Oficiais do Exército Brasileiro realizam missão inédita na República Centro-Africana

Os oficiais integram um grupo de 180 militares de 12 paises que contribuem para a paz na nação africana.
Taciana Moury/Diálogo | 23 abril 2019

Relações Internacionais

O Capitão Albemar Rodrigues Lima (esq.), o Major Felipe Biasi Filho (centro) e o Capitão Pedro Henrique de Araujo Bezerra Mendes (dir.) atuam na capacitação dos militares das Forças Armadas da República Centro-Africana. (Foto: Missão de Treinamento da União Europeia na República Centro-Africana)

O Major Felipe Biasi Filho, o Capitão Pedro Henrique de Araujo Bezerra Mendes e o Capitão Albemar Rodrigues Lima, todos do Exército Brasileiro (EB), realizam uma missão inédita para o Brasil na República Centro-Africana (RCA). Os oficiais fazem parte do grupo de 180 militares de 12 paises, que atuam na Missão de Treinamento da União Europeia (EUTM, em inglês) na RCA.

A EUTM RCA, que tem sede em Bangui, capital do país, é uma operação de paz que atua em coordenação com a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana e outras organizações internacionais e não governamentais. O objetivo é reformar o setor de defesa e segurança do país, por meio do planejamento e da execução de atividades de assessoria, formação e treinamento operacional para as Forças Armadas Centro-Africanas (FACA).

“De maneira geral, nossa função é apoiar o desenvolvimento das capacidades das FACA com a finalidade de torná-la autossustentável no cumprimento das atribuições no setor da defesa e da segurança”, esclareceu o Maj Biasi. Os oficiais brasileiros chegaram ao país africano em janeiro de 2019 e permanecerão no local até janeiro de 2020.

Para a administração da atividade, os militares do EB estão vinculados ao contingente português. A participação do Brasil na missão foi assegurada por um acordo bilateral entre Brasil e Portugal, aprovado pelo Parlamento Europeu.

História

O conflito na RCA acontece desde dezembro de 2012, quando uma coalizão de grupos armados, majoritariamente muçulmanos, denominada Seleka – Aliança, em sango, o idioma crioulo da região –, proveniente do norte do país, realizou uma operação ofensiva em direção à capital e assumiu o poder. Os episódios de violência levaram ao surgimento de grupos cristãos, alegadamente de autodefesa, denominados Anti-Balaka, agravando os confrontos. 

As atividades na EUTM RCA são desenvolvidas dentro de três pilares: assessoramento estratégico, que tem por objetivo prover assessoria às atividades de planejamento e execução ao nível do Estado-Maior das Forças Armadas e Ministério da Defesa; educacional, para ministrar formação aos oficiais e suboficiais das FACA; e treinamento operacional, que planeja e executa o adestramento das frações das unidades das FACA. Dentro dessa organização, os militares brasileiros ocupam posições no assessoramento estratégico, com o Cap Albemar, e no educacional, com o Maj Biasi e o Cap Pedro Mendes.

“O Cap Albemar exerce a função de assessor de logística, por meio da execução de planejamentos e participação em reuniões em que estão presentes o Estado-Maior das Forças Armadas, o Ministério da Defesa e empresas do ramo logístico presentes no país, com o objetivo de encontrar soluções e promover o fortalecimento do setor”, explicou à Diálogo o Maj Biasi. “Eu sou responsável pela instrução de inteligência e o Cap Pedro Mendes está encarregado das disciplinas Direito Internacional Humanitário e Língua Inglesa”, acrescentou.

Militares de 12 diferentes países participam da missão na República Centro-Africana. (Foto: Missão de Treinamento da União Europeia na República Centro-Africana)

Cada um dá classes nas suas respectivas áreas em cursos de formação de oficiais, estágios de curta duração e cursos de atualização dos oficiais e suboficiais integrantes dos batalhões de Infantaria Territorial das FACA. Dentro da base da EUTM, o idioma oficial é o inglês, utilizado na documentação interna e nos briefings diários. No entanto, o idioma para instruções, reuniões, relatórios, interações com os órgãos e as instituições locais é o francês.

A preparação para a missão aconteceu em duas fases. A primeira foi realizada sob a coordenação do Comando de Operações Terrestres, unidade do EB sediada no Rio de Janeiro. Os participantes fizeram testes psicológicos, entre outros, e receberam todo o material de proteção individual, fardamento e medicamentos necessários na viagem.  

A segunda fase desenvolveu-se em Portugal, ao longo do mês de dezembro de 2018, no Regimento de Artilharia Antiaérea nº 1, situado na cidade de Queluz, em Lisboa, unidade responsável pela preparação do contingente português. “Recebemos instruções sobre a situação atual na RCA e sobre as peculiaridades da EUTM RCA. Realizamos tiro com o armamento individual orgânico do Exército Português (fuzil e pistola), instruções de primeiros socorros em combate, primeiros socorros psicológicos e participamos de aulas de francês”, contou o Maj Biasi.

Desafio

Os militares brasileiros avaliaram que o ineditismo é o principal desafio a ser superado. “Temos que manter o elevado padrão de profissionalismo e dedicação de todos os militares brasileiros que já participaram de missões de paz da ONU [Organização das Nações Unidas]”, disse o Maj Biasi. “O fato de ser uma atividade com um perfil diferente do que estamos acostumados a observar na ONU também é um dificultador.”

“Não existem espaços para falhas; afinal, é relevante poder contribuir para que um país momentaneamente instável consiga desenvolver suas forças armadas”, complementou o Cap Albemar. “O melhor é poder ver os resultados iniciais desse trabalho in loco, tendo a convicção de que esse esforço também contribuiu, direta ou indiretamente, para salvar vidas.”

O Cap Pedro Mendes destacou que os sacrifícios e riscos inerentes a este tipo de atividade são reais, mas a grandeza da ação é motivadora. “Podemos exercer um dos princípios de nossa profissão, que é evitar a guerra. Estamos ajudando um país arrasado por uma recente guerra civil e com seríssimos problemas sociais”, ressaltou. “Atuar como instrutor de paz em um dos países com o pior IDH [índice de desenvolvimento humano] do mundo é sem sombra de dúvida uma das mais nobres incumbências que já recebi em minha vida.”

O oficial destacou ainda a relevância de o Brasil enviar militares para trabalhar junto aos mais diversos exércitos do mundo. “Trata-se de uma maneira de expressar o poder nacional militar brasileiro, mostrando que estamos em pé de igualdade aos demais países do mundo”, concluiu o Cap Pedro Mendes. “O intercâmbio profissional possibilita ainda qualificar os recursos humanos do EB.”

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