Oficial da Marinha do Brasil é pioneira no escritório da ONU em Nova York

A Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto está na função de oficial do Serviço de Operações Militares Correntes da Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei.
Taciana Moury/Diálogo | 9 maio 2018

Capacitação e Desenvolvimento

A Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto é a primeira militar brasileira a assumir uma função no Departamento de Operações de Manutenção da Paz da ONU, em Nova York. (Foto: Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto, arquivo pessoal)

As mulheres deram mais uma demonstração de pioneirismo na Marinha do Brasil. Pela primeira vez, uma oficial assumiu uma função no Departamento de Operações de Manutenção da Paz da ONU (DOMP), em Nova York. A Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto serve como oficial do Serviço de Operações Militares Correntes (CMOS, em inglês) da Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (UNISFA, em inglês), región disputada entre Sudán y Sudán del Sur. Ela é a responsável por fazer a ligação entre a UNISFA, o Escritório de Assuntos Militares e o país contribuinte de tropas, que no caso da oficial brasileira, é a Etiópia.

A CF Carla Daniel, durante o curso de Desenvolvimento de Comando de Oficiais de Polícia Femininas Graduadas da ONU, em 2015, na África do Sul. (Foto: Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto, arquivo pessoal)

 

A UNISFA foi estabelecida pela ONU em 27 de junho de 2011, através da Resolução do Conselho de Segurança 1990. O principal foco da missão é o de promover o diálogo entre as partes na região e, sobretudo, prover a segurança de Abyei, garantindo a proteção de civis e facilitando o fornecimento de ajuda humanitária. Além disso, os militares têm a missão de monitorar a desmilitarização da região. 

 

De acordo com informações da ONU, a missão conta com um total de 4.841 profissionais responsáveis pela segurança no local, dos quais são 4.791 militares e 50 agentes de polícia, além do apoio de instituições civis. Desde 2011 a presença da UNISFA tem melhorado sobremaneira o relacionamento bem como a qualidade de vida da população de Abyei, composta prioritariamente pelas tribos rivais Mysseria e Ngok Dinka, segundo a CF Carla Daniel.

 

A CF Carla Daniel iniciou a função no DOMP em dezembro de 2017 e vai permanecer por dois anos em missão no país, sob o regime de requisição temporária. Ela está lotada no CMOS, que, na hierarquia da ONU, está diretamente subordinado ao Escritório de Assuntos Militares. “As atividades vão desde o monitoramento diário das ações militares da missão, com a preparação do relatório da situação diária, direcionado à liderança militar do DOMP, até o assessoramento e conselho para a liderança militar em Nova York sobre aspectos operacionais da UNISFA”, explicou.

 

Para participar da missão, a oficial teve que preencher alguns requisitos: estar na graduação de tenente-coronel/capitão-de-fragata, ter formação em um curso superior na área de ciências humanas, ter fluência no inglês e conhecimento de outros idiomas, ter participado de alguma missão de paz e ter feito todos os cursos de carreira. “Sou formada em Comunicação Social, bacharel em jornalismo e atuei na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL)”, disse a CF Carla Daniel. “Os militares selecionados ainda são submetidos a uma prova escrita em inglês sobre os assuntos da ONU. Quem passar nessa fase faz uma prova oral em inglês baseada em competência e nos valores primordiais da instituição.”

 

Segundo ela, é um orgulho ser a primeira militar brasileira do gênero feminino a ocupar um cargo no DOMP, mas também exige muita reponsabilidade. “O pioneirismo em qualquer atividade já é algo que atrai um pouco mais de atenção dos outros em relação ao seu desempenho. Além disso, se a experiência comigo não der certo, posso fechar a porta para outras mulheres ou pelo menos retardar o processo”, ressaltou a CF Carla Daniel.

 

A CF Carla Daniel ingressou na Marinha do Brasil em 1998 como guarda-marinha. Nas suas funções, atuou principalmente na área de comunicação social. Foi ajudante de relações públicas no Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, e no Comando do 2º Distrito Naval, em Salvador, Bahia. Em Brasília, trabalhou no Serviço de Comunicação Social da Marinha e no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Foi para o Líbano em 2014, onde atuou na Força-Tarefa Marítima (FTM) da UNIFIL. Quando retornou ao Brasil, em 2015, ficou responsável pela Assessoria de Comunicação Social do Comando do 1º Distrito Naval, no Rio de Janeiro.

 

As experiências vivenciadas durante a missão na Força Interina das Nações Unidas no Líbano ajudam a oficial da Marinha do Brasil nas atividades realizadas no DOMP. (Foto: Capitão-de-Fragata da Marinha do Brasil Carla Cristina Daniel Bastos Peixoto, arquivo pessoal)

Pioneira no Líbano

 

O pioneirismo tem acompanhado a trajetória da oficial. Em 2014, a CF Carla Daniel foi a primeira mulher a atuar embarcada na FTM da UNIFIL, na função de assistente militar do comandante da força, um almirante brasileiro. Na ocasião, era encarregada do pessoal da FTM e atuava como oficial de coordenação civil-militar das atividades em prol da população local.

 

“Foi uma experiência inesquecível. A importância da FTM para a segurança da costa libanesa e, consequentemente, sua estabilidade econômica, é reconhecida por todos. Nunca senti tanto prazer em mostrar que era brasileira. Sou descendente de libaneses e isso fez uma diferença incrível para a comunidade líbano-brasileira do sexo feminino, com as quais tive contato. Sempre me emociono quando lembro”, contou a CF Carla Daniel.

 

Para a oficial, foi um dos períodos mais ricos em experiência profissional e pessoal. “Sinto-me honrada de ser uma mulher militar, capacete azul, e mais ainda de sustentar no meu braço a bandeira do Brasil. Cansei de ser parada nas ruas, [no] aeroporto, [na] lanchonete e ouvir: ‘Obrigada Brasil!’. Tenho uma coleção de fotos e de lembranças que estão bem guardadas no meu coração”, destacou.

 

A CF Carla Daniel explicou que o trabalho realizado no Líbano auxilia na sua função atual no DOMP, já que o conhecimento em missões de paz também engloba a prática, além da teoria. “Quando tenho que pedir uma informação ou dar uma orientação, sei do que se trata”, enfatizou. O fato de ter feito o curso de Desenvolvimento de Comando de Oficiais Militares Femininas Graduadas da ONU, em 2015, na África do Sul, também foi condição decisiva para sua capacitação.

 

Importância das mulheres em missões de paz

 

A CF Carla Daniel destacou a necessidade do aumento da presença feminina nas áreas de conflito e missões de paz. Para ela, a violência contra a mulher virou ‘arma de guerra’, pois desestabiliza a comunidade onde ela está inserida e mexe com a sua honra. “Certa vez ouvi um ex-comandante de força de uma missão de paz dizer que é mais perigoso ser uma mulher do que ser um soldado em uma região de conflito. Daí a importância da mulher militar nos conflitos, para dar suporte, acolher, servir de sustentáculo para esse seguimento tão sofrido”, enfatizou a CF Carla Daniel.

 

Ela avaliou que a ONU tem feito esforços para estimular a atuação feminina nas missões, mas que o avanço não é mais rápido porque a carreira militar exige preparo e um tempo de permanência em cada posto ou graduação para a função que será exercida. Por exemplo, o curso de Desenvolvimento de Comando de Oficiais Militares Femininas Graduadas, que é voltado especificamente para as oficiais superiores das polícias militares, acontecerá no Brasil, de 10 a 16 de julho, na cidade de Belém, Pará, e deve contar com representantes dos países latino-americanos e caribenhos.

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