Exércitos das Américas analisam cooperação militar na Antártida

O seminário destacou a importância da presença militar e da interoperacionalidade no continente branco.
Juan Delgado/Diálogo | 5 dezembro 2018

Relações Internacionais

Um seminário especializado sobre a liderança militar na Antártida, patrocinado pelo Exército Argentino, reuniu oficiais membros da Conferência de Exércitos Americanos, em Buenos Aires. (Foto: Exército Argentino)

Em meados de outubro, no âmbito da Conferência de Exércitos Americanos (CEA), o Exército Argentino realizou um seminário especializado sobre liderança militar e relações de comando entre autoridades militares e civis em um ambiente interagências – caso piloto: Antártida. A conferência, que é a terceira do ciclo 2018-2019 da CEA, foi realizada em Buenos Aires entre os dias 15 e 19 de outubro de 2018.

O objetivo da conferência foi destacar a cooperação internacional militar no continente branco e impulsionar as iniciativas das forças armadas e o apoio às organizações civis para expedições científicas ou em casos de emergências. Além disso, o seminário buscou estreitar a aliança e a interoperacionalidade entre os membros da CEA.

A “temática [cooperação internacional] é muito importante”, disse o General de Brigada do Exército da República Dominicana Luis de León Rodríguez, secretário geral da CEA. “Com a evolução das forças armadas em suas diferentes missões, onde já se passou de um nível de confronto para um nível de coordenação, sempre é importante enfocar nesses tipos de temas, que são uma tendência no mundo atual.”

O papel-chave das forças armadas

A conferência consistiu em palestras proferidas por diversos oficiais dos exércitos da Argentina, do Chile, da Espanha e do Uruguai, que compartilharam suas experiências e expuseram suas recomendações para consolidar a cooperação. Os especialistas destacaram o papel-chave das forças armadas na Antártida como provedoras do apoio logístico necessário para a realização de atividades científicas, bem como para a manutenção das bases permanentes e temporárias e o transporte dos cientistas e de materiais e equipamentos na região inóspita.

Por exemplo, o Capitão do Exército de Terra da Espanha Valentín Carlos Benítez Martínez abordou os vários projetos de pesquisas realizados durante a Campanha Antártica Espanhola 2017-2018, que liderou a bordo do navio de pesquisas oceanográficas Hespérides da Marinha Espanhola. Entre os 23 projetos realizados, cinco foram em apoio a outros países, com centenas de militares e um total de 122 pesquisadores internacionais.

“Ter a oportunidade de dirigir uma missão na Antártida é uma grande responsabilidade”, disse o Cap Benítez. “É preciso comandar um grupo humano muito preparado e selecionado, além de apoiar os cientistas que investigam no local o continente branco.” 

Oficiais dos exércitos do México e dos EUA participaram do seminário com enfoque na Antártida no âmbito da Conferência de Exércitos Americanos. (Foto: Exército Argentino)

Barômetro ambiental global

Para a comunidade científica e para os governos que têm interesses comuns na Antártida e no mundo, a região serve como um barômetro ambiental global em temas relacionados à redução do ozônio, ao aquecimento global e à repercussão dos sistemas biológicos. Por essas razões, segundo o General de Divisão Claudio Pasqualini, comandante do Exército Argentino, “temáticas como a proteção do meio-ambiente e dos recursos naturais [...] são questões importantes neste tipo de conferências.”

Os especialistas também abordaram as tarefas realizadas nas diversas bases antárticas, enquanto palestrantes argentinos e chilenos realçaram o trabalho conjunto entre os dois países e especialmente entre as bases antárticas Esperanza da Argentina e O’Higgins do Chile. Como exemplo da cooperação, foi citado o exercício combinado de resgate PARACACH efetuado entre os exércitos de ambos os países. O exercício anual, realizado desde 2009, busca preparar os militares para uma eventual emergência no continente branco.

“Tive a oportunidade de servir como oficial explorador e chefiei o Centro de Assuntos Antárticos do Exército do Chile entre 2015 e 2016”, disse o Brigadier do Exército do Chile Germán Arias Athanaciu, adido militar de defesa da Embaixada do Chile na Argentina e expositor da conferência. “Nossa experiência, capacitação e os intercâmbios de ideias [com a Argentina] foram resultados muito importantes.”

No âmbito das atividades programadas, os participantes também visitaram algumas instituições argentinas que controlam e realizam pesquisas científicas no continente branco. Além disso, os participantes foram ao Porto de Buenos Aires para visitar o quebra-gelo da Marinha Argentina ARA Almirante Irízar, navio insígnia da Campanha Antártica Argentina que participa anualmente do abastecimento das bases antárticas de vários países.

“Acho que os objetivos dessa conferência foram cumpridos e inclusive ultrapassaram as minhas expectativas pessoais; as abordagens expostas ainda são bastante inovadoras para mim, quanto à maneira como são administrados os aspectos relativos à Antártida”, disse o Gen Bda Rodríguez. “O espírito de fraternidade americano é uma realidade palpável, tal como foi concebido pelos fundadores das nossas nações.”

Criada em 1960 como um fórum de comandantes de exércitos do Hemisfério Ocidental, a CEA é uma organização militar internacional formada por 22 países membros das Américas e do Caribe e quatro países observadores, entre eles a Espanha. A CEA realiza ciclos bianuais de conferências e exercícios especializados com o objetivo de melhorar a interoperacionalidade. O ciclo 2020-2021 da CEA terá como tema principal as operações interagências, a proteção do meio-ambiente e os recursos naturais.

“Essas atividades da CEA ajudam a integrar os exércitos das nações parceiras”, concluiu o General de Divisão do Exército Justo Trevinarus, chefe do Comando Conjunto Antártico das Forças Armadas da Argentina, que presidiu a conferência. “Elas abrem um espaço para conhecer e desenvolver novas ideias sobre diferentes temas.”

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