Marinha do Brasil avança na construção do submarino nuclear

O lançamento da pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro e a integração dos turbogeradores do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica impulsionam o Programa Nuclear Brasileiro.
Taciana Moury/Diálogo | 7 agosto 2018

Capacitação e Desenvolvimento

Os turbogeradores do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica estão em fase de testes de integração. (Foto: Marinha do Brasil)

O Programa Nuclear Brasileiro subiu mais um degrau na busca pela capacitação e autonomia da tecnologia nuclear e na construção do primeiro submarino com propulsão nuclear da Marinha do Brasil (MB), com o lançamento da pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB). O evento aconteceu em junho de 2018 e também marcou o início dos testes de integração dos turbogeradores do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE). 

A construção do RMB é estratégica pela posição privilegiada do Brasil em reservas de urânio – o país possui a quinta maior reserva do mundo. O empreendimento disponibilizará um reator nuclear de pesquisa multipropósito e toda uma infraestrutura de laboratórios e instalações para atender às necessidades nacionais relativas à produção crescente de radioisótopos para aplicação em medicina nuclear. 

Segundo José A. Perrotta, coordenador técnico do RMB, o reator vai ainda dar suporte ao desenvolvimento tecnológico nuclear para as áreas de energia e propulsão. “As instalações de pesquisa e desenvolvimento do RMB terão caráter de laboratórios nacionais, disponíveis para a comunidade científica do país, contribuindo assim para a formação de recursos humanos especializados”, destacou. 

A instalação do complexo do Reator Multipropósito Brasileiro, coordenada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), com o apoio de outros setores do governo brasileiro, vai funcionar numa área total de 2 milhões de metros quadrados, ao lado do Centro Industrial Nuclear de Aramar, em São Paulo. A maior parte do terreno foi cedida pela MB e o restante foi desapropriado pelo governo de São Paulo.

“Serão construídos o prédio do reator de pesquisa de 30 megawatts, uma unidade de processamento de radioisótopos, um laboratório de radioquímica e análise por ativação neutrônica, um laboratório de feixe de nêutrons, uma unidade para tratamento e estocagem de rejeitos, além de outras instalações de apoio à pesquisa e operação”, explicou Perrotta. A previsão do período de implantação até o funcionamento inicial é de seis anos. 

Tecnologia fundamental

Durante o início dos testes de integração das turbinas do LABGENE, o Almirante-de-Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, comandante da MB, destacou a importância de utilizar o funcionamento do laboratório como protótipo do sistema de propulsão do futuro submarino nuclear. “Aprimorando o processo de combustível nuclear na indústria brasileira vamos atender à força naval e à sociedade”, declarou. 

Segundo o Centro de Comunicação do MCTIC, o LABGENE abrigará os testes dos sistemas navais para propulsão a vapor. “O submarino nuclear brasileiro tem importância estratégica para a defesa do território brasileiro. Além disso, para o processo de construção, a Marinha vai ter alcançado o domínio do ciclo completo do combustível nuclear e da tecnologia de construção de reatores”, disse o comunicado.

 Para o Contra-Almirante Engenheiro Naval André Luis Ferreira Marques, diretor de Desenvolvimento Nuclear da MB, a integração dos turbogeradores representa a capacitação industrial na atividade de projeto, fabricação e montagens eletromecânicas para espaços reduzidos dentro do casco de um submarino, obedecendo requisitos de segurança industrial e militar-naval. O oficial destacou ainda a importância da tecnologia para a saúde. “O LABGENE converge para aperfeiçoar e dominar diversos sistemas comuns com o RMB, como por exemplo o setor de instrumentação, controles e proteção de sistemas nucleares associados a reatores”, afirmou o C Alte Ferreira Marques.

O Almirante-de-Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, comandante da Marinha do Brasil, destacou que o LABGENE é um protótipo do sistema de propulsão do futuro submarino nuclear. (Foto: Marinha do Brasil)

 De acordo com as informações do MCTIC, o Brasil possui quatro reatores nucleares de pesquisa, sendo o maior o reator IEA-R1, instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo. O país gasta mais de US$ 15 milhões na importação desse tipo de material, já que ainda não possui capacidade para a produção de radioisótopos necessários.

 Por ano, o Brasil realiza quase 2 milhões de procedimentos voltados para a medicina nuclear brasileira e o Sistema Único de Saúde corresponde a 30 por cento da demanda nacional. “Além de suprir os gastos de US$ 15 milhões, o reator pode duplicar a quantidade de radiofármacos ofertada à sociedade”, explicou o comunicado do MCTIC.

 O coordenador técnico do RMB reforçou que com o equipamento o país terá capacidade própria de pesquisa e produção de radiofármacos para diagnóstico e tratamento do câncer e de outras doenças. “O RMB propiciará o aumento da oferta à medicina nuclear, garantindo sustentabilidade e economizando algumas dezenas de milhões de dólares ao ano em importação de radioisótopos”, disse Perrotta.

 O LABGENE, formado por um conjunto de prédios nas instalações da MB em Iperó, São Paulo, abrigará as turbinas, o pressurizador, o combustível, e contará com uma área para embalagem de rejeitos do submarino. Até a presenta data, foram realizadas cerca de 65 por cento das obras da infraestrutura industrial de apoio à construção, operação e manutenção dos submarinos. Quando estiver operando em sua totalidade, o LABGENE terá uma planta nuclear com 48 MW de potência com capacidade para alimentar os subsistemas necessários à propulsão do submarino.

 Submarino nuclear

O Centro de Comunicação Social da MB informou que a previsão para a construção do submarino nuclear é para o final de 2029. O projeto básico foi concluído em janeiro de 2017 pelo Centro de Desenvolvimento de Submarinos. “As próximas fases são de detalhamento de projeto e de construção”, esclareceu.

 

Ainda segundo o Centro de Comunicação, o submarino com propulsão nuclear brasileiro irá acrescentar uma nova dimensão ao poder naval do país. “Pela sua grande mobilidade e autonomia, o submarino com propulsão nuclear é o meio capacitado a monitorar áreas marítimas distantes, condição adequada aos interesses brasileiros de proteger sua enorme plataforma continental e dissuadir intenções hostis”, explicou.

 

Diferentemente dos submarinos convencionais, os nucleares dispõem de elevada mobilidade e capacidade de permanência e são fundamentais para atuar em zonas de patrulha distantes em águas oceânicas. Enquanto os submarinos convencionais se deslocam a uma velocidade média de 6 nós (aproximadamente 11 quilômetros por hora), os com propulsão nuclear chegam a 35 nós – quase 65 km/hora.

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