Atentado em Bogotá tinha como alvo crítico das FARC e preocupa moradores

A imensa capital colombiana está em alerta elevado após dois atentados a bomba distintos, mas possivelmente relacionados na terça-feira.
Richard McColl | 17 maio 2012

BOGOTÁ — A imensa capital colombiana está em alerta elevado após dois atentados a bomba distintos, mas possivelmente relacionados na terça-feira.

Apesar das declarações oficiais culpando as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) pelos ataques de 15 de maio, nenhum dos grupos guerrilheiros do país assumiu a responsabilidade pela explosão do carro-bomba na zona norte de Bogotá. O atentado deixou dois mortos e 53 feridos, entre eles o ex-ministro do Interior Fernando Londoño, que se recupera em um hospital local após ser submetido a uma cirurgia para remover um estilhaço perto de sua clavícula.

A explosão — que pôde ser ouvida em toda a cidade de sete milhões de habitantes — ocorreu poucas horas após a polícia ter desativado outro artefato explosivo que pesava 38 kg perto do quartel-general da polícia. No mesmo dia, entrou em vigor o tão esperado Tratado de Livre Comércio (TLC) entre o país e os Estados Unidos, após anos de negociações, melhorando a imagem da Colômbia como um local para investimentos.

“As instituições de segurança do Estado não descansarão e farão todos os esforços para determinar os responsáveis pelo ato que não só tirou as vidas de dois guardas-costas, como também feriu gravemente o Dr. Londoño e afetou mais de 40 outros cidadãos”, disse o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzón.

Explosão traz de volta o passado

A Colômbia está acostumada à violência e ao derramamento de sangue, mas a forma como a segunda bomba foi ativada lembra os dias sombrios da década de 1980, quando Bogotá era uma zona proibida onde as empresas temiam se instalar.

O general Luís Martínez, comandante da polícia de Bogotá, afirma que a tática aplicada pelos executores não identificados é a primeira do gênero na Colômbia.

Londoño, um crítico ferrenho das FARC, tinha acabado seu programa “Hora da Verdade”, na Radio Super, e se dirigia para a academia quando dois homens não identificados em uma moto se aproximaram de seu veículo enquanto parava no semáforo no cruzamento da Rua 74 com a Avenida Caracas. O carona saltou e colocou uma bomba magnética, que parecia uma valise, na roda dianteira esquerda.

Após fugir para o outro lado da Avenida Caracas, o executor retirou a peruca e o boné que usava como disfarce e fugiu na moto do comparsa que o aguardava. A bomba-lapa foi detonada, matando instantaneamente o motorista de Londoño, além de um de seus seguranças. Considerando a natureza do movimentado cruzamento e sua proximidade de escolas e universidades, é um milagre que mais pessoas não tenham morrido no ataque.

“Todo governo tem suas agências de inteligência, ministérios da defesa e forças de segurança, e estamos recorrendo a nossos aliados para iniciar um diálogo e trocar informações para tornar nossas investigações mais eficazes”, afirmou Pinzón em entrevista.

Analista: Bogotá ainda não está livre do terrorismo

Martínez diz que há “provas convincentes” de que o atentado foi executado por terroristas das FARC e que todos os esforços estão sendo feitos para encontrá-los. No entanto, o presidente Juan Manuel Santos — que, após a explosão, cancelou sua viagem a Cartagena para comemorar o TLC — afirmou que ainda não havia evidências de relação entre as duas bombas.

Ainda assim, os dois incidentes trouxeram à tona as lembranças de uma bomba das FARC que destruiu a sede da Caracol Radio em agosto de 2010.

“Os incidentes mostram que os executores são capazes de coordenar ataques em Bogotá, o principal núcleo da segurança colombiana, e atacar alvos protegidos por seguranças, como Londoño”, afirma o porta-voz da agência de inteligência Stratfor Global Intelligence. “Esse nível de capacidade em Bogotá passa a ser uma preocupação para as forças de segurança colombianas, já que as cidades vinham se mantendo relativamente livres de atentados, embora o conflito tenha recrudescido, especialmente no ano passado.”

Por enquanto, Bogotá permanece em alerta. Blitzes policiais foram montadas em vários pontos estratégicos da cidade e autoridades pedem aos cidadãos que denunciem qualquer atividade suspeita. Após uma reunião de emergência entre Santos e o prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, foram proibidos caronas nas motos até segunda ordem para evitar a repetição de ataques do tipo.

Londoño como alvo não é surpresa

O fato de Londoño — que foi ministro do Interior e Justiça da Colômbia de 2002 a 2004 durante o primeiro governo do ex-presidente Alvaro Uribe — ter sido o alvo do atentado não surpreendeu Andrés Villamizar, diretor da Unidade Nacional de Proteção, responsável pela segurança de ex-autoridades governamentais.

“Londoño vivia sob constante ameaça pelo seu passado de ministro de Uribe e pelo seu trabalho atual como jornalista”, diz Villamizar. A maioria das ameaças contra Londoño, prossegue o diretor, eram atribuídas às FARC, por conta do seu posicionamento conservador e da aproximação com os militares.

Villamizar acrescenta que o tipo de bomba usado no atentado é muito associado ao utilizado pelo grupo nacionalista basco ETA e pelo Exército Republicano Irlandês Provisional — ambos os quais tiveram ligações com as FARC no passado. “Levando-se em conta o histórico das FARC no uso de explosivos, a bomba urbana como exibição de força e a identidade do alvo, é difícil apontar outro grupo criminoso com motivos mais fortes que os rebeldes”, observa o analista de segurança Edward Fox, da organização Insight Crime, de Bogotá.

Santos ofereceu uma recompensa de 500 milhões de pesos (R$ 560.000) por pistas que levem à prisão dos envolvidos no incidente. Porém, como sugerem os funcionários da agência Stratfor, “os atentados são um recado direto ao presidente Santos de que o aumento das operações das forças de segurança na Colômbia será retaliado com ataques em centros urbanos como Bogotá”.

E, enquanto membros da Equipe de Investigações Técnicas vasculham os escombros, determinam o tipo de bomba e examinam imagens das câmeras de circuito fechado de TV instaladas no local do crime, os políticos procuram garantir à população que tudo será investigado. Petro, o prefeito da cidade, afirmou que “esses atos de ódio e vingança não podem e não irão dominar Bogotá”.

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