“Catástrofe educacional” na Venezuela

Ricardo Guanipa D’erizans/Diálogo | 18 setembro 2019

Ameaças Transnacionais

Um homem caminha junto a um edifício da Universidade Central da Venezuela, em Caracas, no dia 12 de março de 2019. As aulas foram suspensas depois de um apagão em massa que afetou quase todo o país. (Foto: Ronaldo Schemidt / AFP)

Salas de aulas vazias, professores em greve e edifícios em péssimo estado são algumas das consequências da crise econômica da Venezuela. Poucos dias depois do encerramento do ano letivo 2018-2019, Bolívia Suárez, deputada oposicionista da Assembleia Nacional (AN) da Venezuela, disse que o país atravessava uma “catástrofe educacional”.

A parlamentar e membro da Comissão de Desenvolvimento Social da AN explicou, em julho, que as escolas públicas só cumpriram 70 por cento do calendário escolar previsto, o que significa que os estudantes perderam mais de dois meses de aulas. A falta de água, os apagões de energia e o caos nos serviços de transportes públicos contribuíram para o colapso da educação, disse a deputada.

“O que esse regime está fazendo com a educação é um ato criminoso”, disse Suárez em uma entrevista coletiva.

“Temos problemas colaterais, como o transporte, a cantina dos alunos, a insegurança devido à falta de orçamento para contratar vigilantes, fazer a manutenção e adquirir equipamentos”, disse à Diálogo Pablo Aure, professor e secretário geral da casa de estudos avançados da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade de Carabobo, na cidade de Valencia, Venezuela. “Nossas instituições, sob esse modelo, estão praticamente condenadas ao fechamento.”

Um grande número de alunos e professores foram abandonando as salas de aulas. Em setembro de 2018, a Associação de Professores da Universidade Central da Venezuela alertou a AN que apenas 10 a 15 por cento dos estudantes compareceram ao início das classes do ano letivo de 2018-2019. Raquel Figueroa, coordenadora nacional da Unidade Democrática do Setor Educacional da AN, disse que mais de 271.000 professores, ou seja, 50 por cento dos que estão na folha de pagamento do Ministério da Educação, haviam abandonado o sistema educacional.

Em maio de 2018, 14 organizações não governamentais venezuelanas denunciaram em um comunicado conjunto “os contínuos ataques do Estado venezuelano” contra os professores universitários, bem como atentados contra a liberdade acadêmica e a autonomia universitária.

“Toda instituição onde se debatem ideias, onde conhecimentos e pesquisas são gerados, obviamente é inimiga desse tipo de sistema de governo tirânico e ditatorial”, disse Aure. “O regime destruiu as instituições públicas, incluindo as universidades. Eles estão tentando fechá-las, bloqueando indiretamente o seu orçamento com os salários de fome dos nossos trabalhadores, proibindo as eleições nas universidades autônomas e perseguindo-nos como docentes.”

Segundo a nova tabela salarial do setor educacional apresentada pelo governo em janeiro de 2019, um professor com 23 anos de serviços que trabalhe 40 horas por semana receberia aproximadamente 51.000 bolívares por mês, ou seja, um pouco mais de US$ 3 (com base na cotação cambial de 27 de agosto).

As instituições educacionais “continuam em pé, hoje, devido aos esforços de alguns professores que trabalham por amor, inclusive tirando de seus bolsos o pouco dinheiro que têm, para comprar marcadores para os quadros”, disse à Diálogo Hasler Iglesias, que foi presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela entre 2015 e 2016. “Hoje em dia, lamentavelmente, os professores têm que se ausentar das salas de aulas e enfrentar horas de filas para comprar um pacote de farinha, pão, sabão, fraldas... e isso também afeta a qualidade da educação na Venezuela.”

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