Bandos e Gangues Membros: Um Desafio Para A Segurança Pública Na América Central

The Legendary ‘Batigol’ Now Makes Polo Goals Tremble‎

Por Dialogo
março 04, 2009

Extratos desta entrevista foram publicados no volume 19, número 1 de Diálogo, “Gangues”.‎ As gangues se tornaram não apenas objeto de preocupação para os governos, mas também causa de ‎medo entre a população. O general aposentado Álvaro Antonio Romero Salgado, assessor de Segurança ‎e Defesa de Honduras, e secretário do Capítulo de Transparência Internacional de Honduras, falou ‎sobre a propagação desses grupos em todas as esferas sociais, bem como sobre as iniciativas locais e ‎regionais no combate a este flagelo.‎ ‎*_- Há alguma diferença entre “maras” e gangues?_*‎ Eles não gostam de ser chamados “maras”, preferem o termo “pandilleros” (membros de gangues). Eles ‎vêem como depreciativo o termo “mara”, mas nós assim os chamamos para incomodá-los.‎ ‎*_- São eles considerados uma subcultura? _*‎ Sociólogos os identificam como uma subcultura. Porquê? Por que têm sua própria linguagem, forma de ‎identificação, comunicação, vestimenta e tatuagens próprias. Eu creio que em todos os países existem ‎subculturas, redutos de culturas antigas, mas são subculturas positivas; subculturas que funcionam na ‎sociedade e se integram; alguns membros destas subculturas são membros proeminentes da sociedade, ‎como deputados, eles estão na política, na economia e sobressaem-se na sociedade. Mas a subcultura ‎das gangues, eu a classificaria como negativa, no sentido que, aquilo que fazem, ainda que se ‎identifiquem e tenha uma base social, eles fazem com fim premeditado e orientado para o crime.‎ Neste contexto, é preciso ver que existem diferentes níveis de subcultura, segundo os tipos de gangues, ‎como é o caso das quadrilhas de colarinho branco que oferecem oportunidades de corrupção, e que ‎tornam o país anêmico, sugando o fruto do trabalho da sociedade. Elas podem causar mais danos do ‎que as gangues, que classificamos como subcultura negativa. ‎ ‎ A questão é fundamental quando se fala de subcultura, como no xadrez: na abertura do xadrez, sabe-se ‎o que pode acontecer no final. Se chamarmos a um guerrilheiro, insurgente, o governo tem que agir ‎contra este tipo de classificação. Ao denominarmos estes, como subcultura, e os classificarmos como ‎uma subcultura negativa, então o Estado terá que tomar medidas rigorosas contra eles. Porque a ‎subcultura positiva recebe apoio de organizações internacionais, apoio do governo, e está dentro dos ‎planos de desenvolvimento por ter ficado para trás. ‎ De fato, dentro das quadrilhas e gangues, raramente você vai encontrar membros das subculturas que ‎temos. Não encontramos os “tahuac”, os “mesquitas" ou os “negritos”, que não estão envolvidos neste ‎processo. Se realmente vamos classificá-los como uma subcultura, então é uma subcultura negativa do ‎crime.‎ ‎*_-As quadrilhas de colarinho branco estão envolvidas com as gangues de rua? _* É difícil identificar as quadrilhas de colarinho-branco. Estão em níveis mais altos e, possivelmente, ‎alguns membros dessas quadrilhas podem ser agentes ocupando posições legítimas, administram ‎algumas áreas do crime organizado como a lavagem de dinheiro. É algo bem sinuoso que às vezes ‎causa mais danos porque está matando uma sociedade.‎ ‎ Agora, com o processo de globalização, notamos que esses grupos com legitimidade jurídica se ‎posicionam e criam na sociedade o problema da discriminação da maior parte da mesma.‎ ‎*_-Voltando às gangues de rua; V.Sa. acredita que estão evoluindo ou que têm vínculo com o ‎crime organizado? Ou pior, com organizações terroristas? _* Trata-se de um fenômeno mutante; elas vão aprendendo. Estas gangues nasceram precisamente porque ‎se formaram da diáspora da América Central, causada pela crise que ocorreu. Saíram e emigraram, e a ‎maior parte emigrou para os EUA. Filhos de guerrilheiros ou ex-guerrilheiros já levavam em si a ‎síndrome da violência. Quando se encontraram com a cultura americana, sentiram-se sós. As gangues ‎são um fenômeno nostálgico, porque os imigrantes se encontravam sem família e queriam pertencer a ‎alguém. Além disso, nos EUA sofriam a pressão das gangues que já existiam; foi como um mecanismo ‎de autodefesa. Mas então, este problema de segurança pessoal se transformou em econômico. ‎Encontraram a oportunidade de controlar regiões, zonas, territórios.‎ O que ocorreu em seguida foi devido ao fato da política de repatriação, que inoculou o vírus das ‎gangues na América Central. As “maras” não nasceram na América Central, trata-se de um fenômeno ‎importado pelos que emigraram a outros países. A liderança quase sempre foi mantida; elas tornaram-se ‎apêndices, na América Central, de grupos organizados nos EUA. Mas, foram evoluindo paulatinamente ‎e possuem seus próprios sistemas de recrutamento. Sua administração evoluiu, mas continuaram ‎envolvidos nos delitos, e acreditamos que este projeto de evolução pode inclusive chegar a formar os ‎empresários do crime, para administração de setores do crime organizado.‎ Deve-se ter muito cuidado com esta evolução, que pode ter, a longo prazo, uma expectativa política, ‎podendo unir-se com a expectativa ou interesse que tem o crime organizado. O crime organizado ‎propicia a formação de um Narco-Estado neste caso. Se unirmos o interesse do crime organizado com o ‎das “maras”, então nos veremos frente a uma evolução muito perigosa.‎ Mas também ocorrem processos de involução. Se há evolução, ocorre também involução. A “mara” é ‎um conjunto disciplinado, muito organizado, hermético, hierarquizado, que pode evoluir nesse ‎processo, entrar em contato com o crime organizado. Se eles passarem para esse nível, as gangues ou ‎‎“maras” seguramente vão decrescer em número, mas o crime organizado vai crescer e tornar-se-á muito ‎mais violento. É o que está acontecendo em muitas cidades do México.‎ ‎*_- Qual o papel da sociedade e do governo nessa evolução? _* Penso que o governo, com seus métodos de investigação, deve acompanhar qualquer tipo de mudança ‎permanente nas quadrilhas e gangues. Se estas se ligam com outros grupos, é essencial que o governo ‎tenha sempre como objetivo que estes grupos nunca cheguem a ter uma expectativa política. Isso seria ‎crítico aqui na América Central, onde tivemos a experiência da guerra fria dos governos enfrentando as ‎organizações guerrilheiras rurais. Mas o resultado da guerra fria foi a formação de uma guerrilha ‎urbana. Essa situação é perigosa, porque as guerras urbanas são muito mais sangrentas que as rurais.‎ ‎*_- V.Sa. crê que a comunidade daria apoio, se as gangues tivessem um interesse político? _* ‎ É fundamental que uma estratégia seja desenvolvida em todos os níveis do governo, visando impedir a ‎institucionalização do crime. Estes grupos devem ser acompanhados de perto, em todos os aspectos, ‎para que não se tornem um problema ainda mais grave para a sociedade.‎ ‎*_- Existe agora um envolvimento entre as “maras” e o crime organizado? Fala-se que há um ‎vínculo da MS-18 com os cartéis de droga do México. _*‎ Supõe-se que este vínculo exista, pois já vimos crimes onde participavam membros de gangues. Em ‎alguns crimes que já foram resolvidos, aparecem estes elementos. Mas, este vínculo é muito sutil. Por ‎quê? Uma pista deixada por um membro de gangue nos levaria aos primeiros níveis do crime ‎organizado.‎ Não se pode comprovar a existência do vínculo. No entanto, supõe-se que em algumas atividades o ‎vínculo esteja presente. Porém, o crime organizado é muito mais sutil e prefere ter suas próprias ‎organizações, de maneira que se um membro da “mara” for perseguido por serviços de investigação, ‎não se chega até o crime organizado.‎ O vínculo não foi realmente comprovado. Mas na verdade existem algumas atividades onde se presume ‎a existência do vínculo. Mas o crime organizado é muito mais sutil e prefere ter as suas próprias ‎organizações de modo que, durante a investigação de um dos seus membros, não chegarão até o crime ‎organizado.‎ O crime organizado tem conotações de disciplina e características mais sérias, enquanto um membro da ‎‎“mara”, por assim dizer, não está sujeito ao mesmo controle. Por exemplo, um dos requisitos do ‎narcotráfico é que os ”grandes” não consomem droga. Normalmente o membro da “mara” está ‎envolvido porque é parte dos níveis baixos e consome droga. Ao crime organizado não convém esta ‎vinculação.‎ O mesmo pode-se dizer do caso mais crítico, o terrorismo. O terrorista tem uma motivação ideológica, ‎enquanto o membro da “mara” não possui este sentimento de compromisso com uma causa. Trata-se ‎apenas de uma forma de vida, sua gangue é sua família. Ele pode ser fiel a sua gangue, mas não vai ser ‎fiel a um narcotraficante ou um terrorista. Se existisse esse vínculo seria muito tênue, muito sutil. É ‎quase possível prever que não possam ser utilizados, a menos que seja um terrorismo local. Membros ‎de gangues cometem atos de terrorismo para incutir medo, geralmente naqueles a quem desejam ‎extorquir, segundo o seu estilo de vida, mas não por lealdade a uma organização como no caso do ‎crime organizado.‎ ‎*_- Como se compara a situação das “maras” em Honduras com seus vizinhos El Salvador e ‎Guatemala? _*‎ Quando se fala das “maras”, a região toda é, para eles, a sua cidade. Honduras é um bairro pequeno ‎dentro disso. Notamos que as “maras” de Honduras tentaram se desvincular, separar-se dos outros ‎estratos sociais regionais. É um bom sinal, porque estavam atuando com muita rapidez e o crescimento ‎foi imenso, comparando o caso de Honduras com os demais países da América Central. São violentos, ‎iguais. Comentem crimes atrozes, mas notou-se que o crescimento foi maior em Honduras.‎ Os órgãos internacionais informaram que em Honduras havia pelo menos 70.000 membros das “maras” ‎e um grande número de simpatizantes. Formou-se uma situação crítica em Honduras, muito pior que ‎nos demais países. Mas, evidentemente, comparando com o caso de El Salvador, lembre-se que os ‎membros de gangues, de El Salvador, já tinham a síndrome da violência, produto da guerra que ‎viveram. Naquela guerra civil tiveram 80 mil mortos. Muitos destes membros de gangues são filhos ‎órfãos dos guerrilheiros mortos. Lá, são muito mais violentos porque têm uma cultura da guerra. Eles ‎fizeram as suas próprias armas. O fenômeno de Honduras, embora tenha crescido bastante é um ‎fenômeno de imitação.‎ ‎*_- Como Honduras vem trabalhando com os países vizinhos na erradicação da violência das ‎gangues? _*‎ Existe uma organização regional que se chama Sistema de Integração Centro-Americana, ou SICA. ‎Este sistema de integração lida com a economia, com a parte social, e também com seus problemas. ‎Num ambiente diplomático, o vice-chanceler da república de cada país é responsável por uma ‎conferência sobre segurança com subsecretários do governo e os subsecretários dos meios de ‎segurança, como no caso de Honduras. Esta reunião tem caráter permanente. Existem indicadores que ‎devem ser avaliados para apurar a evolução desse processo.‎ Mas, também foram tomadas decisões importantes como, por exemplo, a comunicação entre os países ‎agora se faz em tempo real. Os policiais da Interpol, que já possuem uma história extensa na América ‎Central e em todas as Américas, comunicam-se com muita facilidade, e isso nos permite informar os ‎demais países sobre o que está acontecendo. Quando um membro de gangue vai para outro país e é ‎capturado nesse país, somos informados imediatamente e ele é extraditado. O processo de extradição ‎está funcionando.‎ O processo de integração é bastante rápido na América Central, agora já se dispensam documentos de ‎imigração, e isso permite um trâmite mais rápido. Os membros das gangues se comunicam com mais ‎facilidade do que os governos. Isso nos serviu como estímulo, para que as instituições governamentais ‎possam atuar mais rapidamente na busca de procedimentos mais adequados. Para estes casos, os EUA ‎aprovaram um projeto chamado Iniciativa Mérida. Também foram tomadas decisões para criação de ‎centros de adestramento regional, como o que funciona em El Salvador, e assim estamos nos ‎comunicando mais entre países.‎ ‎*_- Como a Iniciativa Mérida vai ajudar Honduras? _*‎ De fato, já está ajudando. Os EUA já investiram fundos neste projeto, que foram distribuídos ‎equitativamente entre os países da América Central, para tornar eficazes os órgãos como os de ‎vigilância permanente, observatórios da violência. Também para isto, a Iniciativa Mérida ‎institucionaliza uma forma geral de operação uniforme entre os países da América Central, contra este ‎tipo de crime.‎ ‎*_- Que outros tipos de iniciativas Honduras tem para combater o problema das “maras”? _*‎ As necessidades são muito grandes. Já foi definido por muitos países que a reabilitação de um ex-‎membro de gangue demora em média 4 anos; tempo necessário para que a distorção psicológica seja ‎desfeita nesses jovens. São necessários centros especializados com sociólogos, criminólogos, pessoas ‎que realmente saibam como reverter o processo de deslocamento pelo qual passou a maior parte desses ‎ex-membros de gangues.‎ Eles não apenas cometem roubos, mas, nas provas de admissão, têm que comprovar que podem ‎cometer outros crimes; a fim de alcançar certa posição. Então, com pequenos orçamentos esses países ‎se vêem no dilema de investir no processo de reabilitação ou investir em outros problemas sociais, ‎necessidades básicas como educação, saúde, sistema de estradas, agricultura e migração. Teríamos que ‎negligenciar todas estas necessidades da sociedade para responder às necessidades de 70 mil ex-‎membros de gangues; então o aspecto político aponta que devemos incentivar mais organizações como ‎as ONGs, a ajuda internacional, porém as necessidades são muito grandes.‎ Honduras não possui, sob administração governamental, nenhum centro onde estejam reabilitando e ‎reformando os membros de gangues que são capturados, eles estão nas prisões, ainda que estejam ‎separados. Lembremo-nos que existem gangues como os Salvatruchas e os MS que são diferentes e não ‎podem ser colocados juntos. Além disso, existe o caso de ex-membros que se separaram das gangues, ‎chamados de “pesetas”. Para estes o Estado deveria dar atenção. O custo seria muito alto para tudo isso. ‎No momento, estas necessidades estão sendo atendidas por instituições internacionais, [como] as ‎Nações Unidas. Já se nota que as empresas privadas começam a participar, especialmente com meninos ‎de rua, que se encontram em siutuação de risco. Mas as necessidades são muito grandes para o Estado.‎ ‎*_- E a prevenção? Qual a dificuldade para os estados com pouca verba investir em prevenção? ‎‎_* Pelo menos nos estados temos um mecanismo de prevenção que está sendo realizado pelo policiamento ‎comunitário, como parte das medidas preventivas da polícia. Este projeto está dando bons resultados. ‎Graduaram-se. O projeto é chamado “Antigangues, Anti-assédio Sexual” ensinado nas escolas ‎primárias e secundárias, educa pais e professores para ter um efeito multiplicador. Eles vão todo sábado ‎receber educação sobre o que são gangues, drogas e exploração infantil. Cobrimos os principais ‎estados, os centros mais populosos, o que se realiza a nível primário e secundário.‎ ‎*_- Qual é o papel da polícia na erradicação das gangues?_* A polícia tem uma divisão especializada contra gangues. O Estado formulou uma lei de conspiração ‎que teve seu efeito, uma vez que tem servido como um dissuasor contra estes setores. A polícia mantém ‎um esforço para permear nesses grupos. ‎ É um procedimento utilizando tanto pelos agentes policiais como pelos membros de gangues. Temos ‎que chegar a conhecê-los, entrar nos grupos para conhecer suas estruturas, e nisso há resultados ‎positivos, uma vez que se trata de uma política de aproximação com eles para conhecer suas ‎expectativas. Isto não pode ser feito se realmente não houver vínculo com eles. A polícia o faz, mas ‎preferimos que os órgãos que conversam com eles (os membros de gangues) tentem entender quais são ‎as suas expectativas. Alguns deles são irrecuperáveis. Mas existem outros que aceitam voluntariamente ‎que devem deixar o sistema.‎ Lembro-me que o presidente do México, Diaz Ordaz, disse algo muito importante referente ao ‎comunismo: os adolescentes que não são comunistas são tolos, mas aqueles que continuam após os 20 ‎anos são estúpidos. Este fenômeno de imitação é comum na juventude. A polícia tem de vigiar muito os ‎jovens.‎ ‎*_- E quanto aos membros das quadrilhas de colarinho branco, o que está sendo feito para ‎erradicar a corrupção?_* A Justiça é o que melhor funciona, mas existem instituições que se dedicam como a Transparência ‎Internacional da qual eu sou o secretário. A abordagem é educar para que não haja corrupção. Que o ‎governo cumpra a lei e que o governo seja uma instituição a serviço do público de forma justa e igual ‎para todos. ‎ Mas para a perseguição do crime, é onde nós não temos ainda a capacidade que têm outras polícias de ‎países desenvolvidos para infiltrar no crime do colarinho branco, em se tratando (por exemplo) da ‎lavagem de dinheiro. ‎ Além disso, o Estado tem o Tribunal Superior de Contas, onde cada funcionário ou em conjunto com a ‎Procuradoria-Geral da República, deve ver quando há um crescimento descontrolado de capitais. Por ‎exemplo, de repente vê que uma pessoa que não tinha nada começa a ter muito. Todo mundo vê e diz ‎que são as remessas dos EUA. Mas quanto um jovem pode enviar dos EUA? Espera-se que ele possa ‎ajudar sua família na alimentação, educação, pagar uma parcela de sua casa. Mas não vêem que, de um ‎momento para outro, está enriquecendo. Nota-se que o mecanismo que controla o crescimento não ‎usual da riqueza, não está dando seguimento ao caso. ‎ A sociedade sempre reclama que a justiça não é eficiente e que os juízes e fiscais são facilmente ‎comprados pelas pessoas envolvidas no crime organizado. De fato, nesses anos, foram muitas as mortes ‎daqueles que se defendem dos envolvidos no tráfico de drogas e no crime organizado.‎ ‎*_- Existem esforços regionais para combater a corrupção?_*‎ São os mesmos procedimentos usados para o crime comum, os crimes praticados pelas gangues e o ‎crime organizado. Temos a aproximação entre países e comunicação direta para isto. É difícil para a ‎polícia alcançar êxito nesse momento; aqui, ainda não aconteceu o caso em que um cidadão fosse preso ‎por ter feito investimentos do crime organizado de outro país no nosso, mas há comunicação entre as ‎polícias e entre os ramos da Justiça para descobrir como minimizar este problema. As leis existem; ‎administrá-las é que é difícil.‎ ‎*_- Em seu trabalho como ministro da Segurança, como V.Sa. vê o progresso na erradicação da ‎violência? Que lições tem aprendido?_*‎ Deve-se fazer um diagnóstico correto. Eu aprendi que a segurança não pode ser politizada. Uma ‎segurança politizada cria insegurança e gera suspeitas. Se um partido político utiliza em sua campanha ‎a insegurança como um passo para subir ao poder, certamente gera a suspeita de que esse partido deseja ‎insegurança para ter a própria motivação, criando um ambiente psicossocial, onde consiga os votos que ‎deseja.‎ Minha experiência diz que se deve criar uma política de Estado contra a insegurança, onde participem a ‎sociedade e especialmente os órgãos e poderes públicos; uma política de médio e longo prazos. A curto ‎prazo, possuímos ramos da segurança que se dedicam a isso. Deve-se aprender que, em se tratando de ‎segurança é necessário atuar em uníssono através de um projeto nacional.‎ ‎*_- V.Sa. gostaria de adicionar cometários ao tema das gangues? _* ‎ Tudo que falamos são questões inerentes ao tema, mas sem estratégia todas aquelas perguntas embora ‎sejam compreendidas perfeitamente, não se vinculam. Dizem que tudo que temos esquecido é novo, ‎mas nas últimas décadas de 60 a 89, uma estratégia que o Ocidente usou para enfrentar a ameaça do ‎comunismo foi muito eficaz, porque foi muito simples, compreensível e viável.‎ Primeiro, tem que haver um desenvolvimento equilibrado. Agora, como todo mundo quer alterar os ‎termos de modernização, chamando de desenvolvimento integral, de desenvolvimento sustentável, mas ‎é o que é, um desenvolvimento equilibrado.‎ Ou seja, que haja uma distribuição de riqueza justa entre a população e, em seguida, o ponto de ‎desenvolvimento equilibrado, temos visto, uma ruptura que é percebida com a globalização, apoiada ‎pelo capitalismo neoliberal. Mas em geral, determinou-se que existe uma grande concentração de ‎capital com uma minoria, enquanto a maioria está em situação de pobreza e indigência. Isto deve ser ‎corretamente avaliado como estratégia.‎ O segundo ponto é a mobilização de idéias. Deve haver cultura, educação; colocando-se ênfase na ‎educação, pois o mundo atual é competitivo, um mundo tecnológico. Em países como os nossos, onde ‎ainda existem muitas áreas rurais, a educação não chega a essas áreas. Nosso país tem 30% de ‎analfabetos, com 50% de analfabetos funcionais, e talvez uma pequena minoria que conseguiu sair para ‎o exterior que está ao nível da concorrência.‎ Esta mobilização de idéias é fundamental, mas também a mobilização das pessoas: fazer com que os ‎agricultores possam se estudar e ter a opção de ser burocrata e que esse burocrata possa passar às ‎instâncias políticas, que haja mobilização social e, em seguida, que haja a mobilização de capitais. Que ‎não haja um único setor com capital, mas que haja uma distribuição no trabalho.‎ Por último, a aplicação da força como um terceiro elemento. Estes elementos devem ser claros e isso é ‎uma lição de guerras e conflitos passados. Não podemos usar força militar para resolver um problema ‎que era político. Essa foi a lição que a guerra fria nos deixou. Neste caso, as sociedades devem ‎compreender que não é possível utilizar a polícia para resolver um problema social. Deve haver uma ‎congruência, a burocracia tem que entender que não só através da lei se vai dissuadir. Temos que ‎erradicar o problema de baixo.‎ Neste iceberg da insegurança o substrato básico é o controle do território e o fortalecimento dos valores ‎morais. A educação é básica, o controle dos meios de comunicação: o impacto que a televisão não ‎controlada tem sobre sociedades como a nossa, eles acreditam que é a maneira normal de vida. São ‎sistemas que degradam a vida social, que a longo prazo produzem mais distorções na sociedade.‎ A aplicação da força é a estratégia que um governo de abusos pôde usar em décadas anteriores, e por ‎isso surgiu o capitalismo triunfante. Em paralelo vem a estratégia institucional. A estes grupos não se ‎deve dar facilidades. A facilidade é promovida nos meios de comunicação, os heróis da juventude são ‎os próprios jovens. Não são os Prêmios Nobel da Paz, da medicina. Todos os envolvidos nos meios de ‎comunicação estão divulgando que os jovens, os jovens delinquentes e aqueles que são agressivos, são ‎os heróis desta época. Esta facilidade de se promover deve acabar.‎ Além disso, devemos infiltrá-los, usar seus próprios membros como meio de comunicação interna. ‎Também temos que suprimir a legitimidade desses grupos. Nesse sentido, pergunto (sobre o apoio do ‎governo) que é fundamental: o governo deve priorizar o apoio popular, do povo. Sem o apoio do povo ‎a polícia não pode fazer nada. As gangues não podem agir se não têm território. A base de toda a ‎segurança social está no controle do território.‎ Só pode haver controle de território se a sociedade se organizar. Quando se fala de segurança, acredita-‎se que o outro lado da moeda é a falta de segurança. A insegurança é um indicador que nos diz o grau ‎de organização que possui uma sociedade. Existe insegurança porque a sociedade não está controlada, ‎há insegurana porque a sociedade não controla os seus espaços públicos. Temos dado o espaço público ‎ao delinquente. O honesto vive isolado nas prisões de seus lares, enquanto que as gangues e as ‎quadrilhas tomaram as ruas.‎ Por último, nesta estratégia, deve estar a reestruturação da força, os governos devem enfatizar que haja ‎uma inteligência muito boa. A força policial deve ter como prioridade a qualidade, não a quantidade de ‎policiais. Há um ponto dentro dessa estratégia que é básico: a lealdade do policial para com a ‎comunidade. A polícia deve ser realmente uma instituição de serviço, que seja valorizada pela ‎comunidade. Se o governo dá prioridade à mobilização do povo contra o crime, a polícia tem de ter ‎lealdade e compromisso com seu povo. Se um policial extorquir a população, se estiver ligado ao ‎crime, se ele se deixou ser permeado pelo crime organizado, será alvo de aversão. Se não existir uma ‎união entre a polícia e o povo, jamais se resolverá o problema de controle de território. A base de apoio ‎para os infratores, especialmente as gangues, é o território, de modo que a primeira luta é o território.‎ Depois viria o que eu chamo de uma cachoeira contra a criminalidade. Em primeiro lugar deve ‎desmistificá-los, eles não são os heróis da sociedade. Em segundo lugar, temos que enfraquecê-los. O ‎que oxigena uma gangue? O oxigênio vem dos recursos humanos. Deve-se impedir o ingresso dos ‎jovens. (Ter) uma política de segurança que capture as mentes dos jovens e não deixe que sejam ‎atraídos pelas gangues; existem outras opções para os jovens. O que mais os oxigena? O recurso ‎econômico.‎ Após desmistificar, isolar, enfraquecer, deve-se passar para o processo de infiltração. Em seguida, ‎persegui-los, devemos aplicar uma lei que seja forte e que consiga encarcerá-los, enfraquecê-los e ‎reinseri-los. Dentro desta política deve estar claro: a sociedade deve compreender que, uma vez que o ‎indivíduo tenha passado por um processo de reabilitação, deve lhe ser dadas opções para que realmente ‎encontre na sociedade uma esperança de vida, para se desenvolver, se regenerar. Se a sociedade não o ‎aceita, ele volta com mais agressividade, formando outras gangues mais agressivas.‎ ‎*_- Uma pergunta sobre o apoio da comunidade, V.Sa. crê que a iniciativa cidadã conjunta está ‎melhorando a percepção da comunidade sobre o governo e os esforços do governo para ‎solucionar o problema das gangues? _*‎ Pelo menos no nosso meio, a população acredita que o tema da segurança é exclusivo da polícia; que ‎ninguém tem a obrigação de participar na segurança. Quando eu mencionei que o governo deve ‎priorizar o apoio do povo, tem que se buscar o mecanismo para que este apoio aconteça. Se não há ‎segurança é porque não existe uma organização. Os grupos de segurança pública não são uma invenção ‎de Honduras. Nos EUA, o presidente Clinton os estabeleceu nos bairros e os chamou de “bairro ‎seguro”, em outras comunidades os chamam “comunidade mais segura”. Nós os chamamos de mesas ‎de segurança dos cidadãos e cidadãs pela segurança.‎ O objetivo do projeto do governo era organizar as duas maiores cidades: Tegucigalpa e San Pedro Sula. ‎No entanto, devido à conscientização ou à necessidade da população de se sentir segura, depois de ‎sentirem-se desanimados ou intimidados, eles começaram a unir-se, chegando ao ponto de formarem ‎mesas redondas de cidadãos jovens nas escolas para protegerem-se dos traficantes de drogas, de ‎membros de gangues, com a ajuda de seus professores.‎ Uma parte fundamental dos grupos de segurança pública foi o diagnóstico feito com a Comunidade ‎Econômica Européia e também com o governo dos EUA, da situação real de Honduras. Concluímos ‎que havia uma barreira permanente, a polícia era rejeitada pela comunidade, não tinha a confiança da ‎comunidade. Por isso, era necessário aproximar a comunidade da polícia.‎ Segundo o procedimento das mesas de cidadãos, a polícia comunitária organiza as comunidades e ‎estabelece esta relação. Mas há um fato; assim como a organização funciona para controlar o território ‎de uma comunidade, também funciona para vigiar e funcionar como auditores sociais do ‎comportamento da polícia.‎ Creio que para os dois casos as mesas de cidadãos funcionam e estão dando resultado, porque existem ‎policiais que acreditam que a população está a serviço do policial e não o policial a serviço da ‎comunidade. Foi detectado. Era um mecanismo para que a comunidade perdesse o medo do criminoso, ‎e perdesse o medo das autoridades. Em ambos os casos, funcionou.‎ ‎*_-No que se refere à inteligência, há iniciativas para melhorar a inteligência policial? _* Para isso devem-se melhorar as aptidões, fazer um esforço para obter mais qualidade do que ‎quantidade. No período que fui ministro foi dada mais ênfase à melhoria dos serviços de inteligência. ‎Ter uma lei que permita um sistema de captação de imagens e escuta do espaço radio eletrônico usado ‎pelo crime organizado. Eles nos vigiam. Alguém do crime organizado abandona um pequeno avião ‎‎(enquanto isso) nós policiais não somos capazes de comprar um avião pequeno, eles podem descartar ‎um por mês. ‎ Eles têm equipamentos de satélites sofisticados e sistemas de escuta, bem como a infiltração na polícia. ‎Os sistemas de inteligência devem ser melhorados. Quando falei com os membros da DEA ou membros ‎dedicados ao antiterrorismo internacional, disse que controlando uma prisão pode-se controlar o crime ‎organizado e o sistema de gangues. Como? Permitindo que falem através de um sistema que possa ser ‎captado. A lei é essencial para que a sociedade aceite que os grupos de inteligência possam escutar as ‎pessoas, esta tem sido uma área quase irredutível, onde a sociedade não deseja ser escutada. Mas o ‎criminoso sim, ele pode nos escutar. ‎ Por isso a melhoria dos serviços de inteligência é essencial. No nosso caso, acreditamos numa polícia ‎preventiva, uma divisão de análise para dar seguimento e que obtenha práticas e experiências comuns ‎contra o crime e gangues. Quando tiverem aprendido, haverá uma mobilização dos serviços de ‎inteligência mais especializados para que possam trabalhar com os fiscais, com a direção geral da ‎investigação criminal que é o degrau mais alto. Agora já existe um procedimento padrão para ir ‎produzindo e aceitando a ajuda de inteligência. Os EUA nos fornecem ajuda, mas muitas vezes, não ‎temos capacidade tecnológica para receber essa ajuda. Por isso o serviço de inteligência deve avançar e ‎estar à frente; contra as gangues, o serviço de inteligência deve ser prioridade.‎ ‎_O general Romero é professor de geopolítica no Colégio de Defesa Nacional de Honduras e foi ‎ministro da Defesa (1990-91). Foi embaixador de Honduras na Nicarágua (1992-93), chefe de Estado ‎Maior Presidencial de Honduras (1994-98) e ministro da Segurança Pública (2006-2007)._
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