Venezuela apela ao Irã para reativar a produção de petróleo

Venezuela apela ao Irã para reativar a produção de petróleo

Por Diálogo
junho 12, 2020

Em meio à escassez de gasolina em todo o país, que levou ao racionamento de combustíveis e protestos nos postos, a Venezuela pediu ajuda ao Irã para reativar sua combalida indústria de petróleo.

No final de maio, quatro de cinco petroleiros iranianos que transportavam combustível para a Venezuela chegaram no país sul-americano e atracaram nos portos que servem as suas refinarias, desafiando as sanções dos EUA em ambos os países. O quinto petroleiro chegou no dia 1º de junho. Francisco J. Monaldi, um especialista venezuelano em petróleo da Universidade Rice, em Houston, disse ao New York Times que juntos os barcos carregam aproximadamente 1,5 milhões de barris de combustível, suficiente para abastecer a nação durante umas poucas semanas, até um mês.

Por outro lado, a República Islâmica está entregando por via aérea componentes usados para a produção de gasolina e também está disponibilizando trabalhadores e equipamentos para a refinação de petróleo, dizem os especialistas da indústria petrolífera.

Cerca de 16 voos da estatal iraniana Mahan Air, que está sob sanções dos EUA, pousaram na Venezuela desde 22 de abril, apesar da suspensão dos voos do país latino-americano devido ao coronavírus, segundo informação de diversas agências de notícias, incluindo Bloomberg, Reuters, e o portal online venezuelano El Pitazo. No dia 23 de abril, em um tuíte que já foi apagado, Erling Rojas, vice-ministro de Refinação e Petroquímica do regime, agradeceu ao Irã por enviar via aérea os catalizadores químicos necessários para reativar as refinarias do país. Rojas foi demitido no mesmo dia.

De acordo com a Bloomberg, os voos retornaram a Teerã com cerca de 9 toneladas de ouro, avaliadas em mais de US$ 500 milhões, como pagamento pela ajuda iraniana, o que os críticos consideram uma tentativa do regime de Nicolás Maduro de driblar as sanções dos EUA. Gustavo Marcano, assessor sênior em Washington do presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, disse que os voos eram “parte das operações narcoterroristas de Maduro”.

No dia 29 de abril, o secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo exortou os países a impedirem os direitos da Mahan Air de usar seu espaço aéreo, a qual, segundo ele, “prestou apoio desconhecido ao regime de Maduro.”

“Essa é a mesma companhia aérea terrorista que o Irã usou para transportar armas e combatentes no Oriente Médio”, declarou Pompeo, exigindo que os voos “parem”. O Departamento do Tesouro dos EUA sancionou a Mahan Air em 2011, por contrabando de armas em prol da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, e novamente em 2019, pela suposta participação da companhia aérea na proliferação de armas de destruição em massa.

O Instituto Nacional de Aviação Civil (INAC) da Venezuela autorizou a Mahan Air a fazer até 20 voos diretos de Teerã à península de Paraguaná, na costa caribenha do país; voos adicionais serão aprovados “quando for necessário”, enquanto as restrições estejam vigentes, disse uma autoridade do INAC à Argus Media, uma companhia baseada em Londres que emite relatórios de inteligência sobre a indústria de petróleo cru.

A Argus Media informou que a ajuda foi o resultado do acordo de cooperação entre Irã e Venezuela, intermediado pelo novo ministro do Petróleo do regime Tareck El Aissami, que incluiu a entrega de essenciais catalizadores químicos, compressores, peças para refinaria e o envio de trabalhadores para ajudar a reativar as refinarias de Amuay e Punta Cardón no Centro de Refinamento de Paraguaná (CRP), o maior do país. No final de janeiro, a estatal venezuelana PDVSA fechou ambas as instalações, as duas últimas refinarias em funcionamento no país.

Um técnico em petróleo venezuelano baseado nas instalações de Punta Cardón, que pediu para permanecer em anonimato por razões de segurança, disse à Diálogo que os esforços na refinaria estavam em andamento para reiniciar as operações. “Eu trabalho nos sistemas de vapor e água com nossos aliados iranianos. Nós dessalinizamos a água do mar, a água salgada usada para gerar o vapor que fornece energia a algumas unidades”, disse o técnico. “Fomos avisados de que seriam necessários pelo menos mais quatro meses até que possamos produzir gasolina novamente.”

A Assembleia Nacional da Venezuela alertou sobre o fortalecimento da aliança entre o regime de Maduro e Teerã. Em um tuíte do dia 27 de abril, o legislador Julio Borges disse que os voos visam “aumentar a presença de autoridades e grupos iranianos na Venezuela” e que são “um perigo para a paz e a segurança da região”.

Evan Ellis, professor pesquisador de Estudos Latino-Americanos do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, não acredita que o envolvimento iraniano possa reativar a devastada indústria de petróleo. “A utilização da companhia aérea sancionada não tem grande importância. Ela não causará um impacto significativo na escassez de gasolina do regime de Maduro. Tampouco parece ser evidência de um novo nível substancial de cooperação entre o Irã e o regime”, disse Ellis à Diálogo. “Os voos da Mahan Air são mais um exemplo da cooperação irrelevante entre os regimes ilegais.”

Apesar do novo apoio do Irã, autoridades do CRP disseram à Argus Media que duvidavam que a PDVSA pudesse reiniciar a produção de petróleo em curto prazo. “O CRP foi projetado para operar como uma unidade integrada, o que significa que todas as suas unidades de processamento devem estar operacionais para garantir uma produção de combustível segura e sustentável”, declarou uma autoridade sênior à Argus Media.

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