Grupos peruanos do crime organizado exploram menores em extração ilegal de ouro

Crianças e adolescentes também sofrem abuso sexual por parte de seus captores, diz estudo recente.
Julieta Pelcastre | 24 fevereiro 2014

Os grupos do crime organizado no Peru estão forçando crianças e adolescentes a trabalhar na mineração ilegal de ouro, de acordo com autoridades e defensores dos direitos humanos.

Muitas dessas crianças e adolescentes também são abusadas sexualmente por seus captores, de acordo com o estudo “Indicadores de Análise de Risco de Trabalho Forçado e Tráfico na Mineração Ilegal de Ouro no Peru”, divulgado pelo Verité, grupo de direitos humanos sediado nos Estados Unidos.

O Cartel de Sinaloa, o Los Urabeños e o Los Rastojos estão entre os grupos do crime organizado que realizam extração ilegal de ouro. Esses grupos são organizações internacionais de tráfico de drogas e outras atividades criminosas.

Os grupos do crime organizado estão se aproveitando de um dos recursos naturais mais valiosos do Peru.

O Peru é o maior produtor de ouro da América Latina e o sexto maior do mundo. Mineradores honestos enfrentaram a competição de grupos violentos do crime organizado nos últimos anos. Esses grupos empregam 100.000 pessoas diretamente em extração ilegal de ouro e outras 400.000 indiretamente, de acordo com o relatório do Verité. Cerca de 50.000 crianças e adolescentes trabalhavam na mineração ilegal de ouro em 2010, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

As atividades ilegais do crime organizado produzem entre 15% a 22% do ouro do país, o equivalente a US$ 3 bilhões todos os anos, aponta o relatório. Desde 2008, a produção de ouro extraído ilegalmente aumentou cinco vezes no Peru, de acordo com estudos divulgados.

Abusos contra os direitos humanos

O ingresso dos grupos do crime organizado no negócio de extração de ouro levou ao “trabalho infantil forçado, à perda de vidas humanas, ao tráfico de pessoas e à exploração sexual”, segundo o relatório.

“O problema é alarmante. Clãs familiares e gangues criminosas acumularam grandes fortunas ao obter ouro com o suor e lágrimas de crianças e adolescentes”, diz Oscar Guadalupe Zevallos, diretor da Associação Huarayo, organização localizada no departamento de Madre de Dios. O grupo oferece abrigo a crianças e adultos que foram obrigados a trabalhar para organizações criminosas, mas conseguiram fugir.

Os grupos do crime organizado que escravizam crianças e adolescentes controlam a maior parte dos garimpos de ouro nos departamentos de Madre de Dios, Cusco, Puno e Arequipa, de acordo com o estudo.

No total, esses grupos praticavam a extração ilegal de ouro em 21 das 25 regiões do país em 2013, informa o relatório.

Tentativa de escapar da pobreza

Algumas crianças, adolescentes e adultos começam a trabalhar para o garimpo ilegal de ouro voluntariamente, na esperança de escapar da pobreza.

Os membros do crime organizado exigem que esses trabalhadores assinem um contrato, comprometendo-se a trabalhar por 90 dias sem remuneração, supostamente para pagar os custos das “taxas de recrutamento” e despesas da viagem.

Mas, assim que entram no campo de mineração, os trabalhadores, jovens e idosos, não têm permissão para sair e não são pagos mesmo após 90 dias.

Alguns adolescentes eram forçados a trabalhar por seis anos em troca de comida e lugar para dormir, mas nunca haviam recebido pagamento, segundo o relatório do Veritá. Membros do crime organizado mataram alguns adolescentes que se tornaram adultos e exigiram pagamento.

Os grupos do crime organizado recrutam crianças, adolescentes e adultos para trabalharem em uma série de trabalhos diferentes nas minas de ouro. Alguns dos trabalhadores cortam árvores com facões, outros cavam com pás e removem pedras e terra, e alguns operam bombas de água utilizadas para separar as partículas de ouro.

O trabalho é perigoso e prejudicial à saúde. Os trabalhadores frequentemente contraem doenças tropicais, como a malária, após serem picados por mosquitos. Alguns se ferem em acidentes.

Exploração sexual

Nem todos os trabalhadores são explorados nas minas de ouro. Os grupos do crime organizado forçam milhares de meninas, adolescentes e mulheres jovens a trabalhar como prostitutas nas regiões de mineração. A maior parte dessa atividade ocorre no departamento de Madre de Dios.

Segundo Zevallos, os membros do crime organizado enganam adolescentes e jovens prometendo-lhes empregos como garçonetes, cozinheiras ou babás. Em vez disso, elas são forçadas a trabalhar em bares “atendendo mineiros em busca de sexo”.

Existem cerca de 150 bares em Madre de Dios, que ficam abertos 24 horas por dia. As jovens de comunidades andinas de camponeses são forçadas a trabalhar em alguns desses locais, enquanto as provenientes das cidades são destinadas a outros.

Em 2010, havia cerca de 2.000 meninas, adolescentes e mulheres atuando como prostitutas em 100 bares, de acordo com a Associação Huarayo. Cerca de 60% delas eram menores de idade, estima a associação.

De acordo com Zevallos, os grupos do crime organizado usam violência para impor suas práticas ilegais de extração de ouro. Por exemplo, em 2014, um grupo de atiradores matou a tiros o proprietário de um bar em Puerto Maldonado. O assassinato estaria ligado à disputa envolvendo uma atividade de mineração ilegal.

A polícia peruana conseguiu resgatar algumas meninas da exploração sexual em Madre de Dios, informa Zevallos.

É essencial que as forças de segurança e a sociedade civil trabalhem juntas no combate ao crime organizado, ressalta Zevallos. A partir de informações fornecidas por pessoas que escaparam das atividades de extração de ouro, as forças de segurança conseguiram identificar e destruir dezenas de garimpos ilegais nos últimos anos.

Equipes especiais de policiais e promotores para combater o garimpo ilegal

Em fevereiro de 2014, autoridades peruanas destacaram equipes especiais de policiais e promotores públicos para os aeroportos de Lima, Cusco, Juliaca e Madre de Dios, para frear as exportação ilegal de ouro.

Em 25 de janeiro de 2014, 900 membros da Polícia Nacional do Peru, apoiados por dois helicópteros e 18 promotores, retiraram mais de mil trabalhadores de um garimpo ilegal na região de Tambopata. As forças de segurança destruíram oito bombas de água e permanecem na área para evitar que os mineradores retornem.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 24
Carregando conversa