Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Argentina será anfitriã da Conferência Sul-Americana de Defesa 2018

Diálogo conversou com o General-de-Divisão Bari del Valle Sosa, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Argentina, sobre seus principais desafios.
Marcos Ommati/Diálogo | 2 outubro 2017

O General-de-Divisão Bari del Valle Sosa, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Argentina, discursou sobre os problemas de cibersegurança enfrentados pela Argentina e por outros países. (Foto: Marcos Ommati, Diálogo)

Ao final da Conferência Sul-Americana de Defesa 2017 (SOUTHDEC, por sua sigla em inglês), realizada em Lima, Peru, de 22 a 24 de agosto, os coordenadores anunciaram que a Argentina será, pela primeira vez, sede da edição 2018 do evento, com as Forças Armadas da Argentina como anfitriãs juntamente com o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM). Para saber quais são os principais desafios dos militares argentinos, Diálogo conversou com o General-de-Divisão Bari del Valle Sosa, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Argentina, durante a SOUTHDEC 2017.

Diálogo: O senhor foi um dos participantes da mesa redonda sobre ciberdefesa realizada nesta conferência. Como a Argentina se compara com outros países da região nesta área?

General-de-Divisão Bari del Valle Sosa, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Argentina: Às vezes não se trata apenas de comparar. Como já apontei, estamos muito preocupados; estamos incentivando muito a troca de informações porque cada país se prepara, desenvolve suas organizações, capacita seu pessoal, desenvolve a tecnologia necessária para se proteger desta nova ameaça, mas isto não é suficiente. Este tipo de ameaça não tem limites e não é suficiente desenvolver cada país. Por isso, é essencial que haja uma troca de informações, treinamentos entre os diferentes países, exercícios, intercâmbio de experiências, de protocolos, de aprendizado. Aplicamos alguns procedimentos que estão vigentes no âmbito da Organização dos Estados Americanos e que mostram claramente a importância desta troca de informações.

Diálogo: O que falta para conseguir esse nível de troca de informações que o senhor menciona?

Gen Div Sosa: Na verdade, já está ocorrendo. Há vários exercícios, reuniões bilaterais entre vários países, trocas de experiências, alguns exercícios, testes, provas, países que organizaram concursos de ciberdefesa onde há equipes que participam. Nada disso é um produto determinado. São passos que se deve dar cotidianamente porque o desenvolvimento da ameaça tem tal velocidade e rapidez que é necessário acompanhar seu ritmo, e isso exige atualização constante.

Diálogo: O senhor considera que esse é o desafio principal das Forças Armadas da Argentina atualmente?

Gen Div Sosa: Estamos em um processo. O governo fixou um objetivo que se chama reconversão do Sistema de Defesa Nacional. Neste sentido, somos protagonistas dentro do Sistema de Defesa das Forças Armadas. Estamos em um processo de reconversão, o que não significa que devemos aperfeiçoar o que estamos fazendo, mas sim definir o instrumento militar que permita satisfazer as exigências que a Argentina vai enfrentar no século XXI. Então nosso desafio é entender quais são esses desafios e programar nosso instrumento militar de acordo com essas exigências.

Diálogo: É importante enfrentar tais desafios juntamente com outros países?

Gen Div Sosa: Cada país tem sua própria realidade, seus próprios problemas, suas próprias definições nos assuntos estratégicos. Contudo, além de cada um ter sua particularidade, há um todo, um marco de possibilidades e de necessidades, permitindo agir de forma integrada em vários setores, compartilhando políticas comuns de defesa com diferentes níveis de complexidade, conforme o caso e a circunstância.

Diálogo: Um dos quatro principais objetivos militares do Almirante-de-Esquadra da Marinha dos EUA Kurt W. Tidd, comandante do SOUTHCOM, é a integração de gêneros Qual é a sua perspectiva sobre esse tema?

Gen Div Sosa: Estou certo de que estamos avançando e estamos comprometidos com uma política de gênero que vê a realidade de nossa sociedade. Porque isso não é apenas das forças armadas. A política de gênero é uma questão nacional. Nas Forças Armadas, houve uma participação das mulheres no passado, geralmente reduzida a algumas profissões relacionadas com a saúde, como médicas e enfermeiras, além de advogadas e engenheiras. Mas a partir de 1995, quando a lei sobre o serviço militar foi alterada e este passou a ser voluntário, as mulheres se incorporaram de forma maciça. Nos institutos de formação como o Exército, que foi o primeiro a aderir, em 1997, elas ingressaram na escola de formação de oficiais e de suboficiais. Em seguida, fizeram o mesmo na Força Aérea e na Marinha. Com o tempo, a participação de mulheres oficiais e suboficiais foi sendo ampliada. Essa participação era próxima de zero na década de 1990, mas já estamos com 17 por cento de participação feminina nas Forças Armadas. Mas há alguns lugares onde a participação da mulher é muito importante. Em alguns casos, elas são mais de 50 por cento.

Diálogo: As mulheres podem ser oficiais generais na Argentina?

Gen Div Sosa: Com certeza. Nas nossas Forças Armadas, já temos duas oficiais que alcançaram essa hierarquia. Uma delas, a General-de-Exército Pansa, é especialista na área de informática; a outra é a Contra-Almirante Uriarte, que também é especialista na área de tecnologia informática. Ou seja, temos duas mulheres que chegaram às patentes de general ou contra-almirante. A partir de 2012, as últimas barreiras que existiam no Exército terminaram, com a possibilidade de ingresso na infantaria e na cavalaria. Desta forma, podemos concluir que a política geral é de igualdade de exigências e de oportunidades. Esse é o olhar que temos com respeito às Forças Armadas. Não temos quotas, não temos quantidades, mas temos perfis. Desta forma, se as exigências são atendidas, existe a possibilidade de ser, independente do gênero.

Diálogo: Qual será a participação da Argentina nas missões de paz, após o fim da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH)?

Gen Div Sosa: A ideia do presidente da nação tem sido orientada a incentivar e aprofundar a participação em operações mistas de paz. A missão no Haiti está terminando; a participação militar está sendo reduzida. Nós tínhamos dois grandes elementos lá: um batalhão formado basicamente por pessoal do Exército e da Marinha; e um hospital militar itinerante da Força Aérea. Eles foram sendo reduzidos. O batalhão foi retirado há alguns anos, juntamente com a redução dos militares. Em 15 de agosto, a atividade específica do hospital foi finalizada. Até meados de outubro, o processo será concluído com respeito às tarefas da MINUSTAH. Estamos analisando os cenários existentes conforme se apresentam, para ver aonde as tropas argentinas podem ser transferidas sob o mandato das Nações Unidas.

Diálogo: A África é uma possibilidade?

Gen Div Sosa: Todo o espectro de pressões que estão em curso está aberto; não apenas em curso, mas também em estudo nas Nações Unidas. Não temos nenhuma definição a esse respeito ainda, mas essa é uma opção, assim como todas as outras que estão abertas. Também estamos finalizando com êxito nossa participação na primeira fase do processo de desmilitarização e desarmamento na Colômbia. Apesar da mudança na natureza da missão das Nações Unidas, manteremos o pessoal no local para acompanhamento da segunda fase, de reinserção.

Diálogo: O que é a reinserção?

Gen Div Sosa: A reinserção é a segunda fase de um processo. A primeira denominou-se desmilitarização, abandono de armas. Agora vem a segunda, a etapa de reinserção. É um processo que o governo da Colômbia está administrando em conjunto com as Nações Unidas. Neste sentido, também participamos como observadores. Hoje, há cerca de 90.

Diálogo: Há planos de exercícios conjuntos entre Argentina e outro país da região ou com os Estados Unidos em um futuro próximo?

Gen Div Sosa: Em geral, temos exercícios permanentes anualmente. Alguns são realizados de forma simultânea no gabinete; outros, em campo, principalmente com nossos vizinhos, Chile e Brasil. Temos diferentes tipos de exercícios, sejam terrestres ou marítimos. Além disso, também temos exercícios das forças aéreas em casos de desastres naturais em toda a América do Sul. Ano passado, foram realizados com tropas em terra; no mês de outubro, em San Martín de los Andes, houve um exercício para a proteção contra desastres naturais com o Chile. Mobilizamos quase 1.200 pessoas com a presença de especialistas das duas forças armadas; não apenas os exércitos, mas ambas as forças armadas. A participação dos militares e de vários outros organismos foi muito exitosa porque também houve envolvimento dos organismos civis, do governo, nesse caso o de San Martín de los Andes, da polícia, dos bombeiros, dos órgãos de saúde. Foi um exercício muito útil, que manifestou a intensidade das coordenações existentes entre os diferentes organismos estatais.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 48
Carregando conversa