Colômbia: Governo e FARC iniciam negociações de paz

Há dez anos, rebeldes das FARC dominaram um avião de passageiros, forçaram o pouso em uma pista abandonada e sequestraram um senador colombiano a bordo. O ato de terrorismo foi a última gota para o governo colombiano, que declarou o fim de três anos de negociações de paz.
John Otis | 10 setembro 2012

BOGOTÁ — Há dez anos, rebeldes das FARC dominaram um avião de passageiros, forçaram o pouso em uma pista abandonada e sequestraram um senador colombiano a bordo. O ato de terrorismo foi a última gota para o governo colombiano, que declarou o fim de três anos de negociações de paz.

Agora, ambos os lados preparam-se para mais uma rodada de conversações com vistas a acabar com o conflito que começou em 1964. Em um discurso em 4 de setembro, o presidente Juan Manuel Santos afirmou que as negociações teriam início em Oslo, Noruega, no começo do mês que vem, com outras sessões previstas para Havana, Cuba. Mas Santos também declarou: “Nós aprendemos com os erros do passado”.

De fato, agora, as melhor equipadas forças armadas colombianas estão em vantagem após uma longa ofensiva que reduziu as forças rebeldes à metade e matou muitos dos principais líderes das FARC — as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Como consequência, muitos analistas acreditam que a organização terrorista finalmente deve depor as armas.

“Há motivos para otimismo… porque o governo está em uma posição muito melhor para negociar”, escreveu o analista político Pedro Medellin no diário El Tiempo, de Bogotá. E se as negociações fracassarem, “o exército e a polícia estão bem preparados para enfrentar os guerrilheiros”.

Mas, ao mesmo tempo, a ofensiva militar do governo não conseguiu eliminar as FARC, que faturam milhões com o comércio de drogas ilegais e continuam sendo uma força letal, ainda que enfraquecidas.

Economistas calculam que a guerra, que começou em 1964, consome entre 1 e 2 por cento do PIB anual do país. Um tratado de paz iria liberar grandes somas atualmente empregadas no conflito para saúde, educação, infraestrutura e outros projetos de grande necessidade em zonas rurais, onde as FARC sempre recrutaram camponeses desprovidos de quaisquer recursos.

“Estou convencido de que, hoje, as condições são propícias para o acordo de paz na Colômbia”, diz Jan Egeland, um antigo enviado da ONU que monitorou a última rodada de negociações entre 1999 e 2002. “Ambos os lados, governo e rebeldes, finalmente entenderam que a única chance de acabar com o conflito é uma solução negociada. Isso não ficou claro em 1999.”

Contingente das FARC foi reduzido de 15.000 para 8.000

De fato, à época, as FARC estavam no seu apogeu militar, com 15.000 combatentes atuando em 31 dos 32 departamentos colombianos, e mantinham refém centenas de pessoas, inclusive funcionários do governo. Apenas para convencer as FARC a sentar e negociar, o governo concordou em retirar tropas de uma faixa territorial de 4.200 km² no sul do país.

Mas, ao invés de levar a proposta a sério, as FARC usaram a zona desmilitarizada para lançar ataques, recrutar soldados, capturar reféns e cultivar coca — a matéria-prima da cocaína. Os rebeldes brincaram com os enviados do governo porque achavam que logo triunfariam e marchariam em Bogotá.

Entretanto, as forças armadas colombianas se reagruparam, se expandiram e partiram para o ataque. O número total de membros do exército, marinha, fuzileiros, aeronáutica e polícia — que compõem o Ministério da Defesa — saltou de 291.000 em 1999 para os atuais 431.000. A melhoria do poder aéreo e da inteligência abriram caminho para uma série de ataques que eliminaram os principais comandantes das FARC, arrasando o moral das tropas e levando a deserções em massa.

Hoje, as FARC estão reduzidas a cerca de 8.000 membros que não mais ameaçam Bogotá, Cali e outras grandes cidades como faziam há uma década. Sem poder executar ataques em massa contra cidades e bases militares, as FARC recorrem principalmente a minas terrestres e atiradores de elite para emboscar as tropas do governo. Apesar de terem capturado e detido um jornalista francês por quase um mês no início do ano, as FARC prometeram parar com o sequestro de civis e não mais mantêm em cativeiro funcionários do governo como instrumento de barganha.

FARC: Vamos negociar ‘sem rancor ou arrogância’

Todos estes fatores parecem ter convencido as FARC de que a guerra não pode ser vencida e que chegou a hora de fechar um acordo. Em um vídeo rebelde postado na Internet esta semana, o supremo líder das FARC, Rodrigo Londoño Echeverri — vulgos “Timoleón Jiménez” ou “Timochenko” — afirma que as FARC estão preparadas para negociar “sem rancor ou arrogância”.

Em seu discurso à nação, Santos garantiu aos colombianos que estas negociações de paz seriam radicalmente diferentes das de 10 anos atrás. Com as rodadas acontecendo no exterior, disse, não há necessidade de desmilitarização. O presidente afirmou que as conversações durariam meses, em vez de anos. Ele também descreveu cinco pontos de negociação centrados na desmobilização das FARC — ao contrário da enorme agenda da última vez, que incluía de tudo, desde reformas constitucionais à gestão dos recursos naturais do país.

Alguns especialistas pressionam por um cessar-fogo e afirmam que a luta contínua de 10 anos atrás ajudou a arruinar a última rodada de negociações. Mas Daniel García-Pena, um ex-enviado de paz do governo, assinalou que o cessar-fogo pode também agravar o ambiente de negociações. Segundo ele, são normalmente violados, provocando acusações de ambos os lados e impedindo a assinatura final do tratado de paz.

Por hora, Santos prometeu que as forças colombianas prosseguirão na ofensiva. Em 3 de setembro, tropas do exército mataram nove membros das FARC nos departamentos de Guaviare e Caquetá, no sul do país.

“As forças armadas estão cientes de que se trata de um momento histórico”, comentou o general Alejandro Navas, comandante das forças armadas do país, sobre as negociações de paz em andamento. “Mas a melhor maneira de apoiar a decisão presidencial é continuar com a ofensiva militar, por terra, ar e água, contra as ameaças armadas e terroristas contra o Estado.”

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