Relação América Latina-China multiplica presença das máfias

Grupos criminosos chineses na América Latina cometem crimes de tráfico de pessoas, narcotráfico, extorsão contra estabelecimentos comerciais, corrupção e venda de produtos falsificados.
Gustavo Arias Retana/Diálogo | 1 março 2019

Ameaças Transnacionais

Um comerciante brasileiro protesta contra a venda de produtos falsificados e de má qualidade fabricados na China, cujos vendedores não pagam impostos e fazem uma concorrência desleal ao seu negócio em Brasília. (Foto: Evaristo SA, AFP)

Os sintomas se repetem nos países da América Latina que fortaleceram seus vínculos com a China nos últimos anos: os estabelecimentos comerciais asiáticos se multiplicam e não se sabe de onde provêm os recursos, casos de tráfico de pessoas com práticas típicas de escravidão estão sendo descobertos e se percebe a presença de novos operadores em diferentes atividades ilícitas, como a falsificação de produtos, documentos e dinheiro. Por trás disso se encontram as máfias chinesas que, como explica Antonio Barrios, especialista em relações internacionais e segurança da Universidade Nacional da Costa Rica, expandiram suas operações na América Latina durante os últimos 15 anos e causam um impacto cada vez mais nocivo na região.

“Na medida em que as relações dos países latino-americanos com a China se aprofundam, começam a surgir atividades ilícitas relacionadas às máfias”, disse Barrios à Diálogo. “A ideia do governo chinês sempre foi dar mais poder às suas colônias na América Latina através do estabelecimento de negócios; seu financiamento tem estado ligado às máfias e é devido a este financiamento que esses grupos criminosos vêm expandindo seus tentáculos na América Latina.”

Alejandro Riera, especialista em crime organizado radicado na Espanha e autor do livro A máfia chinesa: as tríades, sociedades secretas, explicou que as quadrilhas se caracterizam sobretudo pelos seus atos de violência para expandirem seu território rapidamente. “As máfias chinesas se caracterizam pela sua violência. Estamos vendo isso na Argentina, onde donos de supermercados chineses são baleados por não pagarem o imposto de proteção.”

A violência é a base da atividade das máfias chinesas na região. Juan Belikow, especialista argentino em questões de segurança da Universidade de Buenos Aires, disse que muitos dos seus rendimentos estão relacionados com a extorsão contra outros cidadãos chineses que têm negócios na América Latina. “Na nossa região, é comum que exerçam a extorsão dentro da própria comunidade chinesa, e isso está inteiramente relacionado à expansão dos supermercados chineses na América Latina”, declarou Belikow. “Nesses estabelecimentos se vendem mercadorias roubadas e falsificadas. Além disso, esses negócios causam muita evasão [fiscal], porque quase sempre trabalham com dinheiro vivo; mas o mais importante é que os comerciantes têm que pagar boa parte da sua receita às máfias, para garantir sua segurança.”

Segundo os três especialistas, as máfias financiam os cidadãos chineses para que eles se estabeleçam na América Latina e, em troca, eles pagam mensalmente boa parte dos lucros obtidos nos negócios desenvolvidos na região, como por exemplo os supermercados. Os pagamentos incluem tanto as dívidas que contraíram para vir para a América Latina, como a suposta proteção oferecida pelas máfias. 

Vínculo direto com o tráfico de drogas

O narcotráfico é outro setor com crescente presença das máfias chinesas, segundo Riera e Belikow. De acordo com um relatório da BBC sobre a indústria global do narcotráfico, a Triada, como é conhecida a máfia chinesa, adquiriu um papel preponderante entre as redes criminosas narcotraficantes na América, Ásia e Oceania.

Um supermercado em La Paz, Bolívia, só vende produtos procedentes da China a preços baixos devido à sua má qualidade, o que causou o fechamento de pequenas lojas de comerciantes locais. (Foto: Aizar Raldes, AFP)

“Uma das atividades mais nocivas à saúde é a produção de metanfetaminas, por exemplo. As máfias são as grandes produtoras e distribuidoras de drogas sintéticas na região. Elas levam essas drogas para a América Latina e dali são transportadas por suas redes ou pelas redes que estabelecem com outros criminosos da região. Além disso, há um grande movimento de drogas como a maconha em regiões como a Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai”, comentou Belikow.

Barrios explicou que as máfias chinesas conseguiram entrar no tráfico de drogas graças aos vínculos criados com traficantes latino-americanos. As máfias facilitam a lavagem do dinheiro da droga fabricada na Ásia.

“Os chineses decidiram se unir às máfias autóctones que conhecem bem o terreno e sabem como funcionam os governos e as leis, para facilitar seu ingresso e para que possam jogar com as regras próprias de cada país”, garantiu Barrios. “As máfias chinesas tiveram que se vincular a outros grupos criminosos de países onde desejam abrir espaço, e conseguiram esse vínculo como facilitadoras da lavagem [de dinheiro].”

A Administração para o Controle de Drogas dos Estados Unidos já havia advertido em seu relatório Avaliação Nacional de Ameaça de Drogas, de outubro de 2017, que grupos criminosos do México, da Colômbia e da Venezuela utilizam seus contatos com as máfias chinesas para lavar dinheiro através de instituições bancárias do país asiático. “Elas desempenham um papel chave na lavagem dos lucros das drogas ilícitas. As organizações criminosas transnacionais asiáticas envolvidas na lavagem de dinheiro contratam seus serviços e, em alguns casos, trabalham em conjunto com outros grupos criminosos, como as organizações criminosas transnacionais mexicanas, colombianas e dominicanas”, afirmou o relatório.

Porta para a corrupção

O avanço das máfias chinesas na região acarreta outros crimes, pois as organizações buscam ter acesso ao poder através da corrupção dos funcionários. “Não há dúvida de que existe uma espécie de cumplicidade do Estado; alguns supermercados obtiveram sua licença de forma pouco clara, outros utilizam métodos que violam as normas sanitárias. É evidente que há uma questão de corrupção impossível de se ignorar. As máfias funcionam assim e onde quer que elas estejam sempre surgem tendências de corrupção”, explicou Belikow.

Para a América Latina, a presença das máfias chinesas é um fator preocupante e representa um desafio à segurança. A aproximação com o país asiático não apenas favorece os interesses do governo chinês na região, mas também abriu as portas a organizações criminosas violentas, e isso traz efeitos devastadores. As medidas para deter esse avanço são urgentes.

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