Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Cooperação através das fronteiras

A Força de Defesa de Belize trabalha com as nações vizinhas para desarticular as redes de narcotraficantes e suas conexões transnacionais.
Geraldine Cook/Diálogo | 26 janeiro 2018

O General-de-Brigada Steven Ortega, comandante da Força de Defesa de Belize, trabalha em parceria com nações vizinhas para desarticular o crime organizado transnacional na região. (Geraldine Cook, Diálogo)

Belize, um país diversificado e multicultural, onde os idiomas oficiais são o inglês, o crioulo belizenho e o espanhol, possui laços sólidos com a América Central e o Caribe. Como seus vizinhos regionais, Belize enfrenta ameaças de segurança tradicionais e não tradicionais.

O General-de-Brigada Steven Ortega, comandante da Força de Defesa de Belize (BDF, em inglês), está observando atentamente essas ameaças e enfrentando-as através da cooperação com nações vizinhas, para combater o tráfico de drogas, além de controlar e diminuir a violência interna entre gangues e fortalecer a coleta de informações de inteligência.

O Gen Bda Ortega participou da 16ª Conferência sobre Segurança dos Países do Caribe (CANSEC, em inglês), evento anual que foi realizado em Georgetown, Guiana, de 6 a 7 de dezembro de 2017, no qual os participantes analisaram ações regionais para desarticular as redes de ameaças transregionais e transnacionais (T3N, em inglês). Durante a conferência, o Gen Bda Ortega conversou com Diálogo sobre a CANSEC, os negócios do narcotráfico, que estão influenciando outras atividades criminosas, e como a BDF está trabalhando para proporcionar melhor segurança à população de Belize.

Diálogo: Qual é a importância da participação de Belize na CANSEC?

General-de-Brigada Steven Ortega, comandante da Força de Defesa de Belize: Como membro da Comunidade do Caribe (CARICOM, em inglês), somos uma parte da região que é afetada pelas ameaças transnacionais que existem por aqui. É bom participar dessas conferências para compartilhar nossas ideias e elaborar planos e estratégias para efetivamente fazer a região avançar num esforço para combater essas ameaças.

Diálogo: Belize enfrenta alguma ameaça terrorista?

Gen Bda Ortega: Atualmente não enfrentamos ameaças terroristas, que seja do nosso conhecimento. Peço a Deus que continue assim; contudo, estamos preparados e mantemos o Grupo de Atividades Especiais de Belize (BSAG, em inglês) treinado nessa área para dissuadir ou impedir essas atividades. Esta é a nossa unidade especializada, que está preparada para enfrentar o terrorismo e o narcotráfico. O BSAG é uma unidade das Forças Especiais treinada pelos Estados Unidos e pelo Canadá.

Diálogo: Quais são as preocupações de segurança mais importantes em Belize?

Gen Bda Ortega: Estamos enfrentando, como a maior parte do Caribe, ameaças transnacionais, desastres naturais, econômicos, que são os mais abrangentes, mas, examinando com mais profundidade, as principais ameaças são a criminalidade e a violência, isto é, o crime transnacional.

Diálogo: Quais são os crimes transnacionais específicos a que o senhor se refere?

Gen Bda Ortega: Realmente, é o tráfico de narcóticos e de armas. As drogas entram e são trocadas por armas ou por dinheiro. Internamente, as gangues estão brigando por esse tipo de atividade ilegal para controlar a movimentação de drogas através de Belize. A situação faz com que tenhamos enfrentamentos com armas de fogo, crime e violência interna.

Diálogo: O narcotráfico está ligado à violência das gangues?

Gen Bda Ortega: As gangues são locais; no entanto, elas têm conexões internacionais na medida em que estão movimentando drogas do sul para o norte ou armas do norte para o sul.

Diálogo: Há algum programa para jovens para refrear a atividade das gangues?

Gen Bda Ortega: Sim. O Departamento de Polícia de Belize tem muitos programas diferentes para a prevenção do crime e a BDF tem parceria com o Ministério de Desenvolvimento Humano em um programa de proteção dos cidadãos, que está sob o Programa de Desafio da Juventude e o do Corpo de Cadetes Jovens. Ambos os programas são voltados para jovens de 11 a 17 anos, para mantê-los distantes das gangues.

O Programa de Desafio da Juventude, de dois anos de duração, é focado em jovens que por algum motivo abandonaram a escola, porque seus pais não podiam pagar, porque achavam que não tinham capacidade para os estudos, ou porque simplesmente decidiram entrar para uma gangue. No primeiro ano, é internato, como em uma escola, mas eles ficam confinados nas instalações.

O Corpo de Cadetes Jovens visa crianças que estejam na escola, proporcionando-lhes um porto seguro, com disciplina, liderança e os aspectos de ser um bom cidadão para garantir que perseverem no caminho certo, crescendo através da educação. Acredito que esse seja o segredo para que as gerações mais jovens possam se tornar bons cidadãos. Se você aprender a ser um bom cidadão, você não se aventurará nos meandros da ideologia do crime ou algo desse tipo.

Diálogo: Como Belize criminaliza os narcóticos ilegais?

Gen Bda Ortega: Temos o código criminal, a Lei de Abuso de Drogas, além das legislações contra o terrorismo e a lavagem de dinheiro que o Departamento de Polícia, a Unidade de Inteligência Financeira e o BSAG utilizam sempre que realizam operações específicas.

Diálogo: Como a BDF trabalha em conjunto para combater a violência e as atividades criminosas?

Gen Bda Ortega: Nossa principal atividade é a de defender o país e fazemos isso basicamente ao patrulhar as fronteiras, mas também dando apoio a outros órgãos, em especial ao Departamento de Polícia de Belize.

Diálogo: Como Belize colabora com os países da região para combater as ameaças transnacionais?

Gen Bda Ortega: Temos uma equipe de 35 homens em Dominica oferecendo assistência humanitária e esforços de restauração ao nosso estado-irmão da CARICOM, após o devastador furacão Maria ter destruído a maior parte da infraestrutura do país. Além disso, temos dois países vizinhos, Guatemala e México, com quem trabalhamos bastante, principalmente em termos de patrulhas de fronteira, tanto combinadas como coordenadas. Fazemos o planejamento, a preparação e comunicações por radar, entre outras coisas; portanto, nossas operações combinadas são planejadas até os detalhes finais de patrulhamento. Também trocamos informações com a Guatemala e o México.

Diálogo: Como Belize coopera e trabalha em conjunto com os Estados Unidos?

Gen Bda Ortega: Temos um memorando de entendimento que nos permite trabalhar com eles em termos de treinamento e atividades. Na verdade, temos uma operação anual de destruição de maconha, na qual usamos seus helicópteros, que vêm da Base Aérea de Soto Cano em Honduras. Essa operação antidrogas é feita em parceria com nossos soldados, pois a maioria dos campos de maconha está em áreas remotas e não é fácil acessar a pé ou com veículos terrestres.

Diálogo: Esses esforços internacionais com os Estados Unidos, o México e a Guatemala ajudam Belize a combater o tráfico ilegal?

Gen Bda Ortega: Sim, ajudam, pois há um amplo aspecto de troca de informações e patrulhas conjuntas. Isso também mostra à população que mais países estão patrulhando dos dois lados da fronteira.

Diálogo: Belize compartilha informações em tempo real?

Gen Bda Ortega: Sim. Temos comunicações por rádio, telefone e internet com eles a todo momento, assim podemos compartilhar informações em tempo real.

Diálogo: Como a BDF e a polícia trabalham juntas e colaboram entre si?

Gen Bda Ortega: A polícia é o órgão fundamental de aplicação da lei no país. As Forças Armadas lhes dão o suporte em quaisquer situações que necessitarem em termos de operações e apoio. Se a polícia precisar de nossa assistência, eles entram em contato e juntos planejamos a operação e mantemos o nosso dever de apoiar nossa agência-irmã. Oferecemos mão de obra adicional, como para isolar uma área ou para ajudar a manter as pessoas que eles tiverem detido. As Forças Armadas não cuidam do aspecto da aplicação da lei. Estamos apenas prestando assistência à polícia paralelamente.

Diálogo: Como a BDF trabalha em parceria com as forças armadas na região para combater as ameaças internacionais?

Gen Bda Ortega: Realizamos treinamentos conjuntos. Acabamos de realizar o Exercício Militar Conjunto Adaga Tropical (Tropical Dagger), um exercício de Forças Especiais entre as Forças Especiais do Canadá, de Belize, da Jamaica e dos Estados Unidos. Esse exercício combate a ameaça, seja de drogas ou de terrorismo.

Diálogo: Qual é a meta da BDF para 2018?

Gen Bda Ortega: Estamos trabalhando na nossa Revisão de Segurança e Defesa, que será apresentada ao Conselho de Segurança Nacional e decidirá o rumo a seguir para a BDF em termos de força ou de aperfeiçoamento de nossas capacidades. Se for aprovada, a BDF crescerá. Consigo ver a BDF crescendo em 2018 e melhorando nossas capacidades.

Diálogo: Qual é sua mensagem para os chefes de defesa da região?

Gen Bda Ortega: Vamos trabalhar juntos com o que temos e colaborar em termos de estabelecer estratégias para maximizar o uso dos recursos limitados de que dispomos. Podemos fazer muito mais do que estamos fazendo atualmente com nossos recursos.

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