A Rússia tem intensificado sua influência na América Latina em várias frentes. No setor de tecnologia da informação, a Rússia vem fornecendo sistemas avançados de vigilância a vários países latino-americanos, tecnologia que é fundamental para a sobrevivência de regimes autoritários.
Em um relatório publicado recentemente pelo Instituto Jack D. Gordon de Políticas Públicas, da Universidade Internacional da Flórida (FIU), Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, uma empresa de consultoria especializada em desafios de segurança, revela que essas tecnologias reforçam o controle das autocracias e facilitam as atividades de grupos criminosos, ameaçando a segurança regional.
O relatório de Farah também mostra que a transferência de tecnologias de vigilância e outras atividades cibernéticas russas, operadas por agentes ligados às estruturas estatais de criptologia e vigilância, permitem ao Kremlin acessar informações militares, policiais e financeiras em vários países das Américas.
“O caos é outra ferramenta da estratégia russa. Moscou colabora com grupos criminosos aos quais fornece informações confidenciais”, explicou à Diálogo Luis Fleischman, professor de sociologia e ciências políticas da Universidade Estadual de Palm Beach. “As atividades ilegais conduzidas por esses grupos aumentam a instabilidade, a qual a Rússia pode intensificar por meio de tecnologia avançada.”
De acordo com o relatório, a tecnologia de vigilância que Moscou fornece na América Latina está “entre as mais sofisticadas do mundo”. Isso permite que o Kremlin se projete como um ator global relevante, capaz de operar nos domínios da cibernética e da defesa, para proteger seus interesses geopolíticos.
Monte Mokorón
De acordo com o site investigativo nicaraguense Confidencial, a base do Exército da Nicarágua na colina de Mokorón, ao sul de Manágua, conhecida como Base de Mokorón, ou Unidade 502, é na verdade um centro de espionagem russo.
“A Base de Mokorón usa um sistema de radiogoniometria e SORM-3, uma tecnologia russa que rastreia comunicações e permite a vigilância de embaixadas e ‘traidores’ da ditadura dos Ortega-Murillo”, diz Confidencial. “O SORM-3 foi fundamental para identificar líderes nos protestos de 2018, que resultou na morte de mais de 350 manifestantes.”
Desde 2017, Moscou controla antenas e equipamentos de vigilância que instalou em várias bases no país. Somente os membros do serviço russo têm permissão para operar os equipamentos, enquanto os militares nicaraguenses estão limitados a proteger as áreas.
“Regimes como os da Nicarágua, Bolívia, Venezuela e Cuba são capitalizados por Moscou”, disse Fleischman. “Essas autocracias com recursos limitados aceitam qualquer apoio externo, seja da Rússia, da China ou do Irã, para se manterem no poder, praticamente entregando seus países e subordinando-se.”
Embaixadores digitais
Em 2021, Moscou lançou um programa de “embaixadores digitais” a partir dos seus consulados, para apoiar as empresas russas de sistemas de informação e instalar seus equipamentos de espionagem no exterior. Atualmente, esses adidos estão presentes em 16 países, incluindo Argentina, Brasil, Cuba e Peru, para “aumentar as exportações de tecnologia”, ressalta Farah.
De acordo com Farah, SearchInform, uma empresa russa de informática, tem acesso direto a bancos de dados da polícia e de ministérios em países como Argentina e Paraguai, além de subsidiárias no México e em outros países da região. Sua presença sugere um acesso considerável à infraestrutura cibernética do governo em cada país em que opera.
“Isso representa um risco real à segurança”, enfatizou Fleischman. “Na América Latina, os desafios para o Estado de Direito são profundos: o autoritarismo, a anarquia e a fraqueza institucional complicam a luta contra o crime organizado, um problema que afeta toda a região.”
Caso alarmante
A capacidade de espionagem e vigilância que as tecnologias russas oferecem representa um sério risco nas mãos de ditaduras. Essas ferramentas possibilitam o monitoramento e a localização de pessoas com precisão sem precedentes, para poder detê-las. “As autocracias manipulam as leis para justificar esses atos de repressão”, declarou Fleischman.
“Um caso preocupante é o da Venezuela, onde adolescentes estão sendo detidos, sem nenhuma informação sobre seu paradeiro ou estado de vida, após as eleições de julho”, acrescentou. “Isso evoca um cenário orwelliano: hoje, a tecnologia russa permite aos Estados despóticos um controle absoluto e repressivo, superando o alcance da era soviética e aprofundando o fascismo a níveis sem precedentes.”
A influência da Rússia na América Latina está crescendo junto com uma aliança alarmante entre alguns regimes autoritários, cartéis mexicanos e grupos colombianos, destaca Farah em seu relatório. Essa relação não apenas enfraquece a democracia internamente, mas também os conecta com a China, a Coreia do Norte e o Irã, formando um bloco que desafia a democracia e a paz.
Para Fleischman, a sociedade civil não pode ser passiva diante dos desafios que a região enfrenta. “É hora de que os cidadãos tomem as rédeas e exijam ações concretas de seus governos.” As questões de interesse público, como a crescente influência da Rússia, devem ser objeto de um debate aberto e participativo. “A democracia não se limita ao ato de votar; ela exige uma cidadania ativa que monitore o poder e defenda seus direitos”, concluiu.


