Colômbia e Equador aumentam operações contra o terrorismo na fronteira

Ambos os países acordaram um novo plano de segurança, que já apresenta resultados.
Yolima Dussán/Diálogo | 18 maio 2018

Ameaças Transnacionais

Unidades especializadas das Forças Militares da Colômbia foram destacadas para a fronteira entre a Colômbia e o Equador, para militarizar a zona de fronteira, até nova ordem. (Foto: Comando Geral das Forças Militares da Colômbia)

O assassinato de três pessoas de uma equipe de jornalismo do jornal equatoriano El Comercio, em 13 de abril de 2018, na fronteira com a Colômbia, levou as autoridades de ambos os países a reforçarem as medidas de segurança com operações combinadas, para garantir a tranquilidade da região. Os jornalistas foram sequestrados três semanas antes por membros das dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), lideradas pelo vulgo Guacho, na paróquia Mataje, da província equatoriana de Esmeraldas.

“A reação binacional será contundente; não vamos esmorecer diante disso”, expressou à imprensa a chanceler da Colômbia María Ángela Holguín. “Tomaremos todas as medidas necessárias para desmantelar a estrutura do [vulgo] Guacho e para ter uma fronteira segura, onde o povo equatoriano e o povo colombiano possam viver tranquilos.”

Os ministros da Defesa e os altos comandos militares realizaram uma reunião extraordinária da Comissão Binacional de Fronteira, em 17 de abril, em Quito, Equador. O conselho esteve constituído no contexto do denominado mecanismo de cooperação 3+2, que estabelece a participação dos ministérios de Relações Exteriores, da Defesa e do Interior de ambas as nações.

As autoridades acordaram em aumentar as operações militares e de polícia, com trabalhos contínuos de 24 horas, na província de Esmeraldas e em Tumaco, Colômbia. Além disso, estão oferecendo uma recompensa de US$ 230.000 por informações que permitam a captura do vulgo Guacho, suposto líder da frente Oliver Sinisterra das FARC-EP [Exército Popular], formado por 150 criminosos.

“O presidente Santos entende a dor do presidente Moreno e dos equatorianos pelos fatos trágicos”, disse a chanceler Holguín. “O assassinato dos jornalistas do diário El Comercio, os quatro fuzileiros navais assassinados e o sequestro de dois equatorianos por parte da gangue criminosa chefiada pelo vulgo Guacho merecem o repúdio da Colômbia e do mundo inteiro.”

Reação binacional

A cúpula das Forças Militares da Colômbia foi transferida para um posto de comando estabelecido em Tumaco, a fim de dirigir pessoalmente a operação militar para controlar a fronteira. “Essas operações serão mantidas de maneira coordenada com as autoridades do Equador com helicópteros, aviões e tropas de nossas forças, para controlar a fronteira e encontrar os responsáveis por esses sequestros e assassinatos”, disse na reunião o ministro da Defesa da Colômbia Luis Carlos Villegas.

O primeiro resultado das operações foi em 18 de abril, com a detenção de Vicente Cánticus Pascal, vulgo Brayan, o lugar-tenente de Guacho e dissidente das FARC. “Esse chefe está envolvido em ataques contra a polícia e torres de transmissão de energia, que deixaram sem eletricidade os 200.000 habitantes de Tumaco”, informou o General-de-Exército Ricardo Gómez Nieto, comandante do Exército Nacional da Colômbia.

O comando equatoriano esteve presente com o General Inspetor Miguel Ramiro Martilla Andrade, comandante-geral da Polícia Nacional do Equador. “Com nossos homólogos equatorianos existe uma coordenação e comunicação permanentes, para articular esforços e localizar os responsáveis pelos crimes na fronteira, bem como qualquer atividade criminosa”, asseverou o Gen Ex Nieto.

O alto comando das Forças Militares da Colômbia foi transferido para a zona fronteiriça, para dirigir as operações da Força-Tarefa Hércules, junto com seus homólogos do Equador. (Foto: Comando Geral das Forças Militares da Colômbia)

Represália do narcotráfico

Cerca de 10.000 membros da força pública da Colômbia e do Equador mantêm intensas operações. Até o dia 23 de abril, 43 supostos dissidentes das FARC haviam sido capturados. Em 24 de abril, tropas da Força Naval do Pacífico da Colômbia apreenderam meia tonelada de cocaína em operações efetuadas em Cabo Manglares, área rural do município de Tumaco. O alcaloide, escondido em um depósito subterrâneo, teria um valor superior a US$ 20 milhões no mercado internacional.

“O conceito desenvolvido na fronteira tem procedimentos integrados em uma linha de 120 quilômetros de comprimento por 50 quilômetros de largura”, informou em coletiva de imprensa o General-de-Exército Alberto José Mejía, comandante-geral das Forças Militares da Colômbia. “Sobre esse eixo realizamos operações de espelhos táticos e patrulhas de lado a lado, como também operações de controle territorial, ofensivas e operações contra o narcotráfico. Posicionamos recursos humanos e tecnológicos em toda a área, para controlar o espaço aéreo e otimizar a inteligência.”

Apesar da intensidade da operação, em 24 de abril o grupo terrorista dissidente conseguiu sequestrar mais duas pessoas na fronteira. “Trata-se de comerciantes da zona de Esmeraldas, pelos quais os delinquentes pedem, em troca, a liberação de dois colombianos e de um equatoriano pertencentes às FARC”, confirmou em coletiva de imprensa o ministro da Defesa do Equador Patricio Zambrano.

O funcionário explicou a presença do grupo armado e seus frequentes ataques pela necessidade de transportar droga para fora através do Equador, através do rio Mataje. “Toda semana retiravam toneladas de cocaína. Nós freamos esse tráfico e hoje temos sua represália, dolorosa, porque ela cobrou vidas. Os culpados são os Guachos, que foram declarados inimigos do Equador.”

Quem é esse vulgo Guacho?

A verdadeira identidade do vulgo Guacho é Walter Patricio Artízala Vernaza, um cidadão equatoriano, ex-militante de uma frente das FARC, encarregado de cuidar dos cultivos ilícitos de coca na fronteira colombiana com o Equador. O criminoso dissidente esteve na guerrilha até fins de 2016, quando se desligou ao rejeitar as condições do acordo de paz.

“O vulgo Guacho seria o braço armado do Cartel de Sinaloa no México”, disse o procurador geral da Colômbia Néstor Humberto Martínez, em Cartagena. “Essa situação pode se tornar um problema geopolítico para a região. Ela reviveu um inimigo da Colômbia: o narcotráfico. É necessário recriar as políticas antidrogas, senão vamos perder a estabilidade institucional. É um imperativo ético, político, econômico e de instinto de conservação.”

Depois da crise de segurança desencadeada na fronteira, o governo do Equador anunciou sua retirada como avalista dos diálogos de paz entre a Colômbia e o Exército de Liberação Nacional. “Apesar dessa situação, são boas as relações entre Quito e Bogotá; nosso inimigo comum é o vulgo Guacho. Vamos prendê-lo e levá-lo à justiça”, manifestou em um comunicado o ministro da Zambrano. “Não permitiremos que a criminalidade se aproprie de nosso país.”

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