Projetos agrícolas chineses na Venezuela produzem corrupção e não comida

O acordo Venezuela-China não se concretizou, permitindo que uma companhia chinesa lucrasse, enquanto a população lutava para satisfazer suas necessidades básicas e de alimentos.
Voz da América | 12 junho 2019

Ameaças Transnacionais

Um homem entra em uma filial da Banca Privada d’Andorra, em Andorra. A Rede de Fiscalização de Crimes Financeiros do Departamento do Tesouro dos EUA acusou publicamente a Banca Privada d’Andorra por facilitar deliberadamente transações para terceiros praticantes de lavagem de dinheiro, que agiam em nome de organizações criminosas transnacionais na Rússia e na China, bem como a estatal petrolífera da Venezuela. (Foto: Pascal Pavani, AFP)

No estado venezuelano de Delta Amacuro, no Mar do Caribe, uma grande empresa chinesa de construção assinou um acordo com o ex-presidente do país Hugo Chávez. A empresa estatal construiria novas pontes e estradas, um laboratório de alimentos e a maior fábrica de processamento de arroz da América Latina.

Segundo o acordo de 2010, a empresa chinesa CAMC Engineering Co, Ltd. deveria criar campos de arroz em uma superfície equivalente ao dobro de Manhattan, na cidade de Nova York. O projeto criaria empregos para 110.000 habitantes da região. “O poder do arroz! O poder da agricultura!”, escreveu Chávez na sua conta no Twitter, na ocasião.

Nove anos mais tarde, a população local está com fome. Existem poucos empregos e a construção da fábrica não passou da metade. Sua produção é de menos de 1 por cento do previsto. As pessoas que conhecem o projeto dizem que a fábrica não produziu um só grão de arroz no lugar. No entanto, a CAMC e alguns poucos parceiros venezuelanos ganharam dinheiro. 

Processo judicial em Andorra revela corrupção 

Contratos de projetos e documentos jurídicos de uma investigação na Europa mostram que a Venezuela pagou à CAMC pelo menos US$ 100 milhões pelo empreendimento. Repórteres da agência de notícias Reuters examinaram milhares de páginas de documentos jurídicos do processo da CAMC. Os documentos foram elaborados em Andorra, um pequeno país nas montanhas entre a França e a Espanha. Os advogados locais alegam que os venezuelanos envolvidos no projeto tentaram lavar dinheiro ilícito recebido da CAMC para ajudar a garantir o contrato.

Andorra é conhecida por sua grande indústria financeira, mas devido à corrupção generalizada, o governo do país decidiu colocar em ordem suas práticas bancárias. Em 2015, o país assumiu o controle da Banca Privada d’Andorra. O banco privado lidava com dinheiro de autoridades venezuelanas, suas famílias e amigos. O relatório da Reuters expõe ao público o acordo da Venezuela com a China pela primeira vez.

Em setembro de 2018, um juizado da corte suprema de Andorra alegou que a CAMC havia pago mais de US$ 100 milhões em subornos a diversas autoridades venezuelanas, para garantir contratos de cinco projetos agrícolas para a empresa chinesa. O resultado, de acordo com os promotores, foi uma cultura de subornos de longo alcance. O dinheiro chegava aos venezuelanos bem-relacionados através de contas em bancos estrangeiros.

Tais pagamentos desviaram ilegalmente o dinheiro de projetos que deveriam desenvolver as regiões pobres e abandonadas da Venezuela. A corte de Andorra condenou 12 venezuelanos por crimes que incluíam lavagem de dinheiro. Nem a CAMC nem qualquer um dos seus mandantes foram incluídos na acusação.

Projetos abandonados 

Desde 2007, a China já investiu mais de US$ 50 bilhões na Venezuela, principalmente sob a forma de acordos de empréstimos por petróleo, mostram os documentos do governo. Em um discurso feito em 2017, o presidente venezuelano Nicolás Maduro disse que as empresas chinesas haviam feito um acordo para realizar 790 projetos em áreas que abrangiam de petróleo a empreendimentos imobiliários e telecomunicações. Desses, 495 foram concluídos, segundo Maduro.

Alguns empreendimentos foram retardados devido à corrupção, disseram conhecedores dos projetos. Outros foram atrasados devido à má administração e falta de supervisão.

Em Delta Amacuro, até as autoridades governamentais dizem que uma combinação de corrupção e má administração arruinaram o projeto do arroz. “O governo o abandonou”, disse Victor Meza, que pertence à agência de desenvolvimento rural da Venezuela que trabalhava com a CAMC. “Está tudo perdido. Tudo foi roubado.”

Durante uma recente visita a Delta Amacuro, a Reuters encontrou a fábrica de arroz da CAMC ainda inacabada. Apenas em uma área de armazenamento havia grãos, ocupando a metade de sua capacidade. Parte do maquinário estava funcionando, mas processava arroz importado do Brasil. Não havia fábricas nos arrozais da região, o laboratório estava incompleto e as estradas e pontes ainda não foram construídas. 

Nós não produzimos nada

A principal cidade de Delta Amacuro, Tucupita, tem 86.000 habitantes. Antigamente, Tucupita era parada dos navios que levavam mercadorias das fábricas no interior para os compradores no Caribe e outros lugares. Em 1965, o governo represou o rio vizinho. A água do mar causou danos à terra. Quando Chávez se tornou presidente em 1999, só havia ali uma pequena agricultura.

“Quando eu era criança, havia arroz por toda parte”, disse Rogelio Rodríguez, um agrônomo local. “Agora não produzimos mais nada.”

Em 2009, Chávez e Xi Jinping, então vice-presidente da China, aumentaram um fundo conjunto que os dois países haviam criado através do acordo de desenvolvimento de 2007. Chávez prometeu fornecer petróleo a Pequim “durante os 500 próximos anos”. Na ocasião, ele anunciou o plano de redesenvolvimento da área no entorno de Tucupita.

No entanto, o progresso era lento. Os trabalhadores chineses falavam mal o espanhol e se desentendiam com as equipes locais, de acordo com engenheiros que trabalhavam no projeto. Maduro se tornou presidente em 2013, pouco depois da morte de Chávez, e tentou fazer algo com o projeto inacabado.

Arroz importado do Brasil é empacotado à mão 

Em fevereiro, o ministro da Agricultura da Venezuela Wilmar Castro inaugurou a fábrica “Hugo Chávez”. Ele cortou uma fita à frente de sacos de arroz com fotos das bandeiras da Venezuela e da China. Uma pessoa que estava na cerimônia disse que ninguém da CAMC havia comparecido ao evento.

Ao invés de usar máquinas capazes de processar 18 toneladas de arroz por hora, os trabalhadores estão empacotando manualmente o arroz importado. “Não há um grama de arroz produzido aqui”, disse Mariano Montilla, um habitante local de 47 anos que vive das suas poucas colheitas nas terras de baixa qualidade da área.

“A ideia parecia ser revolucionária”, disse Montilla sobre a promessa de Chávez. “Agora estamos morrendo de fome.”

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