, nos Estados Unidos ou na Colômbia, o chefe da inteligência se declare contra o atual presidente. E não apenas isso, o assessor de Cristopher foi assassinado, denunciado pelo mesmo Gen Ex Cristopher. Imagine que o chefe de inteligência de um país X acuse o presidente de haver assassinado seu assistente por uma retaliação política. Imagine como isso é grave, tanto que [Maduro] teve que chamar de volta um general que havia destituído por não confiar nele [Gustavo González, ex-chefe do SEBIN, destituído após a morte em custódia do vereador Fernando Albán, foi chamado de volta ao cargo no início de maio]. Assim sendo, quão grave é a situação [do SEBIN]? Muito grave.

Diálogo: Depois da Noruega, como está a relação com os Estados Unidos, com o restante da comunidade internacional?

Guaidó: Muito positiva e produtiva, face à interrupção da usurpação. Acabo de falar com o vice-presidente [dos EUA] Mike Pence, que está muito preocupado com a crise humanitária, e falamos por vários minutos. Estão preocupados também com a perseguição contra 15 deputados que tiveram a imunidade suprimida, que são perseguidos e sequestrados, como Édgar Zambrano, primeiro vice-presidente do parlamento.

Diálogo: Isso não termina, o governo continua se mobilizando contra a Assembleia...

Guaidó: O regime vem atuando desde 2015 para enfraquecer um poder e só o regime foi enfraquecido. Apesar de atingir operacionalmente, tentando difundir o medo, desde que iniciou o ataque ao parlamento, o regime é minoria, menos gente os reconhece no mundo, contam com menos empréstimos, há sanções. Eles deram golpes muito duros extrajudicialmente, mas não têm respaldo judicial.

Diálogo: O que o vice-presidente Pence lhe disse quando o senhor lhe falou que a Noruega não deu frutos?

Guaidó: A comunidade internacional não acredita mais nesse regime. Alguns poucos que ainda têm boa fé insistem em mediar, mas nós estamos muito alinhados com nossos aliados dos Estados Unidos e o Grupo de Lima. Muitos fatores nos levaram a esse ponto. É preciso continuar com a Operação Liberdade nas ruas e com as Forças Armadas, agitando consciências e espíritos.

Diálogo: A situação [do hospital] J.M. [de Los Ríos] foi devastadora...

Guaidó: Isso ocorre todos os dias nos [estados de] Portuguesa e Táchira. Essas pequenas criaturas colocam uma face na tragédia que estamos vivendo na Venezuela. Esse é o rosto de 7 milhões de venezuelanos hoje.

Diálogo: O Canadá se aproximou de Cuba em relação à crise venezuelana...

Guaidó: Sim, falei com o primeiro-ministro Justin Trudeau há duas semanas. Não que estejamos acreditando na boa fé do regime cubano, que ajudou a criar essa situação e que faz parte do aparato de inteligência e contra inteligência. Mas, novamente, esgotaremos todos os esforços. Temos o respaldo internacional.

Diálogo: A produção petrolífera continuará caindo com o regime, e o que se pode fazer para recuperá-la?

Guaidó: Lamentavelmente, a produção continuará caindo, primeiro porque são uns incapazes e depois porque hipotecaram a estatal petrolífera sem precedentes. Eles a hipotecaram. Endividaram a Citgo, os interesses de nossos netos. Quando a Venezuela mudar, o que não vai demorar a acontecer, o potencial econômico do país é muito alto, não apenas pelas reservas petrolíferas, mas também pela localização geográfica e pela mão-de-obra. A recuperação será muito, muito rápida. Com a mudança política, a mudança nos indicadores será muito rápida. Tenho a certeza de que muitos terão desejo de interferir em um país estável.

Diálogo: Como se pode combater a influência de Cuba na inteligência?

Guaidó: Como vimos fazendo. A rede de inteligência encolheu de certo modo ao cortar o fornecimento de petróleo a Cuba, com o respaldo de nossos aliados, deixando tais redes sem financiamento. Através dessas ações, essa rede está mais enfraquecida do que há um ano. Por exemplo, quando havia a presença de médicos cubanos, o que não é mais o caso devido à crise, havia uma rede de inteligência também. Esse continua a ser um fator de medo, porém está mais enfraquecido.

Diálogo: Como seria uma intervenção militar na Venezuela?

Guaidó: Não poderíamos falar de intervenção militar no caso da Venezuela, caso solicitássemos cooperação. O parlamento é o único que poderia autorizar missões militares estrangeiras em território nacional, que já existem com os cubanos e o ELN e com os aviões militares russos. Essas intervenções, sim, são ilegais e ilegítimas e isso deveria ser um escândalo. Mas, a melhor solução é aquela de menor custo social. A melhor solução é que Maduro se afaste hoje, mas isso não ocorrerá voluntariamente. Vamos novamente para as ruas [...]. Estamos decidindo o destino que visitaremos.

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