A guerra do chavismo contra a imprensa não tem trégua

A imprensa independente da Venezuela se transformou em uma espécie em extinção, devido à política de repressão por parte do governo.
Ricardo Guanipa D’erizans / Diálogo | 16 setembro 2019

Ameaças Transnacionais

A última edição do jornal venezuelano El Nacional foi impressa no dia 14 de dezembro de 2018 com a manchete: “El Nacional é um guerreiro e continuará na luta”. (Foto: Federico Parra / AFP)

Os ataques à liberdade de expressão e aos meios de comunicação remontam ao regime de Hugo Chávez, que tentou destruir a indústria, desacreditando a informação crítica do governo, forçando os meios de comunicação a fechar e perseguindo os jornalistas com acusações falsas. Sob o regime de Nicolás Maduro, os ataques à liberdade de imprensa foram aumentando com mais intimidações, ameaças físicas e bloqueio das páginas da mídia digital na internet.

“O primeiro inimigo a enfrentar Hugo Chávez foi a imprensa”, disse à Diálogo Patricia Poleo, jornalista venezuelana em exílio nos EUA e ex-diretora associada do jornal venezuelano El País. “Não foram nem o setor empresarial nem o setor artístico; foi a imprensa que revelou as relações do governo com a guerrilha colombiana, por exemplo [...].”

Segundo dados do Instituto Imprensa e Sociedade Venezuela (IPYSve, em espanhol), mais de 60 jornais impressos deixaram de circular desde 2013, ou seja, três quartos dos jornais do país. Apenas em 2017, informa o IPYSve, o regime fechou 40 emissoras de rádio. O IPYSve calcula que cerca de 10 estados tenham somente um meio de comunicação, e quatro não tenham nenhuma mídia impressa.

Em dezembro de 2018, o jornal El Nacional, um veículo pioneiro na Venezuela, fundado em 1943, deixou de circular em formato impresso e culpou o regime por restringir o fornecimento de papel para impressão. A hiperinflação, a crise econômica e os controles do regime também contribuem para o desaparecimento dos meios de comunicação.

“É obvio que, como em toda ditadura, em todo regime ditatorial, a liberdade de informação e a liberdade de imprensa sejam para eles [membros do regime] dois fatores extremamente incômodos e que devem ser eliminados a todo custo”, disse à Diálogo Sonia Osorio, presidente da Associação de Jornalistas Venezuelanos no Exterior, com sede em Miami, EUA. “Nós vimos isso em mais de 50 mídias impressas fechadas, com a criação leis para evitar que possam adquirir papel de impressão, negando-lhes acesso às moedas estrangeiras.”

Entre janeiro e junho de 2019, o IPYSve determinou que “pelo menos 99 meios de comunicação foram afetados em aproximadamente 142 ocasiões pelos apagões, pela censura e autocensura, pelo crime organizado e [pela falta de] gasolina e transporte”. Segundo Lisbeth De Cambra, ex-secretária geral do Colégio Nacional de Jornalistas da Venezuela, da seção de Caracas (2012-2018), foram registradas 154 agressões contra jornalistas nos primeiros meses de 2019.

A esses números, a jornalista disse à Diálogo, somam-se “67 trabalhadores de imprensa que foram privados de liberdade de forma ilegítima, entre eles 37 repórteres e jornalistas, incluindo cinegrafistas, técnicos e apresentadores, bem como quatro repórteres gráficos, entre outros.”

Perseguições, violência e prisões arbitrárias obrigaram jornalistas venezuelanos a fugir do país, declarou Osorio. “Mais de 1.000 profissionais de imprensa tiveram que sair da Venezuela. Temos afiliados perseguidos, ameaçados com processos, que foram forçados a fugir para preservar suas vidas”, disse.

Poleo viveu a perseguição. Seu segurança, German Delgado, foi torturado e assassinado em 2004 e ela foi acusada de assassinar um promotor no mesmo ano. Ela abandonou o país no ano seguinte.

“Quando cheguei nos Estados Unidos, eu disse que o caso não se tratava de Patricia Poleo, que se tratava de uma política de Estado [...]”, disse Poleo. “A perseguição contra mim serviu para intimidar outros colegas e tudo isso estimula a autocensura que tem funcionado bem para o governo.”

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