Bolívia revela resultados de uma década de luta contra o narcotráfico

O ex-líder do combate às drogas na Bolívia, Ernesto Justiniano, considerou os dados alarmantes, pois mostram o crescimento do narcotráfico no país.
Erick Foronda / Diálogo | 17 julho 2019

Ameaças Transnacionais

Membros da Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico incineram cocaína em Oruro, Bolívia, em janeiro de 2015. O governo da Bolívia disse que já destruiu cerca de 321 toneladas de cocaína nos últimos 10 anos. (Jorge Bernal, AFP)

O governo da Bolívia informou que nos últimos 10 anos foram destruídas em todo o território 35.878 fábricas de cocaína e 321 toneladas de entorpecentes, enquanto a força combinada antidrogas realizava 116.440 operações. O relatório, apresentado no dia 26 de maio de 2019 pelo vice-ministro de Defesa Social e Substâncias Controladas da Bolívia Felipe Cáceres, estimou que a ofensiva do governo tenha desferido um golpe contra o narcotráfico equivalente a US$ 176 milhões.

O relatório, o mais completo apresentado até agora pela Bolívia, explicou que as operações da Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico da Polícia Boliviana coordenam suas atividades diariamente com unidades militares que prestam apoio logístico, por exemplo, no manejo de helicópteros, pequenas aeronaves, lanchas e também no deslocamento por terra. “Trata-se de um esforço conjunto”, destacou Cáceres.

Entretanto, para o ex-líder do combate às drogas e especialista na matéria, Ernesto Justiniano, que exerceu as funções de vice-ministro da Defesa Social entre 2002 e 2003, o narcotráfico vem crescendo de forma descomunal na Bolívia e o governo “está ocultando dados”.

“Ponho em dúvida qualquer número fornecido pelo governo”, disse Justiniano à Diálogo. “Acho que eles os manipulam do ponto de vista político e não técnico e não há quem confirme esses dados.”

De acordo com um relatório publicado em agosto de 2018 pelo Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC, em inglês), os cultivos de coca na Bolívia aumentaram cerca de seis por cento entre 2016 e 2017, passando de 23.100 para 24.500 hectares. O Departamento de Estado dos EUA, no seu Relatório da Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos de 2019, calcula que a superfície total de cultivos de coca ocupe 31.000 hectares.

Ambas as cifras ultrapassam os limites legais estabelecidos pelo governo da Bolívia. Em março de 2017, Morales assinou uma lei que aumentou a superfície legal de cultivos de coca de 12.000 para 22.000 hectares.

Segundo o relatório do UNODC, até 48 por cento da coca cultivada em 2017 foi utilizada ilegalmente. No relatório, o Departamento de Estado estima que a Bolívia tenha produzido cerca de 249 toneladas de cocaína em 2017.

Em setembro de 2018, o governo dos EUA designou a Bolívia e a Venezuela como países que falharam de maneira comprovável durante os últimos 12 meses no cumprimento de suas obrigações em virtude dos acordos antinarcóticos internacionais. A designação da Bolívia ocorreu em parte pela falta de justificativa para o aumento da produção de coca autorizada pela nova lei.

O UNODC informa ainda que quase 91 por cento da coca cultivada em Chapare, estado de Cochabamba, é desviada do mercado legal. O presidente da Bolívia, Evo Morales, tem sido por mais de 30 anos o líder dos sindicatos de produtores de coca de Chapare, uma região que tem cerca de 931 sindicatos e aproximadamente 50.000 cocaleiros afiliados.

“O que aconteceu é que colocaram os ratos para tomar conta do queijo”, ressaltou Justiniano.

Cáceres apresentou os dados à Direção Geral de Cooperação Internacional e Desenvolvimento da Comissão Europeia. Ele garantiu que todas as ações foram reforçadas com o trabalho do Centro Regional de Inteligência Antinarcóticos, localizado na Bolívia, do qual participam membros dos países limítrofes – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Peru.

O ministro acrescentou que o governo destina anualmente uma média de US$ 50 milhões para a luta contra o narcotráfico e que na última década US$ 430 milhões foram usados para financiar esses trabalhos. A Bolívia expulsou a Administração para o Controle de Drogas dos EUA em 2008 e recusou a cooperação para combater as drogas por parte do governo dos EUA.

“Talvez seja difícil levar a taxa de narcotráfico a zero por enquanto, mas a tolerância ao narcotráfico deve ser zero. Trata-se de uma missão”, disse Morales à imprensa no início de junho.

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