Destaque: Uma conversa com nossos líderes

O adjunto de comando já é uma realidade no Exército Brasileiro

Diálogo conversou com o Subtenente de Cavalaria Osmar Crivelatti sobre esta nova função, que denota mais responsabilidade e mais autoridade aos subtenentes.
Marcos Ommati/Diálogo | 21 março 2018

O Adjunto de Comando do Exército Brasileiro, Subtenente de Cavalaria Osmar Crivelatti, visitou a Academia de Delegados do Brasil em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, onde concedeu uma entrevista ao Diálogo. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

A função de adjunto de comando é recente no Exército Brasileiro (EB). Foi estabelecida, em 2015, como uma forma de dar mais autoridade e responsabilidade aos subtenentes, com a participação de praças nas tomadas de decisão e no assessoramento ao comando das unidades militares.

Antes de sua implantação, o EB precisou testar a nova função com um projeto piloto, do qual o Subtenente de Cavalaria Osmar Crivelatti fez parte. O teste durou um ano e serviu para definir a sua efetividade e para se observar os resultados práticos da função que estava sendo desenvolvida. A partir daí, o EB entendeu que era realmente viável e deu início a um processo de implantação, que termina no final de 2018, com a implantação de adjuntos de comando nas unidades que foram estabelecidas inicialmente no plano. Durante uma visita à Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas (EASA), localizada em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, Diálogo conversou com o S Ten Crivelatti, que trabalha lado-a-lado com o comandante do EB General Eduardo Villas Bôas, em Brasília, para falar sobre esta nova função.

Diálogo: Por que o Exército Brasileiro viu a necessidade de criar a função de adjunto de comando?

Subtenente de Cavalaria Osmar Crivelatti, adjunto de comando do Exército Brasileiro: Ao longo do tempo, o Exército Brasileiro, como instituição nacional permanente, tem buscado se adaptar às necessidades da nação. Para cumprir sua missão, busca valorizar os seus recursos humanos. Então, isso foi uma forma de valorizar a carreira do sargento. Foi uma forma de resgatar e trazer os conhecimentos, necessidades e opiniões que, muitas vezes, estão no meio da tropa. São experiências vividas durante uma longa carreira.

Diálogo: O intercâmbio entre o EB e outros exércitos ajudou na tomada de decisão de se criar esta nova função? E houve uma espécie de modelo a ser seguido?

S Ten Crivelatti: Faz muito tempo que o EB faz intercâmbios com outros países, isso é notório; intercâmbio de oficiais, intercâmbio de praças, de sargentos. E os nossos sargentos têm visitado, participado de intercâmbios com países sul-americanos, com os Estados Unidos e outros países do mundo e, seguramente, em algum momento, nós buscamos essas experiências. Nossos oficiais e nossos sargentos no exterior identificaram o emprego do adjunto de comando em outros exércitos e buscaram as experiências. Só que não foi um processo de trazer a experiência e adaptá-la aqui, diretamente no nosso Exército. Tivemos que elaborar um processo de criação de um cargo que fosse adequado à cultura institucional do EB. Portanto, a experiência e o modelo integram aspectos que buscamos nos outros exércitos, mas a criação teve de ser adaptada à nossa cultura. Assim sendo, não é exatamente aquilo que você vê em outro exército. Talvez seja difícil encontrar um fator de comparação com os outros exércitos porque nós não os conhecemos a fundo. Precisaríamos de um estudo mais aprofundado para podermos fazer uma comparação. O fato é que aqui foi necessária uma adaptação à nossa cultura.

Diálogo: Pode-se dizer que esta função é um bebê que ainda está em gestação ou esse bebê já nasceu e, agora, é apenas uma questão de vocês o criarem?

S Ten Crivelatti: Estamos todos aprendendo. O comando está aprendendo, os adjuntos de comando e a tropa estão aprendendo a conviver, a se adaptar a isso. Mas, eu acredito na visão, e esse bebê não morre mais [Risos]. Ele só tende a evoluir. Mas, para isso, temos que cuidar muito desse bebê. Precisamos, em nossa função, fazer coisas das quais o Exército realmente necessita. Porque é uma função que veio valorizar a carreira do praça, distinguir o militar pela sua competência, pelo seu desempenho, pelas suas atitudes. Mas, eu acho que o grande valor é aquilo que ele vai fazer render para a tropa, para a instituição. Mas, é um bebê que não morre mais não [Risos].

Diálogo: Nós estamos na EASA, escola de aperfeiçoamento de sargentos que é uma referência nacional e mesmo internacional. Poderia falar um pouco sobre as escolas de formação dos sargentos do Brasil?

S Ten Crivelatti: Hoje, o Exército Brasileiro tem três escolas de formação de sargentos. Começamos com a Escola de Formação de Sargentos das Armas [em Três Corações, Minas Gerais], que prepara o sargento combatente. O sargento passa dois anos ali se preparando, com instruções didáticas, muitas instruções práticas, instruções de liderança para ser aquele sargento que vai liderar, desde o início, um grupo de combate na tropa. Temos outra escola que é a Escola de Sargentos de Logística [EsSLog], que forma o sargento de logística, toda a gama logística, que está situada no Rio de Janeiro. E nós temos a escola que é um Centro de Instrução de Aviação do Exército (em Taubaté, São Paulo), que é um pouco menor, que forma especificamente o sargento que é mecânico de aviação, um técnico que trabalha com os helicópteros do Exército.

Diálogo: E para o indivíduo entrar nessas escolas, ele tem que fazer um concurso; e depois de uns 10 anos como sargento, vem para a EASA para se aperfeiçoar?

S Ten Crivelatti: É assim mesmo. Ele presta um concurso público nacional. Os aprovados irão frequentar as escolas de formação de sargentos. A partir daí ele volta, vai para a tropa e continua sua profissionalização, porque nós temos vários cursos, temos vários centros de instrução.

Diálogo: Pode dar alguns exemplos?

S Ten Crivelatti: Posso citar o Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), lá em Manaus [AM], onde o sargento pode se graduar como guerreiro de selva. Além disso, nós temos o Centro de Instrução Paraquedista. Se o sargento tem a vocação para ser um combatente paraquedista, ele vai para o curso de paraquedistas e é empregado nas unidades paraquedistas do Exército. Então, é uma especialização, um aperfeiçoamento contínuo e, depois de 10-11 anos, já como segundo-sargento, que é um requisito para seguir na carreira, para as promoções futuras, ele vem aqui para a EASA, onde faz seu curso de aperfeiçoamento. Os combatentes, aqueles que se formam na Escola de Sargentos das Armas (ESA), lá em Minas Gerais, vêm para cá. O aperfeiçoamento dos logísticos, inclusive o pessoal de aviação, é feito na EsSLog, lá no Rio de Janeiro. Mas, é um aperfeiçoamento contínuo durante a carreira. Depois do curso de aperfeiçoamento, nós continuamos essas especializações. Temos vários cursos que o militar pode frequentar dentro de uma gama de especializações das quais o EB necessita.

Diálogo: Mas, o militar não pode chegar a adjunto de comando sem ter cursado a EASA ou a EsSLog, é isso?

S Ten Crivelatti: Isso. Para ascender na carreira, da graduação de segundo-sargento para primeiro-sargento, um dos requisitos para promoção a primeiro-sargento é ele ter feito o Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS). Depois, no futuro, para poder chegar a adjunto de comando — depois de ter passado por uma dessas escolas de aperfeiçoamento —, ele deve, ao longo da carreira, reunir atributos, ganhar conhecimento, se especializar e, quando for um primeiro-sargento antigo, um subtenente, ele entra no universo de seleção para o cargo de adjunto de comando de determinadas unidades, dentro do processo. Aí, ele volta aqui para a EASA, onde nós temos o Curso de Adjunto de Comando (C Adj Cmdo), que ele vai frequentar e onde vai ganhar mais alicerces, mais base para o desempenho da sua função. Por isso, agora a EASA também é conhecida como a Casa do Adjunto.

Diálogo: Para ser o comandante do Corpo de Alunos da EASA, esse sargento tem que ter feito o curso de sergeant major (subtenente) nos Estados Unidos?

S Ten Crivelatti: Sim. O EB busca aproveitar essa experiência. O comandante do Corpo de Alunos daqui é um sargento. Temos essa cultura já há bastante tempo, do aperfeiçoamento do sargento, de ser conduzido pelo sargento. E por que é um sargento que frequentou o curso de sergeant major nos EUA? Pela experiência, para desenvolver, melhorar, digamos assim, o preparo, o aperfeiçoamento do nosso sargento aqui.

Diálogo: Com relação ao estudo de idiomas e dos intercâmbios internacionais, considera fundamentais para que um sargento do EB avance ainda mais na carreira?

S Ten Crivelatti: Hoje, nós pregamos muito isso. Para que o Exército possa enviar o sargento para o exterior, para fazer intercâmbios, fazer cursos, é fundamental saber outro idioma. Ele precisa se comunicar. Então, o EB patrocina muito isso hoje, incentiva muito para que o sargento se dedique ao estudo de idiomas — o espanhol, aqui na nossa fronteira; o inglês, que é fundamental para nós. Cada exército tem um profissional de que necessita para cumprir sua missão institucional, junto ao seu país. É difícil comparar o sargento do Exército Brasileiro com o sargento do Exército do Chile, do Exército dos Estados Unidos. Cada país tem um profissional que precisa para cumprir sua missão. Então, nós temos uma formação, um aperfeiçoamento, um preparo para cumprir a missão do Exército Brasileiro, junto à sociedade brasileira. O sargento americano tem os mesmos elementos para cumprir a missão do Exército americano, junto à sociedade americana. Então, acredito que não existam fatores de comparação entre os militares de um exército e de outro. Existem profissionais dedicados às carreiras dentro de cada exército, dentro de cada país. Isso eu acho que é fundamental. E eu encontrei mais do que profissionais nos outros exércitos, quando estive trabalhando. Eles eram mais do que profissionais; eram amigos, porque, muitas vezes, nós somos empregados juntos. Por exemplo, eu tive experiência no Haiti e isso é fundamental, esse intercâmbio que nós temos com os mais novos, fazendo cursos em outros países, sendo instrutores, fazendo um intercâmbio de instrução muitas vezes. Isso nos proporciona a capacidade de operarmos juntos. Por exemplo, nós operamos no Haiti, na Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti [MINUSTAH], com uma gama de exércitos, de vários países, e isso funcionou muito bem porque nós já temos um pouco de conhecimento de como trabalha aquele exército, de como trabalha aquele soldado de outro exército. Então, eu acho que é fundamental o que o EB vem fazendo com relação a esse intercâmbio com outros países.

Diálogo: Falando em intercâmbio, como o senhor vê a presença de um sargento do Exército americano [Sargento Luciano Garcia] aqui dentro da EASA?

S Ten Crivelatti: Para mim é muito importante. A presença de um sargento americano aqui propicia ao nosso sargento a visão de como é um sargento do Exército americano, que é um Exército referência mundial. E é um intercâmbio em que temos o sargento americano colaborando com as nossas instruções e servindo de exemplo para o nosso sargento. Assim como temos um sargento brasileiro na United States Army Sergeants Major Academy (USASMA), no Texas, que busca experiências e serve de referência para o Exército americano, para promover esse intercâmbio, essa união sobre a qual falei anteriormente. Então, acho que é fundamental a presença dele aqui e a presença do nosso sargento nos Estados Unidos. É fundamental para a motivação, serve de exemplo para os demais.

Diálogo: Como vê o fato de haver estudantes internacionais aqui na EASA e em outras escolas de formação de sargentos no Brasil? Isso exerce alguma influência na formatação dos currículos dessas escolas?

S Ten Crivelatti: Não, o currículo é o mesmo. Aquilo que nós ensinamos aos nossos sargentos é ensinado da mesma forma aos sargentos deles. Assim como quando vamos a outros exércitos, é uma forma de buscar a cultura militar daquele país. Então, nós não adaptamos o nosso ensino especialmente para eles. Nós buscamos trazer também as experiências deles. Vou citar, como exemplo, o Curso de Adjunto de Comando. No ano passado, tivemos alunos estrangeiros. E eles trouxeram as experiências da função de adjunto de comando do exército deles. Isso foi importante, foi enriquecedor durante o curso aqui. Então, o currículo não é adaptado. Eles vêm, aprendem aquilo que nós fazemos, colhemos as informações deles, o que eles podem dar de aporte para nos ajudar também. E, assim, quando vamos a outros países, nós vemos que o currículo deles também não muda, e isso é importante.

Diálogo: Com relação à integração de gêneros, quando vamos ver uma mulher adjunto de comando no Exército Brasileiro?

S Ten Crivelatti: Esse é um assunto importantíssimo. Você tocou em um ponto que o EB tem trabalhado muito. O Exército tem essa integração de gêneros já há bastante tempo, na linha de apoio. Hoje, o EB já incorporou as mulheres na linha bélica. Nós temos sargentos do segmento feminino na EsSLog que, ao final do ano, serão sargentos e estarão indo para a tropa. Nós temos alunos-oficiais que estão na Academia Militar das Agulhas Negras que, daqui a quatro anos (tempo de duração do curso), estarão nas unidades como oficiais da linha logística combatente. Então, isso é muito importante. Vai ser um processo natural. Eu acredito que, ao longo do tempo, com essa integração de gêneros, elas vão ascender na carreira, vão se aperfeiçoar. E vai ser natural que, quando forem primeiros-sargentos antigos, quando forem subtenentes, em uma unidade do segmento feminino em que haja um adjunto de comando, cheguem à posição onde estou, de adjunto de comando do Exército. Isso é um processo natural. Hoje, no EB, não há diferenciação de gênero, não há diferença dentro do Exército que impeça que uma pessoa possa trabalhar como profissional das armas, defendendo a sua pátria como soldado.

Diálogo: Obviamente, esse processo de transformação, a instituição de um novo cargo — de adjunto de comando — ainda se encontra no início. Na sua opinião, o que está faltando? Quais seriam os próximos passos para essa profissionalização do subtenente do Exército Brasileiro acontecer completamente?

S Ten Crivelatti: Falta tempo. Nós precisamos de tempo para que, realmente, consigamos terminar a implantação, para que consigamos que todos tenham realmente um entendimento, porque trata-se de uma mudança de cultura. Uma mudança de cultura não ocorre de um dia para o outro. Nós temos uma cultura institucional, como mencionei antes. O Exército Brasileiro tem sua gênese em 1648, em Guararapes, no estado de Pernambuco. E, ao longo do tempo, ele tem se adaptado, tem evoluído, tem priorizado seus recursos humanos. Mas, o que é mais necessário é um entendimento. Nós precisamos evoluir no entendimento da missão e isso só o tempo vai nos propiciar. A carreira de sargento tem as características especiais do sargento do Exército Brasileiro. Talvez seja diferente de outros países, mas é uma carreira que atende aos requisitos do nosso Exército, necessários para o cumprimento da missão. Então, é uma fase ainda de adaptação. Nós precisamos de tempo. O tempo vai nos dar a condição. E nós estamos trabalhando para que isso aconteça.

Diálogo: Dizem, no Exército americano, que o sargento é o backbone (espinha dorsal) da instituição. E no Brasil?

S Ten Crivelatti: Eu responderei me permitindo plagiar o nosso comandante do Exército, o General Villas Bôas. Ele é muito sábio em dizer que “o sargento, o praça é a base sólida que sustenta a estrutura do nosso Exército”. Então, em vez de backbone, temos uma base sólida que sustenta a estrutura do nosso Exército. E realmente é o nosso praça, o nosso sargento que tem a capacidade de fazer isso.

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