Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Comprometimento caribenho contra redes ilícitas

Trinidad e Tobago trabalham em cooperação com seus parceiros regionais para construir e manter redes a fim de confrontar os efeitos das redes de ameaças transnacionais e transregionais.
Geraldine Cook/Diálogo | 9 janeiro 2018

O Contra-Almirante Hayden Pritchard, chefe do Estado-Maior de Defesa da Força de Defesa de Trinidad e Tobago, afirma que é necessário o comprometimento regional para construir redes fortes contra as organizações criminosas internacionais. (Foto: Geraldine Cook/Diálogo)

O Contra-Almirante Hayden Pritchard, chefe do Estado-Maior de Defesa da Força de Defesa de Trinidad e Tobago (TTDF, em inglês), está focado em manter o estado de direito em vista da atividade de gangues, do potencial recrutamento de jovens para o terrorismo e da criminalidade juvenil. Como parceiro regional caribenho, o C Alte Pritchard está trabalhando para construir redes contra as atividades criminosas.

O C Alte Pritchard participou da 16a Conferência Anual de Segurança das Nações Caribenhas (CANSEC), realizada em Georgetown, Guiana, de 6 a 7 de dezembro de 2017. Os participantes da CANSEC discutiram sobre as operações regionais para combater as redes de ameaças transregionais e transnacionais (T3N, em inglês). O C Alte Pritchard falou com Diálogo sobre sua participação na CANSEC, a preocupação com a segurança que seu país enfrenta e a importância de construir redes como o fator-chave para reverter o efeito das redes ilegais na região do Caribe.

Diálogo: Qual é a importância da participação de Trinidad e Tobago na CANSEC?

Contra-Almirante Hayden Pritchard, chefe do Estado-Maior de Defesa da Força de Defesa de Trinidad e Tobago: Como parceiro regional, trata-se de fazer o que for possível a fim de contribuir para nossa rede, a rede dos que estão dispostos, a rede formada por instituições que estão interessadas em manter nosso modo de vida, nossa segurança, nossa estabilidade, nosso desenvolvimento. Para isso, a CANSEC é uma plataforma que permite compartilhar informações e estratégias a fim de garantir que estejamos seguros.

Diálogo: Qual é a maior preocupação de segurança em Trinidad e Tobago?

C Alte Pritchard: A maior preocupação é a de manter o estado de direito em face da atividade de gangues, radicalização dos jovens, criminalidade juvenil e da convergência dessas questões que exercem pressão sobre a lei e a ordem.

Diálogo: Por que a atividade de gangues em Trinidad e Tobago é uma ameaça à segurança?

C Alte Pritchard: A atividade de gangues não se restringe a Trinidad e Tobago. Esse é um problema regional e global. Há uma correlação entre as atividades das gangues e a busca de canais para a energia dos jovens, o desenvolvimento dos jovens, a economia de cada país, as redes sociais e a globalização em geral. Com base no espaço em que os jovens vivem hoje, a atividade das gangues parece ser um dos resultados comuns na maioria dos países da América Latina e do Caribe; então a experiência de Trinidad não é única.

Diálogo: Essas gangues estão ligadas ao tráfico de drogas?

C Alte Pritchard: As gangues têm de financiar suas atividades; elas são antiestado e não têm respeito pela lei. As gangues em Trinidad e Tobago se envolvem em qualquer coisa que esteja relacionada à geração de lucros e isso inclui o tráfico de narcóticos e outras formas de tráfico.

Diálogo: Trinidad e Tobago é uma rota internacional de transbordo para a movimentação de drogas na região?

C Alte Pritchard: A inteligência tradicional sugere que Trinidad e Tobago, por sua localização na ponta nordeste do continente da América do Sul, seja um local estratégico em termos de transbordo.

Diálogo: Como Trinidad e Tobago trabalha com os países vizinhos para combater as redes criminosas?

C Alte Pritchard: Há várias iniciativas que estão funcionando na Comunidade Caribenha (CARICOM, em inglês), inclusive uma estratégia antiterrorista, que atualmente está sendo revisada. Para derrotar as redes ilícitas, Trinidad e Tobago tem parceiros importantes pelo mundo em áreas como treinamento operacional, treinamento em inteligência, desenvolvimento de infraestrutura e construção de capacidade, tanto para as forças armadas como para a polícia. Também estamos interessados em participar de diferentes programas, como o Programa de Controle de Contêineres do Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, o Tratado de San José e outros acordos bilaterais com os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e outras nações.

Diálogo: O senhor está preocupado com o potencial recrutamento de jovens para o terrorismo?

C Alte Pritchard: Sem dúvida. Trinidad e Tobago tem o desafio singular – como um pequeno Estado – de cidadãos em situação legal que foram participar de atividades terroristas. Embora não tenhamos terrorismo, temos o elemento de combatentes terroristas que retornam. Há sempre uma preocupação se você tem combatentes terroristas estrangeiros que retornam; você pode ter uma forte radicalização e, quando as duas coisas se juntam, pode haver uma ameaça terrorista emergente. Até agora, estamos administrando a situação de uma maneira razoável, mas sim, estou preocupado com o fato de que, se não administrarmos a situação de forma apropriada, a coisa pode evoluir para algo muito pior.

Diálogo: Que tipo de progresso Trinidad e Tobago conseguiu a fim de evitar que os jovens participem de atividades criminosas?

C Alte Pritchard: Tradicionalmente, o governo de Trinidad e Tobago tem se concentrado nos jovens. A TTDF, em particular, possui inúmeros programas para jovens. Um deles é um programa da Academia de Treinamento Acadêmico Liderado pelas Forças Armadas (MiLAT, em inglês), que se concentra em jovens criminosos e jovens em conflito, com foco na resolução de conflitos. Temos também o Programa do Corpo de Conservação Civil. Ambos os programas buscam expor os jovens a outras opções de vida longe do crime e da violência, às quais eles talvez não tenham tido oportunidade antes. Esses programas estão indo muito bem.

Diálogo: Como funcionam esses programas?

C Alte Pritchard: O MiLAT é um programa residencial que seleciona várias pessoas que se inscrevem, seja por meio de seus pais ou por recomendação, e as forças armadas trabalham com esses indivíduos por um período de dois anos para garantir a prática de disciplina e autocontrole, mas [o programa] também é focado em objetivos específicos. Eles são então preparados para exames acadêmicos e a taxa de sucesso é bem alta.

O Programa do Corpo de Conservação Civil apresenta os jovens, em um nível inicial, a questões de serviço nacional e eles são treinados em relação a temas como desenvolvimento de certas capacitações básicas, mas também questões nacionais, como proteção ambiental. Esse é um programa rotativo de seis meses.

Diálogo: Esses programas reduziram a criminalidade entre os jovens?

C Alte Pritchard: A taxa de sucesso dos participantes em termos de não voltar para os hábitos e comportamentos negativos é bem alta. Ainda não se fez uma correlação entre o programa e as estatísticas nacionais de crimes, mas, com base nos estudos de rastreamento dos indivíduos que passam pelo programa, a taxa de sucesso é extremamente alta em relação à conduta deles e ao fato de não serem detidos ou terem problemas com os órgãos de justiça e segurança.

Diálogo: Como a TTDF protege as suas fronteiras?

C Alte Pritchard: Trinidad e Tobago tem investido muito em segurança de fronteiras. Possuímos um conceito integrado de segurança de fronteiras baseado na integração entre os serviços de alfândega, imigração, a TTDF, da qual a Guarda Costeira tem o papel principal, e a polícia, além dos órgãos de segurança dos portos. A TTDF também tem um maior papel em quanto à vigilância marítima, aérea e por radar para proteger nossas fronteiras. Além disso, Trinidad e Tobago colabora com seus parceiros regionais e internacionais no que se refere à informação e compartilhamento de inteligência para garantir fronteiras mais seguras.

 

Diálogo: O senhor está nesse cargo desde agosto de 2017. A sua perspectiva mudou desde que assumiu o comando?

C Alte Pritchard: Após alguns meses no cargo, agora estou convencido ainda mais do que antes de que para derrotar uma rede é preciso outra rede. É impossível para um Estado pequeno como Trinidad e Tobago lidar sozinho contra as redes transnacionais e sua capacidade. Assim, a maior conclusão a que chegamos é a da necessidade de as agências dentro de Trinidad e Tobago formarem uma rede e estarem tão comprometidas quanto nossos adversários, mas também de as agências fora de Trinidad e Tobago terem uma abordagem mais coerente em termos de como agir em rede e compartilhar recursos.

Diálogo: O senhor mencionou que um dos principais desafios em termos de rede é a criação de capacidade e implementação. O senhor pode dar mais detalhes sobre isso?

C Alte Pritchard: Uma rede é boa na medida em que seus participantes ou os elementos que compõem as redes são bons. A ideia vem da perspectiva de uma instituição governamental. Se um governo estabelece políticas e a rede governamental deve implementá-las, a rede governamental precisa primeiro ter a capacidade para fazer isso. Se não tiver essa capacidade, então não consegue implementar a intenção da lei ou da política.

Diálogo: O que precisa acontecer para superar esse desafio?

C Alte Pritchard: As redes constroem capacidade, mas a capacidade constrói redes; é um processo integrador que é de natureza cíclica. O que tem de acontecer é um aumento da parceria, do compartilhamento de recursos, da comunicação; todos estes constroem capacidade.

Diálogo: Trinidad e Tobago constroem capacidade e compartilham informações com os Estados Unidos?

C Alte Pritchard: Sim. Os Estados Unidos estabelecem parcerias de diferentes maneiras com seus colegas na região. Trinidad e Tobago é parceiro em termos de ser um defensor ávido da segurança e da colaboração regional. Temos projetos selecionados, como a construção de redes por meio do compartilhamento de informações e melhoria da capacidade, os quais são apoiados pelos Estados Unidos.

Diálogo: O que precisa acontecer na região para conseguir derrotar as redes de ameaça internacional?

C Alte Pritchard: “Derrotar” é um termo difícil. As redes contra as quais lutamos são compostas de muitos elementos, inclusive conexões com o crime e o terrorismo. Antes de começar a pensar em termos de derrota, deveríamos pensar em termos de resposta a essas redes. Não é uma guerra convencional; é uma guerra fluida. As guerras de rede tendem a ser um pouco mais estratégicas e indeterminadas. Precisamos trabalhar mais na construção de nossas redes para combater as redes que estão bem entrincheiradas, são muito ágeis e muitas vezes nos enganam na busca de seus objetivos.

Diálogo: Qual é a sua mensagem aos participantes da CANSEC que falam sobre a CARICOM, a região caribenha e o estabelecimento de parcerias para ter melhor segurança para seus cidadãos?

C Alte Pritchard: Precisamos nos concentrar em fortalecer as instituições que temos, como a IMPACS [Agência de Implementação para Crime e Segurança, em inglês] da CARICOM. Temos de ser mais propensos a compartilhar informações e praticar juntos fora dos exercícios anuais; é apenas uma questão de desenvolver uma cultura de um por todos e todos por um.

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