‘El Chapo’ conspira com máfias chinesas para produzir drogas sintéticas na América Latina

Cartel de Sinaloa está obtendo precursores químicos de 14K e Sun Yee On, duas tríades chinesas – grupos do crime organizado – sediadas em Hong Kong.
Julieta Pelcastre | 19 fevereiro 2014

O Cartel de Sinaloa firmou alianças com duas máfias estabelecidas em Hong Kong para adquirir precursores químicos utilizados para produzir drogas sintéticas com alto poder de dependência, segundo as autoridades. A organização criminosa está obtendo os precursores químicos da 14K e da Sun Yee On, duas tríades chinesas – grupos do crime organizado – sediadas em Hong Kong, de acordo com reportagem recente do jornal South China Morning Post.

De acordo com as autoridades, o cartel – liderado pelo chefão das drogas foragido Joaquín “El Chapo” Guzmán – usa os produtos químicos para fabricar metanfetaminas na Guatemala e em El Salvador. Membros do Cartel de Sinaloa, incluindo gangues locais, recebem os precursores químicos em portos na Guatemala e Honduras, depois os transportam por via terrestre em picapes até laboratórios clandestinos.

Assim que as drogas sintéticas são processadas, membros do Cartel de Sinaloa as transportam para mercados ilegais nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa, na África e no México. Por meio de alianças com gangues locais, o cartel também vende drogas sintéticas na Guatemala, na Argentina e em El Salvador.

Vínculos com ‘El Chapo’

Agentes policiais das Filipinas e da China recentemente descobriram provas que confirmam a aliança entre El Chapo e as máfias de Hong Kong.

Em 27 de dezembro de 2013, policiais filipinos, em parceria com forças de segurança dos EUA, capturaram três suspeitos perto de Manila. Segundo as autoridades, os três suspeitos têm ligações com o Cartel de Sinaloa. Eles estavam preparando e armazenando metanfetamina em um laboratório localizado em uma fazenda ao sul de Manila.

As forças de segurança apreenderam 84 kg de metanfetamina. Os precursores químicos utilizados para produzir as drogas sintéticas eram fornecidos pela 14K e pela Sun Yee On.

Segundo Bartolome Tobia, chefe da força policial antidrogas das Filipinas, a operação de segurança confirmou que El Chapo estava trabalhando com as máfias chinesas. “Os mexicanos, que já estão aqui, estão recebendo ajuda de organizações criminosas chinesas ligadas ao tráfico de drogas”, disse.

Segundo as autoridades, uma semana após as prisões realizadas nas Filipinas, em 4 de janeiro de 2014, mais de 2.500 policiais chineses apreenderam mais de 3 toneladas de metanfetamina na cidade de Guangdong Lugeng. As autoridades chinesas também prenderam 182 suspeitos. As drogas sintéticas pertenciam a um dos grupos do crime organizado chinês que trabalha para El Chapo.

Alianças fatais

As alianças entre o Cartel de Sinaloa e os dois grupos do crime organizado chinês são “fatais”, diz Jorge Chabat, analista de segurança do Centro de Pesquisa e Docência Econômica (CIDE), na Cidade do México.

Chabat afirma que o Cartel de Sinaloa é a maior e mais violenta organização criminosa transnacional do mundo. As duas máfias chinesas são grandes produtoras de precursores químicos e metanfetaminas. As novas alianças ajudarão as forças de El Chapo a produzir e transportar um constante suprimento de drogas sintéticas, ressalta o analista de segurança.

“O Cartel de Sinaloa obterá precursores em grandes quantidades, reduzirá custos e continuará a se internacionalizar”, diz Chabat. “O mercado dos EUA para drogas sintéticas é atraente para ‘El Chapo’ e para as tríades chinesas.”

Tríades são organizações criminosas chinesas sediadas em Hong Kong, em Taiwan e na China continental.

A tríade 14K tem cerca de 25.000 membros. A outra tríade com a qual El Chapo está associado, Sun Yee On, soma mais de 50.000 integrantes.

El Chapo está usando substâncias como etil fenil acetato e fenil acetato de isobutila para tentar criar uma nova droga sintética, de acordo com a mídia.

Um histórico de venda de drogas sintéticas

O Cartel de Sinaloa vende metanfetamina desde os anos 90.

Do início à metade da década de 90, Ignacio “El Nacho” Coronel, na época um braço direito de El Chapo, “viu claramente” o grande potencial do mercado emergente de metanfetamina”, de acordo com o Atlas 2012 de Segurança e Defesa do México, publicado pela organização Coletivo de Análise da Segurança com Democracia (CASEDE), sediada na Cidade do México.

El Nacho, que também ficou conhecido como “El Rey del Cristal”, era responsável pela produção e pelo tráfico de metanfetamina para El Chapo. Ele desenvolveu um sistema para transportar grandes quantidades de efedrina, utilizada para fazer metanfetamina, da Ásia para o México, onde os membros do cartel processavam as drogas sintéticas.

El Nacho morreu em um tiroteio com soldados do Exército Mexicano em Zapopan, Jalisco, em julho de 2010.

Um mercado crescente

Nos últimos anos, o mercado para drogas sintéticas do grupo das anfetaminas cresceu. Autoridades nos EUA e outros países onde as drogas são vendidas informaram níveis recordes de apreensões e uso de drogas sintéticas.

As autoridades estimam que cerca de 80% da metanfetamina consumida nos EUA a cada ano é preparada com precursores químicos provenientes da China.

Argentina, El Salvador, Guatemala, México e Estados Unidos estão entre os países com o maior número de laboratórios de processamento de drogas, segundo autoridades.

As drogas sintéticas podem ser ingeridas, injetadas, fumadas ou inaladas e são conhecidas por nomes populares como “cristal”, “vidro”, “cocaína dos pobres”, “yaba”, “gelo” ou “meth”. Essas drogas têm alto poder de dependência e causam distúrbios mentais como esquizofrenia, paranoia e comportamento agressivo.

Os governos do México e dos Estados Unidos têm um rígido controle da venda de precursores químicos. Esses controles levaram o Cartel de Sinaloa e outros grupos do narcotráfico latino-americanos a fazer alianças com grupos asiáticos do crime organizado, de acordo com Chabat. A regulamentação relativamente fraca da indústria química chinesa permite aos narcotraficantes locais e internacionais terem fácil acesso a substâncias psicoativas em grandes quantidades, acrescenta o analista.

Segundo a Organização das Nações Unidas, Hong Kong não emite certificados que garantam que os compradores dos precursores sejam os verdadeiros destinatários.

Fronteiras irrelevantes para ‘El Chapo’ e tríades chinesas

O crime organizado é um fenômeno transnacional e global, e não existem fronteiras para o Cartel de Sinaloa e as tríades chinesas, diz Chabat.

“Os cartéis de drogas estão lutando pelo controle de um único território, o mundo”, afirma.

El Chapo, por exemplo, tenta controlar o tráfico de drogas não apenas no México, mas nos EUA, na Europa, em toda a América Latina, na África, na Ásia e na Austrália, como parte de uma “perversa estratégia de globalização”, segundo a organização InSight Crime.

“Não há dúvida de que o Cartel da Sinaloa é uma das mais fortes e poderosas organizações de narcotráfico do continente americano”, afirma Chabat.

Autoridades em países asiáticos capturaram diversos membros da organização de El Chapo nos últimos anos.

Por exemplo, em junho de 2011, autoridades da Malásia condenaram três mexicanos do Cartel de Sinaloa à pena de morte por operarem um laboratório de metanfetamina na cidade de Johor. A polícia malaia prendeu em 2008 os irmãos Luis Alfonso, Simón e José Regino González Villareal, supostos membros do Cartel de Sinaloa.

Em novembro de 2013, autoridades latino-americanas de segurança concordaram, durante a Segunda Conferência Regional sobre Prevenção, Controle e Investigação Policial no Desvio de Precursores Químicos, em aumentar a cooperação internacional na luta contra as drogas sintéticas.

As autoridades latino-americanas comprometeram-se a fortalecer a responsabilidade social corporativa e a colaboração entre o setor empresarial e o Estado para intensificar o controle de precursores químicos. Também concordaram em aprimorar os vários programas e projetos internacionais, assim como fortalecer as pesquisas sobre provas científicas para converter informações em conhecimento para melhores resultados na luta contra as drogas.

“Como parte da cooperação internacional, as instituições devem ser fortalecidas em todos os países em nível internacional no combate às drogas sintéticas”, diz Chabat.

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