Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Ação Integral se fortalece diante de uma Colômbia pós-conflito

Ação Integral consolida os esforços do governo e dos militares para promover o desenvolvimento da Colômbia.
Marcos Ommati/Diálogo | 11 junho 2018

O General-de-Divisão Hugo Alejandro López Barreto tem sob o seu comando o Comando de Apoio de Ação Integral do Exército da Colômbia. (Foto: María Carolina Gonzalez, Diálogo)

Os programas de Ação Integral do Exército da Colômbia, como parte de uma ação unificada do Estado, buscam integrar as capacidades das Forças Militares e a institucionalidade econômica, política e social, com o intuito de gerar desenvolvimento e progresso nas diferentes regiões do país. O programa começou entre 1953 e 1957, durante o mandato do presidente Gustavo Rojas Pinilla, que, com sua experiência como general-de-divisão do Exército Nacional, atribuiu às Forças Militares a tarefa de proporcionar assistência social às comunidades mais vulneráveis. Desde então, o Exército Nacional, a Força Aérea e a Marinha da Colômbia trabalham em conjunto com as instituições do Estado em programas que beneficiam as comunidades de zonas priorizadas que necessitem essa assistência. Com o fim do conflito armado, principalmente com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a Ação Integral passa por uma transformação para se adaptar à nova realidade nacional. Para entender mais a respeito do tema, Diálogo conversou com o General-de-Brigada Hugo Alejandro López Barreto, comandante do Comando de Apoio de Ação Integral do Exército da Colômbia.

Diálogo: O que é o Comando de Apoio de Ação Integral e Desenvolvimento?

General-de-Brigada Hugo Alejandro López Barreto, comandante do Comando de Apoio de Ação Integral do Exército da Colômbia: O Comando de Apoio de Ação Integral e Desenvolvimento é uma unidade operacional maior, tipo divisão, que tem como missão conduzir as operações de Ação Integral e Desenvolvimento (AID) em apoio às unidades do Exército Nacional, em coordenação com as instituições do Estado, com a finalidade de gerar as condições para promover a recuperação social do território, a caminho da consolidação.

Diálogo: São batalhões?

Gen Bda López: Sim, nós estamos organizados em duas brigadas e cada brigada tem quatro batalhões, e temos mais um batalhão. É um batalhão de operações especiais – um batalhão especial –, que está sediado em Bogotá. Ele se encarrega de articular toda essa institucionalidade no âmbito central e tudo isso se irradia para cada uma das divisões do país. Nós temos hoje dois postos de brigada, um em Cúcuta e outro em Cali, e temos oito postos de comando de batalhão em cada uma das divisões do Exército.

Diálogo: Com exceção de operações especiais, os outros quatro batalhões fazem o mesmo, ou cada um tem uma função específica?

Gen Bda López: Em cada um desses batalhões nós desenvolvemos operações de ação integral e, dentro dessas operações, há duas grandes missões: uma que se chama sensibilização e outra que se chama cooperação civil-militar. Cada batalhão nessas duas missões de ação integral trabalha com seus estados. E o que faz? Apoia o conceito operacional do comandante da divisão, seu esforço principal, foca nas necessidades da região e sobre como estas podem ser abordadas a partir das capacidades da Ação Integral. Vou lhe dar um exemplo: a Segunda Divisão vai para o norte de Santander e seu esforço é no Catatumbo. Eles fazem operações de sensibilização e operações de cooperação civil-militar, para sensibilizar, aproximar e gerar confiança.

Diálogo: O que são as operações de sensibilização?

Gen Bda López: As operações de sensibilização são tarefas que permitem que a população civil se aproxime muito mais das forças, para que haja mais confiança. Lamentavelmente, este conflito, esta guerra, nos deixou muita desconfiança entre as comunidades, bem como entre as comunidades e as forças. Hoje em dia, isso já foi bastante superado, embora ainda exista. Fazemos tarefas de sensibilização dirigidas aos públicos-alvo. Quais são os públicos-alvo? A população civil, o inimigo e as próprias tropas. Estamos enquadrados entre esses três. O que fazemos aí? Com a população civil, fortalecemos a imagem institucional, com o inimigo, diminuímos sua vontade de lutar, e com nossas próprias tropas, ajudamos a aumentar sua vontade de lutar. Fortalecemos a imagem institucional e difundimos as informações de interesse. Temos um tema muito grande de comunicações estratégicas: o de persuadir os públicos-alvo a promover objetivos de operações. Em nosso conflito interno, não era fácil chegar às comunidades, mas depois de termos feito uma operação militar, podemos chegar para tratar de persuadir e começar a gerar ambientes diferentes de trabalho, e aumentar o moral combativo em relação às nossas próprias tropas. Nós somos os encarregados de manter esse moral das tropas, de ir aos centros de instrução, de chegar aos cantões militares e realizar uma atividade, uma jornada para nossos soldados, para suas famílias, com motivações específicas. Entretanto, é importante destacar que não trabalhamos apenas a parte militar. A operação terrestre para combater o inimigo é muito importante e não se pode perdê-lo de vista, mas depois devemos ir além e realizar todo o nosso trabalho de articulação interinstitucional, para gerar também o progresso e desenvolvimento dentro das operações civis e militares. Nossos soldados fomentam a participação com as comunidades, com as diferentes juntas de ação comunitária e entidades governamentais e não-governamentais.

Diálogo: Que ações cívico-militares estão sendo realizadas para melhorar a segurança nas comunidades?

Gen Bda López: Dentro das tarefas que desenvolvemos, as relações civis e militares apontam para a melhoria da segurança. É claro que sem segurança não pode haver progresso nas regiões e sem segurança o Estado não conseguiria chegar a essas áreas; portanto, essa articulação das instituições do Estado, essa ação unificada, que envolve sincronização, coordenação, integração e harmonização das atividades entre setores do governo, o setor privado, a sociedade civil, a cooperação internacional e formas de participação comunitária para alcançar a unidade de esforço, o que nos ajuda a chegar às regiões, tudo isso acontece graças à segurança (controle institucional do território). Um bom exemplo é o Fé na Colômbia, que é um programa de articulação das instituições do Estado, com o apoio da iniciativa privada e da cooperação internacional, que orienta seus esforços em direção à melhoria das condições de vida das populações mais vulneráveis do território nacional, no contexto da segurança integral. O programa Fé na Colômbia está localizado nas oito divisões do Exército Nacional e é mobilizado de acordo com as necessidades operacionais da unidade e suas 18 linhas de ação, entre elas a linha populacional, de aproximação, linhas de projetos produtivos, a infraestrutura e o meio ambiente, a linha obtenção de confiança, e a linha de terra, entre outras.

Diálogo: A Ação Integral tem algo a ver com a reinserção social dos quase 8.000 membros das FARC que estão desmobilizados?

Gen Bda López: A Ação Integral tem sido parte fundamental desse processo, trabalhando por meio do nosso programa principal, que já mencionei, que é o Fé na Colômbia, com missões de sensibilização militar, melhorando as relações civis e militares para garantir a segurança e o controle institucional do Estado nos Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação. Estas são atividades com as quais buscamos facilitar a estabilidade do território e o desenvolvimento das comunidades dentro das missões particulares de AID, como liderança comunitária, fortalecimento da governabilidade, apoio ao desenvolvimento econômico e social e fortalecimento da imagem institucional.

Diálogo: O senhor considera que o papel que seus comandados desempenham é um novo papel dos militares colombianos?

Gen Bda López: O papel desempenhado pelos homens e mulheres que fazem parte da AID é talvez a tarefa mais importante de um soldado, sem menosprezar as demais missões do nosso Exército, salientando que pertence à sinergia operacional, na qual atuam operações, inteligência, Ação Integral e Comunicações Estratégicas. O homem de Ação Integral deve ser uma pessoa com carisma, coração grande e desejos de querer ajudar, com amor pelo seu país, pela sua instituição e pelos que mais necessitam. Ele deve saber como articular as capacidades do Estado com as do setor privado e ser esse grande articulador entre o que se tem e o que se necessita. Também deve saber como funciona o Estado, quais são seus planos e projetos e para onde temos que levá-los. Esse trabalho vem sendo desenvolvido por soldados que fazem parte dos batalhões de AID voltados para áreas priorizadas onde sabemos que estão os maiores problemas. Estamos dirigindo nossos esforços para essas comunidades e levando a oferta por meio de programas e projetos do Estado colombiano. Um Exército Multimissão, Exército 3.0 ou Exército do Futuro é o primeiro bloco de transformação adotado pela instituição frente às novas dinâmicas do país, propostas pela governabilidade e pelo contexto. É organizado, educado, equipado e motivado, ágil, moderno, flexível e letal. Dentre esses novos papéis que os soldados da Colômbia têm está o do soldado de AID, que para nós não é novo, mas cabe ressaltar que é importante porque contamos com uma organização que nos dá comando e controle sobre o que temos e o que fazemos. Os soldados da Ação Integral sempre ajudaram e participaram dos planos de governo para intervir nas comunidades necessitadas. Como disse inicialmente, desde a década de 1950, vimos trabalhando em benefício das comunidades vulneráveis. Hoje em dia, e graças à doutrina Damasco, adquirimos a responsabilidade de sermos os articuladores nesses processos e estamos comprometidos com a comunidade por meio das operações de AID e operações de Apoio da Defesa à Autoridade Civil (ADAC). Em conjunto com todas as instituições que integram o setor de defesa, estamos respondendo a solicitações de assistência das autoridades civis nacionais para emergências domésticas de qualquer natureza, dando apoio à imposição da lei e realizando outras atividades com entidades qualificadas para situações especiais. As tarefas de ADAC implicam a mobilização de pessoal especializado nas diferentes capacidades do Exército Nacional; é por isso que são os homens da Ação Integral que devem pôr em prática as capacidades próprias da especialidade em missões de sensibilização militar e relações civis militares que forem necessárias para o cumprimento da missão. Por isso, eles são os encarregados de reunir capacidades internas e externas que propiciem um ambiente de trabalho agradável, coordenado e horizontal que facilite os esforços, evite ações impositivas que gerem discórdia e disfuncionalidade no desenvolvimento das missões. O pessoal da Ação Integral deve manter uma comunicação permanente com as autoridades e a comunidade, a fim de fortalecer os bons relacionamentos e, assim, consolidar seu papel como integrador e facilitador no desenvolvimento das tarefas de ADAC.

Diálogo: Quais são as funções específicas de cada um dos batalhões de AID e qual é sua jurisdição?

Gen Bda López: Nossos batalhões de AID têm responsabilidades e funções específicas dentro de cada uma de suas jurisdições. Em apoio operacional às divisões, eles são os encarregados de executar as tarefas que se desenvolvem dentro das missões de sensibilização militar, que são:

  • Fortalecer a imagem institucional
  • Difundir as informações de interesse
  • Persuadir os públicos-alvo a apoiar os objetivos operacionais
  • Incrementar o moral combativo da tropa
  • Diminuir a ameaça, mediante ações não letais
  • Fomentar a confiança entre os públicos-alvo e a força
  • Prevenir o recrutamento e fortalecimento da ameaça

Essas tarefas são desenvolvidas por nossos batalhões nas zonas onde realizam suas operações em apoio às divisões e forças-tarefa, além de cumprir com outras atividades que têm a ver com as relações civis e militares, tais como:

  • Articular as capacidades da força como contribuição à ação unificada para atender necessidades da comunidade
  • Fomentar o desenvolvimento regional
  • Promover a participação de comunidades nos programas do Estado
  • Apoiar as Forças Armadas dos países aliados na implementação do modelo de AID
  • Acompanhar as comunidades étnicas no desenvolvimento de projetos com enfoque diferencial
  • Fortalecer as relações da força com entidades governamentais, não governamentais e líderes comunitários
  • Coordenar com as entidades estatais para atender as crises humanitárias
  • Ajudar na prevenção e proteção ao meio ambiente
  • Interagir com a comunidade para gerar e manter a confiança e o respaldo à força
  • Orientar a cooperação internacional para cumprir os objetivos institucionais
  • Negociar com potenciais fontes de instabilidade para garantir a ordem constitucional

É importante destacar que, para todo esse trabalho, contamos com um grupo de profissionais oficiais da reserva, que estão ligados à instituição de maneira voluntária, através de cursos especiais organizados e programados pelo Ministério da Defesa ou pelo comandante geral das Forças Militares. Cada um, a partir de sua profissão, fornece seus conhecimentos à instituição para apoiar e contribuir para a recuperação social do território, em benefício das comunidades vulneráveis em cada região. Tudo isso que mencionei apoia o programa de AID e está debaixo de um programa principal, o Fé na Colômbia, que reúne todas as nossas capacidades e as das demais instituições para empoderar os líderes regionais, para que sejam eles que visualizem a problemática de suas comunidades e participem do desenvolvimento de iniciativas para poder buscar soluções aos problemas e às necessidades de suas comunidades. Além disso, está a articulação das capacidades do Estado.

Diálogo: O que a Ação Integral faz para evitar que os jovens se juntem às gangues criminosas?

Gen Bda López: A Ação Integral apoia todas as campanhas que o Exército Nacional realiza por meio das missões de sensibilização militar para evitar o recrutamento de menores, com base nas diretrizes estabelecidas pelo Grupo de Assistência Humanitária ao Desmobilizado.

Diálogo: A Ação Integral é algo que a Colômbia poderia exportar para outros países?

Gen Bda López: Neste momento, trabalhamos inicialmente na doutrina que nos torne interoperáveis, para assim podermos participar de missões internacionais com o conceito de Ação Integral. Do mesmo modo, estamos realizando intercâmbios de doutrina com países da América Central e do Sul, apoiados pelo Comando Sul dos EUA, destacando-se que estes países se mostraram interessados em adotar esse modelo que o Exército da Colômbia vem implementando com bons resultados.

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