Na primeira parte desta entrevista, Carlos Sánchez Berzaín, diretor do Instituto Interamericano para a Democracia (IID) e ex-ministro da Defesa da Bolívia, traçou um diagnóstico que reafirma o debate hemisférico sobre segurança e democracia na América Latina e no Caribe. Sánchez Berzaín deixa claro como a Venezuela deixou de ser um Estado falido, para se tornar o epicentro operacional de uma máquina criminosa continental, um regime que, ele alerta, articula o crime transnacional e se sustenta em redes de narcotráfico e estruturas irregulares que o protegem e o projetam.
Nesta segunda parte, a análise entra em uma zona ainda mais inquietante, porque a convergência criminosa já não atua de forma isolada. Ela se alimenta e se expande com a intervenção da China, Irã, Rússia e Coreia do Norte, atores extrarregionais que, alerta Sánchez Berzaín, utilizam essa estrutura ilícita para projetar sua influência e avançar agendas geoestratégicas que aceleram a desestabilização política e de segurança em todo o hemisfério.
O ex-ministro sustenta que a América Latina não está caminhando para um cenário de guerra híbrida global, mas já está imersa nele. Bases de espionagem secretas, acordos militares opacos, controle de minerais estratégicos e penetração em infraestruturas críticas compõem hoje um tabuleiro, onde regimes narcoterroristas e seus aliados extrarregionais enfrentam democracias. O resultado, adverte, dependerá de medidas rápidas e decisivas, já que o relógio geopolítico não se detém.
Diálogo: Atores extrarregionais, como o Irã, formaram alianças com o regime venezuelano e penetraram em suas instituições e estruturas militares. Como funciona esse processo de infiltração e até que ponto a Venezuela se tornou uma plataforma que permite ao Irã e a outros atores extrarregionais projetar influência, doutrinação e controle territorial dentro do hemisfério?
Carlos Sánchez Berzaín, diretor do Instituto Interamericano para a Democracia (IID) e ex-ministro da Defesa da Bolívia: O eixo narcoterrorista que integrou Venezuela, Cuba, Nicarágua e Bolívia funciona como uma plataforma de expansão para interesses externos, e o caso mais significativo em matéria de terrorismo é o Irã. Sua influência tem sido tão profunda que conseguiu introduzir mudanças culturais e religiosas nas populações onde opera. Não se deve esquecer que o Irã é uma ditadura teocrática e exporta essa influência com eficiência cirúrgica.
A Bolívia é o exemplo mais claro. No início do século, não havia um único minarete no país. Hoje, o Irã opera uma rede de televisão nacional, administra centros religiosos em diferentes regiões e até mesmo modificou hábitos cotidianos, como a gastronomia, com pratos mediterrâneos que eram desconhecidos há duas décadas. Não se trata de julgar se isso é bom ou ruim, mas de constatar o nível de penetração e influência política que representa.
A intervenção iraniana atingiu um ponto crítico, quando assumiu o controle da chamada Escola Anti-Imperialista do ALBA, criada por Evo Morales, para substituir o campo de treinamento de contra insurgência apoiado pelos Estados Unidos, especializado em combate antiguerrilha. A inauguração em 2011 contou com a participação de Ahmad Vahidi, então ministro da Defesa do Irã e procurado pela Interpol, por sua suposta responsabilidade no atentado contra a AMIA, na Argentina. Sua presença na Bolívia foi um sinal inequívoco do tipo de alianças que estavam se consolidando. Essa escola acabou tornando-se um centro de doutrinação e treinamento funcional ao terrorismo, operado por Cuba e Irã e apoiado por acordos assinados sob o governo de Luis Alberto Arce Catacora, após reuniões de alto nível em Havana.
Na Venezuela, a situação é ainda mais grave. Existem zonas onde a presença iraniana deixou de ser influência, para tornar-se controle total. O Irã age com liberdade estratégica, ocupa espaços do aparato estatal e utiliza esses territórios como plataforma logística, política e militar, para projetar-se em toda a região. É um dos enclaves extraterritoriais mais preocupantes de sua presença na América Latina.
Cuba também desempenha um papel fundamental, embora com um perfil mais discreto. A isso se soma a China, cuja atividade está documentada em audiências do Congresso dos EUA, onde foi confirmada a operação de bases de radar e interceptação eletrônica em território cubano. Na Nicarágua, o regime de Ortega reconfigurou seu Exército com doutrina e tecnologia russas, agora reforçadas por China, Irã e Coreia do Norte.
Essa rede compõe um bloco coeso. O que estamos vivendo, eu diria que é a primeira guerra global, um confronto entre ditaduras e democracias que se trava em várias frentes. No conflito entre a Rússia e a Ucrânia, só são vistos os combatentes visíveis, mas, por trás da Rússia, estão todas as ditaduras. O Irã fornece drones e mísseis, a China oferece apoio total, a Coreia do Norte envia soldados e Cuba destaca milhares de mercenários.
Essa mesma dinâmica se reflete na América Latina. Os territórios controlados por regimes narcoterroristas ficam a serviço desses atores externos. Eles os utilizam para o que necessitem, desde logística, até expansão política. Países empobrecidos e deliberadamente empurrados para a miséria tornam-se extremamente vulneráveis. Com poucos recursos, o terrorismo captura instituições inteiras e avança sobre a soberania nacional. É assim que opera hoje o novo eixo de desestabilização global.
Diálogo: Nesse contexto de ideias, a China e a Rússia também ampliaram sua influência, por meio da chamada cooperação cibernética, inteligência artificial, infraestrutura crítica e projetos de defesa. Se o Irã, a Rússia e a China agem como um bloco que se complementa e se retroalimenta dentro do hemisfério, os governos latino-americanos subestimaram o impacto cumulativo dessas cooperações e investimentos? E, consequentemente, o que essa convergência implica para a soberania, a resiliência democrática e a arquitetura de segurança regional?
Sánchez Berzaín: Os governos latino-americanos não subestimaram nada; eles caíram nas mãos do socialismo do século XXI, que, por necessidades de equipamento e financiamento, os entregou à China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Essa captura política abriu as portas para uma penetração extrarregional que hoje é contundente.
A China e a Rússia controlam o lítio boliviano, enquanto o Irã domina os acordos militares e participa de projetos vinculados ao desenvolvimento nuclear. Não sabemos se o urânio que sai da Bolívia ou o lítio entregue à Rússia acaba nas mãos do Irã, um país que sempre obtém o necessário para continuar enriquecendo material estratégico.
Esse cenário só pode ser entendido dentro da lógica de uma guerra híbrida global, onde se chocam dois blocos claramente definidos. De um lado, o bloco do crime organizado, integrado pelos regimes narcoterroristas latino-americanos e seus aliados extrarregionais, e, do outro, o bloco democrático. Não é uma reedição da Guerra Fria, mas sim um confronto estratégico de múltiplas dimensões.
Hoje, finalmente, surge uma mudança visível em fatos concretos, como a decisão da Argentina de descartar os aviões chineses, que são inviáveis por sua tecnologia roubada do Ocidente, e optar pelos F-16 norte-americanos. Esse tipo de decisão já marca uma virada que favorece o retorno do investimento privado, da tecnologia e da presença ocidental na região.
A região começa a reagir com uma política ancorada na realidade objetiva. Resta saber se essa mudança chega a tempo para conter o aprofundamento do bloco autoritário no continente.
Diálogo: Se as tendências atuais continuarem, o fortalecimento da Venezuela como um Estado criminoso, a expansão do Irã por meio de proxies, a penetração da China em infraestruturas críticas e o alinhamento militar da Rússia, qual seria o cenário mais provável a longo prazo para o Hemisfério Ocidental? A região está caminhando para uma fragmentação governada por atores criminosos ou para um campo de batalha intensificado dentro do conflito global?
Sánchez Berzaín: As duas coisas que a senhora apresenta não são um cenário futuro, já estão acontecendo. Não é que esteja caminhando para isso; a América Latina já é uma zona de conflito global e uma zona de controle criminoso, não apenas por parte dos Estados narcoterroristas, mas também por parte das potências extracontinentais. Isso não é algo que “vai acontecer”; já está acontecendo, inclusive já aconteceu, há cinco ou dez anos.
Basta olhar para o alcance dos investimentos chineses, do equipamento dos exércitos pela Rússia, das bases iranianas e dos sistemas de espionagem instalados em território cubano e nicaraguense. Não me apresente isso como um cenário futuro; esse é o presente.
Agora, com essa mudança geopolítica, o futuro imediato importa sim, e vou falar em termos concretos: em 2025, o povo venezuelano deve ser libertado com a derrota do Cartel dos Sóis. Esse é um objetivo com um timing preciso. E 2026 deve ser o ano em que se acabará com os grupos narcoterroristas que detêm o poder na Nicarágua e em Cuba. Se isso acontecer, então voltaremos a ver as Américas como eram vistas no final do século passado.
A previsão que surgiu na Cúpula das Américas de 1994, e que dominou os anos 1990, era de que o século XXI seria o século da democracia plena, do livre mercado e do desenvolvimento para o continente. Mas isso não aconteceu. Em vez de avançarmos em direção a esse horizonte, passamos de uma ditadura e cinco governos pró-ditatoriais, para tornarmo-nos uma região definida por duas realidades contundentes: uma fragmentação governada por atores criminosos e um campo de batalha intensificado dentro do conflito global. Porque essa é a América Latina hoje em dia, estamos penetrados pela insegurança, pelo tráfico de pessoas, pela penetração política com financiamento ilícito.
Diálogo: Finalmente, o que constituiria um verdadeiro ponto de inflexão no confronto entre os atores estatais criminosos e a arquitetura democrática e de segurança da região?
Sánchez Berzaín: O conjunto de ditaduras narcoterroristas precisa desaparecer, da mesma forma que já está avançando. Veremos uma Venezuela diferente, porque a lei está sendo aplicada. E a lei, quando necessário, é aplicada com o uso legítimo da força. Esse é o ponto central.


