A luta contra o Tren de Aragua tem se intensificado na América Latina, revelando graves danos estruturais infligidos à organização criminosa transnacional venezuelana. Esses sucessos são resultado direto da ação decisiva das forças de segurança regionais, reforçada por uma cooperação internacional crucial.
Uma decisão histórica no início de junho pelo Tribunal Penal Oral de Iquique, na região de Tarapacá, no Chile, levou à condenação de 12 líderes importantes do Tren de Aragua. O procurador nacional Ángel Valencia descreveu o veredicto como histórico, com os réus considerados culpados de 39 crimes, incluindo sequestro com homicídio, tráfico de pessoas e contrabando ilegal de migrantes. Esta foi a primeira vez que um tribunal chileno reconheceu formalmente a existência e a atividade criminosa de uma célula do Tren de Aragua em território nacional.
A gangue iniciou suas operações no Chile em 2021, na região de Tarapacá, e rapidamente ampliou seu controle sobre as atividades ilícitas na zona de Colchane, na fronteira com a Bolívia. A Promotoria do Chile identificou Carlos González Vaca, conhecido como Estrella, como líder da organização, enquanto Harol Rangel Villa, conhecido como Harol Petare, e Hernán David Landaeta Garlotti, apelidado de Satanás, foram identificados como os principais assassinos responsáveis por vários crimes.
“Conseguimos que sejam condenados membros importantes do Tren de Aragua responsáveis por crimes gravíssimos, como sequestro com homicídio, tráfico de migrantes, tráfico de pessoas e outros”, declarou o procurador Valencia. “No Chile, as organizações criminosas não têm nem terão espaço.”
Cadeia de sucessos
Este grande sucesso judicial no Chile segue uma série de operações policiais significativas que se desenrolaram ao longo do ano passado e continuam até hoje, ressaltando a crescente coordenação regional contra o grupo criminoso. Esses esforços incluem uma forte colaboração internacional.
A conexão do Tren de Aragua com o regime venezuelano de Nicolás Maduro continua sendo um ponto central de tensão e perseguição regional. A gangue está explicitamente ligada ao assassinato do ex-oficial militar venezuelano, Ronald Ojeda, em fevereiro de 2024. Os promotores chilenos acusaram formalmente o grupo terrorista de executar o assassinato por motivos políticos de Ojeda, alegando que o ato de repressão transnacional foi ordenado por altos funcionários do regime de Maduro, incluindo Diosdado Cabello.
No final de maio de 2025, as autoridades do Chile realizaram uma importante operação coordenada contra as redes do Tren de Aragua, denominada Operação Metástase. O Ministério Público e a Polícia de Investigações (PDI) capturaram 29 criminosos nas regiões de La Araucanía, Valparaíso e Metropolitana. Essas detenções foram dirigidas contra membros das facções Los Piratas e Loyalty, envolvidos no tráfico de drogas e na extorsão de trabalhadoras sexuais venezuelanas.
Simultaneamente, na Argentina, foram detidos 12 indivíduos, vinculados ao Tren de Aragua. A ministra da Segurança da Argentina, Patricia Bullrich, afirmou através do X que essa célula operava como o braço financeiro do grupo, movimentando milhões através da compra de ouro, propriedades rurais e ativos de alto valor em áreas exclusivas, todos os quais foram identificados para sua apreensão. Isso representou um duro golpe para a estrutura financeira da organização. Segundo Bullrich, esta operação foi o resultado de uma investigação conjunta com o FBI e a Interpol que durou um ano.
“A cooperação multilateral andina em matéria de segurança fronteiriça é fundamental e é uma responsabilidade de várias agências, não apenas da polícia, da imigração e dos próprios serviços de inteligência”, comentou Andrés Gómez de la Torre, analista internacional peruano, em entrevista à Diálogo em julho de 2025. “Devemos desenvolver maiores ações de coordenação fronteiriça de migrações e dos próprios serviços de inteligência no nível policial e estratégico”.
Outra captura significativa ocorreu em março de 2025, quando, graças à coordenação entre as forças da Colômbia e do Chile, Gabriel Arturo Acosta Escalante, líder da célula Hermanos Cartier do Tren de Aragua, que atuava na região de Los Lagos, no Chile, foi capturado em Antioquia, na Colômbia. Essa célula era responsável por sequestros, homicídios, extorsão, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, ameaças e conspiração. O ministro da Segurança Pública do Chile, Luis Cordero, confirmou que Acosta Escalante dirigia todas as operações criminosas a partir da Colômbia, sem nunca pisar o solo chileno, o que destaca o caráter transnacional da liderança do grupo.
“Os recentes golpes contra o Tren de Aragua refletem avanços significativos na luta contra esse grupo criminoso”, comentou à Diálogo em julho Luis Toledo, diretor do Centro de Estudos em Segurança Pública e Crime Organizado da Universidade San Sebastián, no Chile. “Este modelo operacional combinado, que inclui promotorias, polícias e organismos internacionais, permite identificar pontos-chave, como o controle de fronteiras em Tarapacá e as redes de lavagem de dinheiro por meio de empresas de ônibus.”
Últimos golpes: lavagem de dinheiro e ações dos EUA
A pressão contra as estruturas financeiras do Tren de Aragua continua crescendo. No final de junho, as autoridades chilenas anunciaram o desmantelamento de uma importante rede de lavagem de dinheiro ligada à gangue. Essa operação permitiu descobrir mais de US$ 13,5 milhões que haviam sido lavados fora do Chile e que eram provenientes de atividades criminosas. Pelo menos 52 pessoas, na sua maioria estrangeiros, foram detidas em várias regiões, incluindo Santiago, Tarapacá e Valparaíso.
No sucesso judicial mais recente, cinco supostos membros do Tren de Aragua foram extraditados dos Estados Unidos para o Chile em outubro de 2025 para responder a acusações, demonstrando a eficácia prática dos acordos bilaterais de segurança.
A base dessas ações de aplicação da lei é o novo status jurídico global do Tren de Aragua. A comunidade internacional designou formalmente o Tren de Aragua como uma ameaça terrorista em 2025. Em fevereiro de 2025, o governo dos Estados Unidos designou o Tren de Aragua como Organização Terrorista Estrangeira (FTO). Essa pressão global foi rapidamente confirmada em todo o hemisfério, com países como Canadá, Argentina, Equador, Paraguai e Trinidad e Tobago classificando formalmente o Tren de Aragua como uma organização terrorista.
“A designação do Tren de Aragua como organização terrorista pelos Estados Unidos […] fornece ferramentas fundamentais: permite congelar ativos por meio de leis como a Lei Patriota; agiliza extradições […]; e facilita a coordenação militar-policial sob a resolução 1540 da ONU”, opinou Toledo.
No entanto, Toledo, ex-procurador chefe da Unidade de Drogas do Ministério Público Nacional do Chile, ressalta que essa classificação deve ser complementada com medidas que ainda não existem de forma universal na região. Isso inclui a harmonização legislativa regional para classificar uniformemente os crimes e a criação de tribunais especializados com juízes treinados em crime organizado e crimes transnacionais, juntamente com a proteção internacional de testemunhas.
Os sucessos contra o Tren de Aragua no Chile e em toda a região, reforçados pela intensificação de esforços internacionais e designações, destacam o papel fundamental da cooperação internacional sustentada e do intercâmbio de informações de inteligência, para desmantelar as complexas redes criminosas transnacionais.
Observação: este artigo é uma versão revisada e atualizada de um relatório publicado originalmente em julho de 2025.


