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Entrevista com o Contra-Almirante da Marinha dos EUA Thomas L. Brown II, comandante do Comando de Operações Especiais do Sul
Print | 1 janeiro 2012

O C Alte Thomas L. Brown II, à direita, e o CF Fernando José Afonso Ferreira de Sousa conversam durante a recente visita do comandante do SOCSOUTH ao Brasil. [MAJ. EMANUEL ORTIZ/SOCSOUTH]

O Contra-Almirante Thomas L. Brown II já trabalhou na América Latina e estudou a região ao longo das últimas décadas. Aprendeu espanhol na década de 80, frequentou a Escola de Estudos Avançados Internacionais da Universidade Johns Hopkins e fez mestrado em Estudos Latino-Americanos, sendo em seguida designado para o Grupo de Assessoria Militar do Exército dos EUA em El Salvador. Mais tarde comandou a Unidade Quatro de Operações Navais Especiais (NSW, por sua sigla em inglês) em Porto Rico, que serve como o Componente NSW das Operações Especiais do Comando Sul dos EUA (SOCSOUTH, por sua sigla em inglês).

Militares de várias nações realizam um evento de treinamento de descida em corda rápida dos helicópteros MH-60L Black Hawk, durante o PANAMAX 2011. [PETTY OFFICER 1ST CLASS ELISANDRO T. DIAZ/U.S. NAVY]

Segundo suas próprias palavras, “a América Latina é um lugar fascinante” e agora, como comandante do SOCSOUTH em Homestead, Flórida, tem a oportunidade de trabalhar com os parceiros dos EUA no hemisfério para enfrentar problemas tais como o narcotráfico, a violência de grupos extremistas e demais desafios.

Na entrevista a seguir, concedida a Diálogo, o C Alte Brown fala sobre a missão do SOCSOUTH e a importância de se entender o idioma e a cultura da região.

DIÁLOGO: Qual é a missão do SOCSOUTH e sua relação com o SOUTHCOM?

Contra-Almirante Thomas L. Brown II: O SOCSOUTH é um quartel-general de operações especiais sob a responsabilidade do Tenente-Brigadeiro-do-Ar Fraser [comandante do Comando Sul dos EUA]. O Ten Brig Fraser conta com um sub-comando para cada serviço, ou seja, Comando Sul da Marinha dos EUA, o Comando Sul das Forças de Fuzileiros Navais, e o SOCSOUTH, que representa seu elemento de comando das Forças de Operações Especiais (SOF, por sua sigla em inglês) para planejar e conduzir estes tipos de operações. Uma das diferenças entre o SOCSOUTH e os sub-comandos de serviço é que nós somos um comando conjunto sub-unificado, com membros de todos os serviços.

DIÁLOGO: Quais são as tarefas essenciais do SOCSOUTH?

C Alte Brown: A missão do Comando das Áreas de Operações Especiais é planejar e executar operações especiais, no nosso caso na América Latina e no Caribe. Isto abrange desde a realização de operações de Relações Civis [RC] até a possibilidade de operações especiais em apoio direto ou em parceria com nossos amigos da região, como fizemos com a Operação Willing Spirit, para libertar os reféns norte-americanos em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [2003-2008]. O que está sob as atribuições das operações especiais são, em geral, uma surpresa para as pessoas; estas as ferramentas de “poder sutil” que possuímos, desde Operações de Informações até as Relações Civis. O Comando de Operações Especiais dos EUA tem uma brigada de Relações Civis que fornece elementos de apoio civil-militar empregados pelo SOCSOUTH para ajudar nossas nações parceiras e suas equipes durante seus esforços na região. Empregamos rotineiramente nossas Forças Especiais do 7º e 20º Grupamentos de Forças Especiais, Combatentes de Operações Especiais e os SEALs, principalmente da Equipe de Embarcações Especiais 22 e Equipe SEAL 18, Comandos da Força Aérea e instrutores das Forças de Operações Especiais. Todo este potencial nos ajuda a capacitar nossos parceiros no combate aos perigosos agentes não-estatais, ou usando o termo citado por John Arquilla [um PhD em Relações Internacionais pela Universidade de Stanford que escreveu diversos artigos e livros sobre o futuro das guerras], as “redes obscuras”.

DIÁLOGO: O que as tropas dos EUA aprendem de sua participação nos exercícios multinacionais?

C Alte Brown: Um dos valores fundamentais das forças de operações especiais é que elas têm uma sintonia cultural, trabalham com equipes pequenas e se mantêm em missões por longos períodos longe de bases estabelecidas ou tradicionais, o que nos permite aprender e compreender o ambiente e as pessoas com quem trabalhamos. Através de nossos exercícios, adquirimos um conhecimento cultural mais elaborado, maior compreensão do potencial de nossas nações parceiras, e solidificamos os relacionamentos que nos permitem melhor sincronizar a capacidade e a eficiência de nossos parceiros contra o narcotráfico, os terroristas e outras ameaças afins. Relacionamentos são vitais nesse âmbito. Conhecer as pessoas e seus pontos de vista, e ao mesmo tempo compreender os poderes, fraquezas e necessidades de nossos parceiros nos auxilia a reforçar seu potencial e a ajudá-los a lidar com seus pontos fracos.

A Marinheira Mestre-de-Armas Ashely Kuhl escolta uma mulher equatoriana até uma clínica médica durante a missão dos EUA, Promessa Contínua 2011, em Manta, no Equador. [PETTY OFFICER 1ST CLASS BRIAN A. GOYAK/U.S. NAVY]

DIÁLOGO: Qual a importância de se conhecer a cultura e o idioma da região?

C Alte Brown: Pela minha experiência de ter trabalhado em diferentes partes do mundo, o SOUTHCOM tem um papel ímpar na América Latina, e nesta região se espera que os estrangeiros também falem o idioma. Por isso, para se chegar aos objetivos, é importante ter um certo nível de fluência no idioma e compreender as diferenças culturais. Algumas pessoas podem ter mais facilidade de comunicação do que outras, e podem se fazer entender ou aprender sem conhecer o idioma, mas aí é um desafio muito maior. Assim sendo, eu diria que saber o idioma e conhecer a cultura são essenciais para a missão aqui. A liderança do Comando de Operações Especiais dos EUA vem continuamente enfatizando a importância do domínio do idioma, bem como o conhecimento da região e da cultura como uma estratégia de investimento, e o SOUTHCOM se beneficia com a capacitação que as Forças de Operações Especiais trazem para a área de operações.

DIÁLOGO: Como as novas tecnologias utilizadas pelos narcotraficantes, como os semissubmersíveis, afetam sua missão?

C Alte Brown: Trabalhamos com afinco para nos mantermos atualizados quanto às novas tecnologias ou técnicas utilizadas pelos traficantes, pelas organizações criminosas transnacionais e os narcoterroristas como os membros das FARC, que costumam transportar as drogas e outras mercadorias ilícitas. Levamos isto em consideração na forma como treinamos e reforçamos nossas parcerias. Estamos sempre atentos a isto quando trabalhamos com as equipes norte-americanas, e em estreita colaboração com os países, para moldar nosso treinamento e demais esforços para aumentar o potencial contra as ameaças, sempre que estas “redes obscuras” adotam novas tecnologias de comunicações, transportes, e outras tecnologias.

DIÁLOGO: O senhor poderia falar sobre as Forças Especiais no SOCSOUTH?

C Alte Brown: O termo genérico para isto a que você se refere é Forças de Operações Especiais, ou SOF, o que inclui as Forças Especiais do Exército, os Combatentes de Operações Especiais da Marinha, as Equipes de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais dos EUA e os pelotões SEAL, bem como as operações especiais da Força Aérea com o seu 6o Esquadrão de Operações Especiais para aumentar a capacidade de parceria na aviação, e a Equipe de Controle de Combate e membros de paraquedistas de resgate. No entanto, temos uma gama muito mais abrangente de capacitações, diferentes das que acabei de mencionar, e que não são aquilo que as pessoas normalmente imaginam em relação às SOF pelo que é mostrado nos filmes. Tão importante quanto – se é que não mais importante – é o fato de que o SOCSOUTH está na vanguarda do emprego das Relações Civis, das Operações de Informações e da liderança intelectual acadêmica para solucionar os complexos problemas das operações ilegais. Nossos conhecimentos básicos sobre um determinado território giram em torno do comando e das influências das ações deste território. Mas é importante mencionar que contamos com as Relações Civis e Operações de Informações para reforçar o poder da ação direta, ou os ataques tradicionais de comando. Os combatentes e oficiais, os homens e mulheres que trabalham no SOCOM, devem ser aqueles que sabem como empregar todas estas ferramentas para solucionar problemas complexos. Esta é a tarefa número um nas guerras não tradicionais, onde temos uma vantagem competitiva sobre as forças militares tradicionais.

DIÁLOGO: Que tipo de participação tem o SOCSOUTH na Assistência Humanitária/Ajuda para Desastres (HA/DR, por sua sigla em inglês)?

C Alte Brown: Depois do terremoto no Haiti, as Forças de Operações Especiais estiveram entre as primeiras a chegar ao local. Ainda que não seja uma missão primordial das operações especiais, e não é no que minhas forças se enfocam todos os dias, podemos chegar com muita rapidez e operar com poucas pessoas em ambientes hostis, especialmente com nossas forças de Operações de Informações e Relações Civis, contribuindo significativamente com ajuda humanitária e assistência para desastres no caso de uma situação de crise.

DIÁLOGO: Seria uma boa solução se fosse criada uma organização transnacional para enviar tropas de Assistência Humanitária/Ajuda para Desastres?

C Alte Brown: É uma boa ideia, e da maneira como vejo o Ten Brig Fraser abordar o problema, acredito que isto esteja em sintonia com sua concepção de colaboração e formação de equipes na região. É melhor termos uma solução regional, um espaço onde possamos nos reunir e descobrir a melhor forma de ajudar em uma determinada situação de emergência.

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