China tenta dominar espaço cibernético

O país asiático aspira a se tornar uma superpotência tecnológica para controlar as comunicações através de um sistema de informação instantânea e inviolável.
Julieta Pelcastre/Diálogo | 19 abril 2019

Ameaças Transnacionais

A Academia de Ciências da China mostra seu laboratório de simulação quântica, no dia 25 de maio de 2016, em Xangai. (Foto: Cai Yang, AFP)

A internet quântica promete comunicações na velocidade da luz e, teoricamente, com segurança inviolável. Para operar, necessita de uma rede de computadores quânticos capazes de enviar e receber enormes quantidades de informação em unidades denominadas qubits, ou bits quânticos. Em maio de 2016, a empresa americana IBM apresentou o primeiro modelo de computador quântico, o Q Experience. 

Pequim iniciou seus experimentos na internet quântica em 2017, com uma rede de satélites e computadores capazes de compartilhar informações em todo o mundo numa velocidade nunca experimentada. A China estima que as comunicações quânticas englobarão diversos países até 2030 e tenta exportar seu sistema de controle de informação para levar adiante os seus planos de liderança tecnológica, disse a Academia Chinesa das Ciências (CAS, em inglês) na sua página na internet. O plano é construir um sistema de transmissão de informação instantânea subordinado ao Estado.

“Com esta tecnologia, a China busca controlar o intercâmbio global de informação para se destacar como protagonista no cenário mundial”, disse à Diálogo Luis Gómez, sociólogo e professor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). “Se uma potência, [sem levar em consideração] a sua linha ideológica ou política, dominar a informação, ela poderá fazer com os demais países o que bem entender”, acrescentou à Diálogo Leobardo Hernández, chefe do Laboratório de Informática do Centro Tecnológico Aragón da UNAM.

A América Latina faz parte do projeto chinês e deve estar alerta diante dessa ferramenta, porque isso poderia influir no seu âmbito político, econômico e social. “Caso não mantenham a liderança no desenvolvimento de tecnologias, os países latino-americanos ficarão defasados”, disse à Diálogo Juan Pablo Salazar, especialista em questões de cibernética da Universidade de Medellín, Colômbia. “Eles [utilizarão] a tecnologia desenvolvida por outras nações como a China, que constrói seu poder de domínio no espaço cibernético e físico para os próximos anos.”

O projeto quântico

Depois do lançamento do Q Experience pela IBM, a China iniciou uma rede de internet quântica de Pequim até Xangai, com um satélite quântico denominado Micius. Instituições governamentais, bancos e outras empresas no país já utilizam a rede para transferir dados comerciais confidenciais, informou a CAS.

Com essa internet quântica, é possível transferir enormes quantidades de dados via satélite. Se os dados forem interceptados, eles se autodestroem, o que torna impossível que a informação possa ser utilizada por alguém não autorizado, garante a revista científica MIT Technology Review em um artigo no seu website.

“Esse modelo tem suas limitações. Os fótons podem ser absorvidos pela atmosfera ou pelos materiais dos cabos, o que significa que normalmente eles podem viajar apenas algumas dezenas de quilômetros”, disse o artigo da MIT. “A rede Beijing-Xangai soluciona este problema colocando 32 supostos ‘nós de confiança’ em diferentes pontos ao longo da rede – similares a repetidores que amplificam o sinal em cabos de dados comuns. Nestes nós, os códigos são decifrados de forma clássica e em seguida voltam a ser codificados em um novo estado quântico, para seu trajeto até o próximo ponto. Mas isto significa que os nós de confiança realmente não são tão confiáveis.”

A China lança seu primeiro satélite quântico Micius, desde o Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, no dia 16 de agosto de 2016. (Foto: Jin Liwang, AFP)

“O governo chinês procura lançar uma constelação de satélites quânticos em órbitas altas para aumentar a cobertura”, garantiu Hernández. “É uma ilusão pensar que haverá confidencialidade na internet”, acrescentou Gómez. “No momento em que a China tiver uma certa hegemonia, o país terá muito mais acesso à informação.” 

Controle, censura e doutrinação

O crescimento tecnológico chinês está focado no controle social e do cidadão. “Esse controle não pode ser visto como um padrão democrático, mas sim como um exercício arbitrário da autoridade”, disse Salazar.

“A China foi o pior abusador da liberdade na internet do mundo em 2018”, informa o relatório Liberdade na rede 2018, emitido pela organização civil Freedom House, com sede em Nova York. O relatório destacou como o controle se intensificou depois do XIX Congresso do Partido Comunista, em outubro de 2017, quando o presidente Xi Jinping consolidou a sua liderança para os próximos cinco anos. Xi planeja criar uma superpotência cibernética mundial, com o mesmo modelo autoritário de controle estrito da informação, mas abrangendo outros países.

Pequim não para de praticar invasões cibernéticas nas redes comerciais das companhias estrangeiras no país. Inclusive as obriga a transferir seus conhecimentos tecnológicos às empresas afins locais, em troca de acesso ao mercado, segundo a enquete anual 2017 do Conselho Empresarial Estados Unidos-China, com sede em Washington, D.C. “A internet quântica pode significar mais censura ou perda de liberdade, com um controle maior do Estado”, acrescentou Salazar.

“A internet quântica será uma ferramenta adicional de controle social que o país asiático utilizará. A China não apenas disponibilizará a nova tecnologia para os países latino-americanos, mas também oferecerá seu método de controle social para violar e reduzir a liberdade”, disse à Diálogo Jorge Serrano, analista independente em inteligência estratégica e professor do Centro de Altos Estudos Nacionais do Peru. “Será uma ameaça se a China for o principal agente que busca ampliar sua capacidade de espionagem industrial, política e de segurança em nível mundial.”

Regras claras

Tanto Gómez quanto Salazar disseram que se a China criar a infraestrutura de uma internet quântica’, será importante que os países latino-americanos e de todo o mundo adotem regras claras para que o uso dessa tecnologia se limite a atividades benéficas. O progresso tecnológico não deve ser utilizado para doutrinação ou como arma de guerra em qualquer cenário.

Além disso, o abuso de tecnologias quânticas por parte dos grupos criminosos pode aumentar o crime cibernético. “[Trata-se de] um cenário onde os governos e as empresas enfrentariam um risco sem precedentes, pois o ciberespaço é o novo campo de batalha das atividades criminosas e do terrorismo. A América Latina não seria a exceção”, comentou Salazar. “A internet quântica chinesa terá influência no país asiático, mas não obrigatoriamente no mundo ocidental. Felizmente Canadá, Estados Unidos, França e Inglaterra trabalham nessa tecnologia”, concluiu Gómez.

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