Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Forças Armadas e Polícia manterão efetivo atual na Colômbia pós-conflito

A história da Colômbia lhe forneceu a experiência que ela pode compartilhar agora durante as missões de manutenção da paz.
Marcos Ommati/Diálogo | 16 setembro 2016

O General de Divisão Juan Bautista Yepes Bedoya, sub-chefe do Estado Maior Conjunto Operacional das Forças Militares da Colômbia, durante a SOUTHDEC 2016. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Entre os novos papéis dos militares na América Central e do Sul e Caribe, o mais importante para a Colômbia é a participação de suas forças militares na luta contra o narcotráfico. Mas faz pouco mais de um ano, o país assinou um acordo com a Organização das Nações Unidas para expandir a participação colombiana nas missões de paz no estrangeiro.

Para falar deste e de outros temas, Diálogo conversou com o General de Divisão Juan Bautista Yepes Bedoya, atual sub-chefe do Estado Maior Conjunto Operacional das Forças Militares da Colômbia, durante a conclusão do SOUTHDEC 2016, conferência levada a cabo em Montevidéu, Uruguai, de 18 a 20 de agosto.

Diálogo: Que progresso se alcançou até agora com relação à participação das Forças Militares da Colômbia desde o acordo firmado em 2015?

General de Divisão Juan Bautista Yepes Bedoya: O Governo da Colômbia e as Forças Armadas estão muito interessados em participar das operações e missões de paz. Já temos um batalhão na Península do Sinai que já participa desta experiência no Oriente Médio há aproximadamente uns 25-30 anos e que tem muito interesse em participar de outras missões pelo mundo. Em pronunciamento, o governo declarou a intenção de utilizar inicialmente 5.000 de nossos homens para participarem na África. Isto é importante, porque estamos aprendendo com outros países. Estamos aprendendo com os Estados Unidos, a Argentina, Chile e Uruguai, todos países participantes, com uma vasta experiência neste sentido. O que estamos fazendo agora é a aproximação política, preparando as tropas para serem utilizadas nessas operações de paz em um futuro não muito longínquo. Isto é muito importante para as Forças Armadas e para a Colômbia, por todas as experiências que alcançamos durante todos estes 50 anos de conflito interno. Queremos que as tropas e a nossa Polícia Nacional estejam observando outros mundos e outras experiências diferentes, a fim de participar no planeta de toda esta onda de tranquilidade e paz que as comunidades tanto necessitam.

Diálogo: E isto ajudaria também na reorganização das Forças Armadas colombianas depois da concretização do acordo de paz, certo?

Maj. Gen. Yepes: Sim, é importante dizer também que as Forças Armadas e a Polícia não vão diminuir, na verdade, vão manter o mesmo numero de efetivos e continuar a cumprir sua missão pois, apesar da paz firmada com as FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], ainda restam outras estruturas à margem da lei que o Estado precisa combater com toda a força. Continuamos a cumprir nossa missão que é a de acabar com estas organizações à margem da lei, nos aproximarmos mais um pouco das fronteiras, o que é verdadeiramente a missão das Forças Armadas, que acabou ficando um pouco de lado pela mesma situação de conflito interno, e preparar-nos para outros misteres e outras obligações, tais como as operações de paz.

Evidentemente que isto obriga as Forças Militares – em especial, o Exército, mas agora também a Marinha e, faz pouco, a Força Aérea – a fazerem uma reestruturação ou reorganização de seus comandos e de seus estados-maiores, enfim, da estrutura. Por exemplo, o Exército tem unidades novas porque já há missões que terminaram e agora começam outras. Estamos vendo uma mudança total das Forças Armadas naquilo que tem a ver com sua organização e estruturação.

Diálogo: Depois de mais de 50 anos de luta armada interna, que lições a Colômbia adquiriu para mostrar aos outros países, principalmente os centro-americanos, que travam no momento uma luta muito forte contra o narcotráfico?

Maj. Gen. Yepes: É importante esclarecer alguns termos e conceitos. Não se deve ignorar esta função que as Forças Militares têm de defesa do Estado e de defesa destes objetivos e interesses nacionais. Mas, ao mesmo tempo, a Colômbia tem uma atitude de cooperação e diálogo com os países vizinhos do hemisfério e, evidentemente, com os países dos outros continentes. Mas o ânimo principal é o de dialogar, falar, ajudar a solucionar os problemas. No entanto, há já algum tempo, devido ao mesmo conflito armado, temos ocupado as funções de polícia, tais como as operações de controle militar de áreas, segurança dos municípios, segurança das comunidades, e tudo que tem a ver com esse conceito de segurança que é mais coisa de polícia, tal como a convivência cidadã. Mas, nesse caso, temos prestado assistência militar à Polícia e feito operações coordenadas com a mesma, sem perder os papéis definidos, mas trabalhando de maneira conjunta e coordenada. Então aprendemos muito uns com os outros. E não é raro ver nossos generais e comandantes de forças planejando operações com o diretor da Polícia. Creio que esta interoperabilidade é o que mais podemos compartilhar com os demais países.

Diálogo: Outra área em que as forças militares colombianas têm muita experiência é em ajuda humanitária, em casos de desastres, etc.. Esta também poderia ser compartilhada com outros países?

Maj. Gen. Yepes: Sim, é muito importante o que você acaba de dizer, porque estamos preparados também para isto. Temos preparado unidades tanto de nossas forças militares como de polícia para atender em caso de desastres naturais, inundações, sismos, terremotos… e o fazemos também de maneira conjunta e coordenada entre as quatro forças. Temos então uma grande acumulação de experiências que aplicamos em nosso país, sendo que também prestamos ajuda de cooperação a outros países. Todo este conhecimento está a disposição de outros países que o necessitem.

Diálogo: Como vai a ser a relação com os Estados Unidos de agora em diante?

Maj. Gen. Yepes: Outra pergunta muito boa. Temos mantido essa aliança com os Estados Unidos, mas também nos abrimos a outras latitudes, a outros mundos e a outros países, que também veem na Colômbia a oportunidade de oferecer sua ajuda e cooperação. Entre eles, o Brasil e os países da América do Sul. Eles têm nos dado muita atenção e apoio também e estão dispostos a transmitir seus conhecimentos, aprendizados e lições aprendidas com seus próprios povos.

Então, como vai ser agora a relação com o país do norte? Vai ser uma relação bem enfocada, nem tanto agora na área militar, mas mais orientada ao desenvolvimento de territórios na Colômbia, no sentido de poder levar apoio e desenvolvimento social e econômico a estas zonas isoladas e abandonadas pelo país, onde antes havia uma marcada influência, domínio e controle das organizações à margem da lei, tais como as FARC e o ELN [Exército de Liberação Nacional]. Digamos que a ajuda dos Estados Unidos se canaliza numa ação unificada para desenvolver estes territórios e comunidades e ajudá-los a desenvolver sua infraestrutura, seus projetos de substituição de cultivos lícitos com projetos de produção para que possam se desenvolver social e economicamente.

Diálogo: O programa “Fé na Colômbia” tem muito que ver com isto, não é mesmo?

Maj. Gen. Yepes: Sim, o projeto “Fé na Colômbia” é o primeiro plano piloto. Nasceu no Comando Conjunto do Oriente, que está localizado na costa colombiana do Pacífico. É um trabalho do nosso Exército da Colômbia e, em especial, do nosso comandante do Exército, o General Valência, que foi comandante de uma força-tarefa ali. Ele foi comandante dessa divisão e desenvolveu umas estratégias para nos aproximar da comunidade e ajudar a desenvolver justamente as comunidades afrodescendentes das áreas rurais e mediar para acabar com os problemas sociais que havia ali entre eles. Eles viam as Forças Armadas e o Governo como algo intocável o como algo que não os ajudava no seu ambiente, em seus terrenos e suas famílias. Aí o plano “Fé na Colômbia” tem sido muito importante porque as Forças Militares trabalharam com eles a partir de um ponto de vista de apoio a essas comunidades, fazendo-os entender que são colombianos, que necessitam de apoio, que somos todos iguais e que temos que seguir em frente.

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